01 julho 2007

Acabou "Celebridade"



Na sexta-feira passada, na hora do último capítulo de "Celebridade", estava festejando o casamento de Alexandre e Sílvia, amigos queridos. Depois da cerimônia e das valsas, nas conversas de mesa, já era conhecido o desfecho: Laura matou Lineu, Laura e Marcos morreram, Renato foi para a cadeia. Surgiram tantas perguntas que foi preciso entrevistar por celular alguém que assistira ao episódio: o que aconteceu com Ana Paula? A Darlene, a Jacqueline? E o Cristiano, a Beatriz?

Mais tarde, na frente da casa do Pacaembu onde acontecia a festa, a novela foi o tema de minha conversa com os seguranças e os motoristas do "valet parking".

No sábado, novos comentários no café onde almoçamos, no táxi que me levava até uma livraria e com o vendedor que lá me atendeu. À noite, com um casal de amigos, o programa foi risoto e reprise do último capítulo. Deu um bom papo. Isso sem contar as mensagens sobre o fim da novela que os internautas iam postando nos blogs abertos para a ocasião.

Não assisto às novelas com regularidade. Com a exceção de "Terra Nostra" (que curti integralmente nas fitas que são distribuídas pelas lojas brasileiras dos EUA), vejo, em média, três capítulos por mês de cada novela das oito. É suficiente para ter uma idéia da evolução da trama e para não ficar a ver navios quando alguém evoca uma personagem ou um tema da novela em curso.

O que mais me interessa (e admiro) nas novelas é sua função nas conversas cotidianas. Acho extraordinário que, durante meses, uma mesma história esteja ativamente presente no imaginário da maioria.

Há os que não perdem um capítulo e mal se lembram de que se trata de uma ficção; e há, no outro extremo do leque, os que não conseguem mencionar a novela sem manifestar desprezo ou condescendência. Mas, salvo considerar que a própria existência do Brasil como nação seja um infortúnio, todos (ou quase) reconhecem que as novelas tiveram e têm um papel crucial na unificação do país, fornecendo narrativas comuns do Oiapoque ao Chuí e das favelas às mansões.
Claro, elas propõem os ideais urbanos de consumo às massas rurais ou desfavorecidas, assim como, às vezes, idealizam o campo e as vilas para as massas citadinas. Mas, com isso, elas nos levam a incluir vidas diferentes no nosso repertório de histórias possíveis.

Voltemos às conversas que escutei ou das quais participei nesses dias. Eis uma pequena amostra das questões levantadas.

Marcos: merecia a mesma punição que Laura? Como medir os graus de maldade: pela (relativa) moderação nos atos (nesse caso, Marcos é menos culpado)? Ou pelo cinismo das motivações (nesse caso, Laura, pelo ódio que a anima, é menos culpada)?

Beatriz: era do mal ou do bem? Ou seja, o amor (por um parceiro ou por um filho) pode ser uma "desculpa"?

Daniel: estragou ou não estragou o filho, Paulo César? Será que, quando tentamos compensar um abandono passado, estamos sobretudo comprando a absolvição de nossa culpa?

Maria Clara: tinha direito de se aproveitar do amor de Hugo? Ainda bem que Hugo ganhou uma viagem a Florianópolis com Ana Paula Arósio.

Cristiano: se ficasse sozinho, seria bem feito. Quem não tem a coragem de enxergar o amor dos outros e de declarar o seu, que se dane.

Vladimir: será que é verdade que todo brasileiro quer ser anônimo? E será que ser anônimo é condição de ser feliz? Não é uma história que contam os famosos para nos consolar?

Darlene: qual das duas é verdadeira, a que se alegrava com o incêndio que quase matou suas crianças, dando-lhe um momento de primeira página? Ou a que renuncia ao papel numa novela de Sílvio de Abreu para cuidar dos seus bebês? Será que há mesmo uma alternativa entre sucesso e amor materno? Será, em suma, que o mundo comandado pela revista "Fama" é um clube de celibatários?

Inácio e os filhos de Ana Paula: o que é amor de mãe e de pai? Coisa de sangue ou coisa de coração?

Explosão de papo noveleiro? Certo, mas o fato é que, em matéria de moral, as grandes fórmulas fracassam sempre. Na complexidade do dia-a-dia, a sabedoria moral é feita de parábolas, de exemplos e contra-exemplos. A capacidade de decidir o que é justo depende da variedade de nosso repertório de experiências e de histórias. Ou seja, depende da riqueza de nossa cultura.

Alguns se indignaram com a presença de Gilberto Gil na festa conclusiva do último capítulo. Não entendo. Acaba uma vasta ficção que leva o povo inteiro (ou quase) a discutir sobre os casos da vida e sobre as incertezas morais que os acompanham: se o ministro da Cultura não deve cantar e tocar nessa ocasião (sendo que ele faz isso muito bem), não sei quando deveria.

Enfim, a quem objetasse que as novelas vão e vêm sem constituir nenhum repertório de narrativas que nos sirvam para a vida, respondo com o comentário de um internauta quando, antes de sexta, choviam palpites sobre quem seria o assassino de Lineu. Ele escreveu: "Eu sei, foi Odete Roitman".

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