21 outubro 2010

Pensamentos concretos sobre o aborto



Em matéria de aborto, não sou nem a favor nem contra. Muito pelo contrário. Mas muito mesmo

1) Às vezes, para descobrir o que pensamos, é útil pôr de lado nossos princípios. Pois, em matéria de costumes, os preceitos gerais servem sobretudo para evitar dilemas concretos nos quais nosso pensamento iria revelar-se muito mais complexo do que os princípios que bradamos.

2) Numa situação em que o aborto seja necessário para salvar a mãe, mesmo nos meses finais da gravidez, quase todos dirão que a vida da mãe deve ser preservada (aqui, a lei brasileira, como é normal que aconteça, sanciona o sentimento da maioria).

Agora, imagine que, cinco minutos depois do corte do cordão umbilical, apareça uma condição médica na qual a mãe morrerá sem falta se não receber o transplante de um órgão que só o recém-nascido pode lhe oferecer -sendo que o bebê perderá a vida ao ser privado desse órgão. Para qualquer um de nós, esse transplante mortífero seria uma abominação.

Imagine ainda que, no meio de um parto difícil, a mulher esteja inconsciente e o médico pergunte ao pai: "Devo salvar a mãe ou a criança?". O pai que decidisse salvar a criança (e sacrificar a mãe) seria, aos nossos olhos, acredito, um simples uxoricida.

Parece, em suma, que o direito do feto à vida está subordinado ao da mãe e é inferior ao da criança que já nasceu.

Mas consideremos o caso de alguém que matou uma mulher grávida e, abrindo seu corpo, esfaqueou o feto. No meu foro íntimo, ele é culpado de dois assassinatos.

Da mesma forma, o canalha que, voltando bêbado para casa, produziu o aborto de sua mulher a pontapés e agulha de tricotar enfiada à força no útero, no meu foro íntimo, é um assassino de fato e de direito, não "só" um espancador de mulher.
De repente, a vida do feto parece adquirir uma dignidade comparável à dos adultos.

3) Aceitamos que o aborto seja praticado para preservar a vida da mãe. Mas é curioso que "vida", nesse caso, signifique apenas simples sobrevivência. Viver é muito mais do que prolongar a existência, e o bem-estar não é só o bom funcionamento dos órgãos. Quer comprovar? Tente "consolar" um enlutado com a falsa sabedoria de que "saúde é o que interessa, o resto não tem pressa". Corrijo-me: não tente.

Se a vida não é só sobrevivência abstrata, o que pode significar aceitar o aborto para preservar a vida concreta da mãe?

4) A oposição não é entre os que privilegiam a vida do feto e os que privilegiam a escolha livre da mulher, mas entre abstrato e concreto.

Vamos privilegiar a vida do feto? Ótimo, mas que seja a vida concreta. Para exigir de uma jovem que ela leve a termo uma gravidez involuntária, é preciso oferecer-lhe a garantia de que ela poderá abandonar a criança com dignidade e de que a criança abandonada não ficará para sempre num orfanato. Ou seja, é preciso proteger a vida concreta do nascituro.

Vamos privilegiar a escolha? Nos anos 1970, na Suíça, havia imigrantes italianos que eram autorizados a trabalhar por períodos de 11 meses. Ao fim de cada período, eles tinham que voltar para seu país e lá ficar durante um mês. Era um artifício para que eles não se tornassem residentes e não pudessem levar consigo mulheres e filhos.

Um pouco para compensar a longa frustração, um pouco para que as mulheres, lá na Itália, tivessem de que se ocupar durante a longa ausência do marido, a regra era engravidar a esposa a cada volta para casa. Uma dessas esposas, num vilarejo da Campanha, tinha 30 anos e 11 filhos. Ela tentou abortar o 12º do jeito que dava. Perdeu a vida. Nessa história, onde está a escolha livre?

5) Uma menina de 13 anos transa pela primeira vez com um menino de 17. Ela ouviu dizer que é prudente usar camisinha. Ele explica que a camisinha foi proibida pelo papa. Passei um mês cruzando os dedos e funcionou: a menina não engravidou. É possível criminalizar o aborto e, ao mesmo tempo, desaprovar a contracepção?

6) No corredor de um pronto-socorro lotado, um médico (?) diz a uma enfermeira: "Não se preocupe. Ela abortou, deixe sangrar". Há os que querem criminalizar o aborto para punir a mulher: "Transou? Agora encare as consequências".

Alguém, a esta altura, perguntará: "Afinal, você é contra ou a favor da descriminalização do aborto?". Não sou nem a favor nem contra. Muito pelo contrário. Mas muito mesmo.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2110201023.htm

10 comentários:

  1. Só passei para dizer que te acho genial.

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  2. Exato. Não é uma questão de ser contra a favor.

    Ninguém precisa ser contra ou a favor.

    O problema existe. Há mortes de mães e filhos.

    E daí?

    O que vai ser feito?

    As várias alternativas que podem ser tomadas ferem e machucam princípios de todos.

    alternativa a favor da discriminalização: contra a Igreja e os religiosos.

    alternativa contra a discriminalização: vai contra o direito da mulher que tem seus motivos pra não conceber uma vida.

    Eu tenho minha opinião. Seu texto só reforçou o que penso.

    Muito bom.

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  3. Aborto de quem?
    Só é possível uma posição quando isso for dito, se é que é possível...ao menos contornado.

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  4. Pela primeira vez não gostei de um texto do Contardo... achei muito cômoda a sua posição.

    Ser a favor da descriminalização do aborto não é ser afavor do aborto como médodo anti-concepcional e muito menos deixar de discutir problemas sociais relativos à natalidade.

    Bastante pobre o texto.

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  5. Só se aborta quem se encontra em desespero, razões várias e argumentos inúteis pra explicar a dor de quem o faz... Fosse homem embarrigando a coisa seria outra, homem sempre tem razão!

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  6. Vamos direto ao ponto!
    90% dos casos reais de aborto não tem nada a ver com o que foi colocado aqui né? Na verdade a questão está mais fortemente ligada a total "liberdade" de fazer sexo a vontade e descartar o "problema", do que realmente discutir o real sentido da vida.
    Nesse caso não seria mais fácil trabalhar a questão da vazectomia e laqueadura? Esses sim são processos que deveriam ser alavancados, tendo em vista impedirem a vida, e nesse caso limitando o aborto aos casos extremos aqui citados.
    Mas esse parece ser um assunto ainda mais difícil né? Infelizmente!
    Rinaldo

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  7. Mauricio Silveira4 de nov de 2010 02:12:00

    Entendo ser, de fato, importante a abordagem de temas polêmicos e graves como o do aborto e, tanto mais, quando isso é feito, a exemplo daqui, com reflexão, inteligência e tentativa de isenção.
    Me preocupa a idéia de "privilegiar a vida concreta". O ponto fulcral do debate parece-me estar distante daí.
    Admitiríamos a morte (ou que "apenas" se deixasse morrer) uma criança ou um adulto que, da sarjeta, do abandono, estando sem rumo, sem destino, revelasse não possuir, há tempos, "vida concreta"?
    Fundamental, como disse antes, debater temas como esse com liberdade, mas me pareceu que o texto pecou pelo simplismo.

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  8. Todos nós consideramos o direito à vida um valor universal. Para mim, por ex., em qq circunstância, a vida deve ser preservada. Muitas situações, entretanto, podem por em cheque nossa convicção a favor da vida. Se uma jovem descobrir que está grávida e que não tem condição de contar com o auxílio do parceiro (ou de sua família), deve optar por um aborto?
    Situações como essa colocam-nos diante de um dilema objetivo - optar ou não por um aborto? Que decisão tomar? Devo seguir a norma segundo a qual a vida deve ser preservada ou transgredí-la? Como conciliar minha convicção a favor da vida com a minha ação moral? O critério fundamental para essa decisão é a reflexão ética. Polêmicas como o aborto, a eutanásia, a manipulação genética e outros têm abalado os alicerces da religião, da tradição e dos valores. Por isso mesmo sugerem reflexão sem precedentes para a ética.

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  9. Todos nós consideramos o direito à vida um valor universal. Para mim, por ex., em qq circunstância, a vida deve ser preservada. Muitas situações, entretanto, podem por em cheque nossa convicção a favor da vida. Se uma jovem descobrir que está grávida e que não tem condição de contar com o auxílio do parceiro (ou de sua família), deve optar por um aborto?
    Situações como essa colocam-nos diante de um dilema objetivo - optar ou não por um aborto? Que decisão tomar? Devo seguir a norma segundo a qual a vida deve ser preservada ou transgredí-la? Como conciliar minha convicção a favor da vida com a minha ação moral? O critério fundamental para essa decisão é a reflexão ética. Polêmicas como o aborto, a eutanásia, a manipulação genética e outros têm abalado os alicerces da religião, da tradição e dos valores. Por isso mesmo sugerem reflexão sem precedentes para a ética.

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  10. Sevocê conhecesse uma mulher grávida, que já tem 8 filhos, 3 surdos, 2 cegos um retardado mental e ela tivesse sífilis, recomendaria o aborto?

    Em caso afirmativo, lembre-se que você mataria Beethoven.

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