16 dezembro 2004

Negros brasileiros

Em 1840, a fotografia chegou ao Brasil. Foi um sucesso imediato, graças, em particular, à paixão pelas inovações científicas do futuro d. Pedro 2º, que encomendou um aparelho e incentivou a nova arte.

Portanto muitos fotógrafos documentaram o Brasil do século 19. Alguns, brasileiros ou viajantes, se interessaram em retratar os negros: as imagens exóticas de escravos do campo ou de ganho vendiam bem na Europa. E houve os que fotografavam corpos africanos para pesquisas antropométricas sobre as diferenças raciais. Outros trabalhavam para a Justiça e o arquivo dos condenados. E por aí vai.

"O Negro na Fotografia Brasileira do Século 19", de George Ermakoff, é um livro cativante. Uma vez o volume fechado, a galeria de rostos não sai da memória.

As mulheres foram humilhadas tanto quanto os homens. Há, por exemplo, o retrato de uma ama-de-leite sendo cavalgada pela filha dos donos. Claro, todos fomos um dia o cavalinho de nossos filhos, mas, no caso, a cena é uma metáfora intolerável. Resta que os retratos femininos são menos consternadores que os masculinos. O olhar das escravas é vivo: em cada uma delas reconhecemos imediatamente um semelhante.

Os homens, ao contrário, olham para nós como peixes à venda no mercado. Seu olhar não nos alcança, é opaco, perdido. Nunca encontrei um zumbi, mas aposto que, se encontrasse um, seu olhar seria esse. E entendo, pela primeira vez, por que o nome do herói de Palmares é certeiro: zumbi, o cadáver que anda.

Na página 121 do livro, está o duplo retrato de um único escravo, "com e sem chapéu". Nas duas poses, o modelo se mantém idêntico, com a mesma fixidade molhada e cega dos olhos; o chapéu rígido de feltro (coisa de branco) não o transforma nem um pouco. Ele é um gancho, no qual alguém, casualmente, pendurou o chapéu ao entrar em casa.

Imaginemos que fosse o chapéu de Alberto Henschel, o fotógrafo. Em Henschel, o dito chapéu devia produzir algum efeito, designar seu usuário como senhoril, dizer sua classe social ou, no mínimo, sua obediência ou não às regras da elegância da época. No escravo, o chapéu não pega. Nele, os apetrechos que qualificam socialmente não produzem efeito nenhum, porque falta substrato: um chapéu pode valorizar e enobrecer um cidadão, mas não um cabide.

Mas por que o olhar das mulheres retratadas é mais vivo? Por que as escravas parecem ser menos devastadas pela escravidão do que os homens?

Primeiro, porque há um valor social que é indissociável do corpo feminino, quase um efeito de sua fisiologia: a capacidade de procriar e de ser mãe. As amas-de-leite podem ser escravas, mas sua função lhes atribui uma dignidade simbólica que as ampara, que impede que elas sejam só peitos. E há mais, talvez a própria concupiscência dos donos salvasse as escravas: "Perdi clã, família, tribo e nome, sou vendida e comprada, mas meu corpo não pode ser apenas uma massa de carne, deve valer algo mais se os donos se insinuam na senzala procurando meus favores".

Ora, para os homens, qual poderia ser o remédio contra a perda de clã, tribo, nome e dignidade simbólica?

Há fotografias, no livro, que falam da tentativa frustrada de dar algum valor à paródia de uma dignidade perdida. Vestidos de trajes supostamente africanos (págs. 126 e 127, por exemplo), os escravos se tornam farsantes de seu próprio passado para satisfazer o gosto dos donos pelo exotismo. Aqui o escárnio se acrescenta à perda.

Mas há um outro caminho pelo qual, de fato, os homens escravos reencontraram algum valor social. Diz assim: "Se minha dignidade é negada, se me torno apenas um corpo, sobra-me a possibilidade de encontrar uma fonte de valor justamente neste corpo, que é o que me resta".
Não é por acaso que, nos países com um passado escravagista (ou brutalmente colonial), existe e insiste a fantasia da excepcional prestança física e sexual do escravo ou do colonizado. É, por exemplo, o garanhão árabe na França ou o negro tarado e superdotado nos EUA.

Na pág. 239 do livro, está um dos raros retratos em que o olhar do escravo contém uma inesperada faísca de provocação, talvez de revolta contida. Curiosamente, a braguilha do jovem está entreaberta.

O homem que é reduzido a seu corpo pela escravidão encontra a proposta de resgatar sua dignidade social pela valorização mítica de seu corpo como força da natureza e simulacro do sexo. A apoteose desse mito está na moda hoje nos EUA: é o jogador de basquete negro processado pelo estupro de suas tietes.

A convivência racial, após a escravatura, é atravessada por uma fantasia em que "ex-escravos" atléticos e hipersexuados se cruzam com "ex-donos" que guardaram para si a dignidade simbólica, mas ficaram com corpos franzinos e um pouco "broxas". É uma espécie de versão sexy da dialética hegeliana do mestre e do escravo.

Estou exagerando? Nada disso vale para o Brasil? Pode ser, mas olhe só: na terça-feira de manhã, no bate-papo de sexo de um grande provedor nacional de internet, havia 18 salas abertas por assinantes. Entre elas, bem cheias: "Negros F... Gays" e "Brancas na Senzala".

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