18 dezembro 2008

Calculando os danos



Todo crime é também crime contra a confiança, sem a qual qualquer coletividade se desfaz


A confiança, como mostrou Francis Fukuyama em livro de 1995 ("Confiança", Rocco), é a pedra angular da sociedade moderna, o que faz com que a convivência social seja minimamente harmônica, próspera e capaz de garantir o bem-estar (não só econômico) dos que vivem sob um mesmo céu. Confiança no quê? A confiança recíproca entre os cidadãos alimenta a confiança de todos na existência de uma coletividade.

Pois bem, nestes dias, a Justiça italiana levou a sério Fukuyama e o espírito natalino, reconhecendo oficialmente que, numa sociedade moderna, o crime não prejudica apenas suas vítimas imediatas, mas lesa muito concretamente a própria coletividade. Aqui vão os fatos, relatados pelo "Corriere Della Sera".

Em junho passado, em Milão, foi decretada a prisão de um grupo que dirigia uma clínica particular: o dono da clínica, médicos, cirurgiões etc. A gangue efetuava procedimentos médicos e cirúrgicos desnecessários, mesmo se danosos e cruéis, nos pacientes mais indefesos, idosos, doentes terminais etc.

Com isso, os criminosos da clínica Santa Rita inflavam o volume dos reembolsos que lhes eram devidos pelo Estado.

Até aqui, nada que nos surpreenda, não é? Mas eis que a procuradoria italiana acaba de apresentar a conta dos danos que os acusados (cujos bens já foram bloqueados) deverão compensar. Trata-se de dinheiro que eles devem à Fazenda -fora a reparação dos danos morais e materiais das vítimas diretas.

A clínica Santa Rita recebeu do Estado italiano, por tratamentos desnecessários, pouco menos de 2,7 milhões (R$ 8,5 milhões), que devem ser devolvidos. Mas a procuradoria pede também o valor de 10,8 milhões (R$ 32 milhões, quatro vezes o valor da falcatrua) não como punição abstrata, mas como compensação pelo dano que foi sofrido pela imagem do sistema sanitário italiano, pela imagem da própria Itália e pela comunidade dos cidadãos italianos.

Claro, a gangue da clínica Santa Rita infligiu perda financeira à coletividade sanitária, pois é presumível que o escândalo desencoraje os clientes estrangeiros que, sem isso, escolheriam se curar na Itália. Além disso, é possível que a notícia, circulando, desgaste a imagem do país, com conseqüências nefastas para o valor do "Made in Italy".

Da mesma forma, um assaltante da orla carioca produz um dano que vai além do relógio ou da carteira que ele rouba. A reputação da cidade piora, o turismo diminui, e, enfim, o crime prejudica a imagem do Brasil, cujo apreço internacional afeta o valor de tudo o que é brasileiro: pessoas, objetos manufaturados, investimentos possíveis etc.

Mas o pedido da procuradoria milanesa vai mais fundo; ele tenta quantificar também outro prejuízo, menos material, mas não menos importante: o prejuízo que a própria comunidade sofre pela erosão da confiança que é a condição de sua existência.

Cada crime, além dos danos quantificáveis que produz, também destrói aos poucos a confiança que permite que haja comunidade. O assalto na esquina nos rouba a todos a confiança necessária para passear na rua numa noite de verão ou para manter os vidros do carro abertos e conversar com a criança que vende chicletes no farol.

O crime da clínica Santa Rita roubou aos milaneses a confiança na medicina à qual eles devem recorrer a cada dia.

O administrador e o político corruptos nos roubam a confiança na existência de uma coisa pública e na possibilidade de inventarmos formas melhores de convivência.

Em suma, o pedido da procuradoria italiana nos lembra de que todo crime contra as pessoas ou o contra o patrimônio é também (se não sobre tudo) um crime contra a confiança, sem a qual, a longo prazo, qualquer coletividade se desfaz.

Para todos, meus votos de boas festas, ou seja, de ao menos uma semana durante a qual possamos fazer de conta que é possível confiar.

2 comentários:

  1. só posso desejar boas semanas de festas de Natal e Ano Novo, pra vc, Contardo, e seus leitores, enviando um poema que fala de amar os que nem conhecemos, ou confiar nos seres incapazes de nos ludibriar, como os da clínica Santa Rita ou como os trombadinhas que roubam a tal paz que cada turista busca ao se encantar com a viagem da vida...pra vcs, TSUNAMI

    tsunami ( a sós)
    antes da grande onda
    por favor, me ame a mim
    ame a humanidade toda
    ame a mulher songa-monga
    a criança down, o velho coxo
    o pedinte sujo e o pivete esperto
    ame o inimigo tolo, o macaco rhesus,
    a flor entreaberta, a porta fechada
    dos corações endurecidos,
    antes da grande onda
    por favor, me beije assim
    como se fosse próximo o fim
    do nosso amor e dos tempos
    e se compadeça do ser humano
    do pobre bicho pensante e ignorante...
    antes que a água nos invada
    me inunde de paixão acesa
    me resplandeça
    sim, me aqueça
    me enterneça
    e jamais se esqueça
    que haverá um dia
    em que a terra-mãe
    acolherá nossos restos de paixão...
    antes dos tsunamis
    invoque os bhamas, os deuses, os avatares,
    peça perdão pelos desvalidos seu desvios
    seus erros de avaliação, pelas bombas atômicas
    pelas criaturas atônitas
    convoque a onu, dos homens nus, dos sem destino,
    e entoe pra mim, um lindo hino
    de paz na terra, em meio ao luto, distribua afeto
    pelos desconhecidos, pelos nossos mares revoltos...
    antes da grande onda,
    por favor, me diga onde está seu abraço,
    onde posso apaziguar meu corpo no seu cansaço
    de ser quem sou, um nada a mais, uma gioconda
    sem sorriso, talvez uma alma sem corpo...
    mesmo assim, querido , um último pedido lhe faço:
    venha para mim, antes da onda gigante,
    e me faça morrer no seu calor como uma flor...
    me deixe sucumbir na sua dor como um final feliz...
    me veja conformar o povo do mundo com a doçura da meretriz
    e não me abandone ao tsunami feroz
    sem antes me sussurrar que me quer um bem abstrato
    um bem sem medidas, um bem além de nós
    um bem super-humano, um bem capaz de engolir o fato
    de ser quem sou, pequena e frágil, se estou assim:
    como meus irmãos da Ásia e do mundo inteiro : a sós...

    Aparecida Torneros



    iar, como os da clínica Santa Rita ou como os trombadinhas que roubam a tal paz que cada turista busca ao se encantar com a viagem da vida...pra vcs, TSUNAMI

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  2. Ola visitei seu blog e achei um barato e gostaria de convidar para acessar o meu também, conferir a postagem desta semana: Estratégia Esportiva – Versão: A águia e a galinha. E fizemos também uma mensagem especial de fim de ano para você.
    Sua visita será um grande prazer para nós.
    Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
    Atenciosamente,
    Sebastião Santos.

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