10 janeiro 2008

Liberdade para o quê?


Liberdade não consiste em escolher nas prateleiras do supermercado

QUANDO JANTO fora, prefiro os restaurantes onde sou um cliente conhecido, porque, em princípio, eles aceitam com um sorriso meu comportamento, que é um pouco atípico: não gosto de ler o cardápio, peço o prato do qual estou a fim naquela noite, que ele esteja ou não no menu. Caso a cozinha não disponha dos ingredientes necessários, o maître e eu imaginamos um compromisso próximo de meus desejos.

Nota: às vezes os que lêem o cardápio do começo ao fim, à força de hesitar entre massas, risoto, carne ou peixe, acabam se entupindo de pão e couvert -e assim perdem o apetite.
Pensei nisso ao reler "O Paradoxo da Escolha, Por que Mais é Menos", de Barry Schwartz, recentemente traduzido em português (ed. Girafa). Schwartz constata, com razão, que a multiplicação das possibilidades de escolha (que é própria da sociedade de consumo) constitui, de fato, um fardo.

Exemplo: queremos comprar uma calça jeans e descobrimos que existem infinitos cortes, desbotamentos, preços etc. Ótimo, somos LIVRES PARA escolher entre centenas de jeans. Mas, de repente, eis que NÃO somos LIVRES DE uma tarefa, no fundo, fútil: a de encontrar a calça que nos veste melhor na perfeita relação custo/benefício.

Na hora de escolher um carro, uma faculdade, uma profissão, um país ou uma cidade em que morar, as escolhas possíveis são, hoje, incontáveis. Portanto seríamos mais livres, não é? Pode ser. Em compensação, temos a trabalhosa (e, às vezes, desanimadora) incumbência de escolher.

Schwartz opõe dois tipos subjetivos: os "maximizadores" e "os que se contentam com algo suficientemente bom". Os maximizadores querem absolutamente fazer a escolha certa; os outros sabem se satisfazer sem ter que alcançar a certeza de que fizeram o melhor negócio.
Ora, constata Schwartz com razão, o maximizador não é nunca feliz: ele é corroído pelo remorso e pela dúvida (será que examinou efetivamente todas as possibilidades?).

Schwartz chega a imaginar que a epidemia de depressão das últimas décadas tenha uma relação com a multiplicação das escolhas possíveis e, portanto, com a insatisfação crônica de nosso lado maximizador. Obviamente, os que sabem se satisfazer vivem melhor. Conclusão de Schwartz: o excesso de liberdade nem sempre é bom.

Tudo bem. Mas vamos aplicar a visão de Schwartz ao campo amoroso. É claro que, se a tradição nos obrigasse a nos casar com a moça escolhida pelos anciões de nossa aldeia, a vida amorosa seria mais fácil. A liberdade para se juntar com quem quisermos é, de fato, uma complicação: para ter a certeza de que Fulano é meu homem fatal, com quantos Sicranos deverei compará-lo?
Por outro lado, se adotarmos a sabedoria dos que sabem se contentar com o que lhes agrada, nossos parceiros e parceiras não vão gostar.

Em geral, preferimos ser amados por quem acha que somos a melhor escolha possível, em absoluto.

Ou seja, na vida amorosa, os maximizadores sofreriam como sempre, enquanto os que "se contentam" seriam detestados por parceiros e parceiras. Como fica? Pois é, talvez a vida amorosa seja um bom exemplo para descobrir os limites das idéias de Schwartz, porque, nela, a liberdade certamente não consiste em poder escolher o amado numa lista de pretendentes. Amar tem mais a ver com "encontrar" do que com "escolher".

O livro de Schwartz é ótimo e divertido sem contar que pode ajudar todas as pessoas que se inibem diante da multiplicidade dos possíveis. Mas Schwartz parte de um pressuposto, que está implícito desde seu primeiro exemplo (o dos jeans): ele considera a pluralidade das escolhas possíveis como o índice da liberdade. Quando constata que essa liberdade é fonte de tormentos, ele conclui que talvez seja melhor sermos menos livres e mais felizes.

Ora, a visão que Schwartz tem da liberdade é parasitada pelo próprio modelo do consumo, cujos impasses ele castiga.

Ser livre não significa poder escolher entre os objetos disponíveis nas prateleiras do supermercado; ser livre significa saber criar o que queremos e encontrá-lo, mesmo e sobretudo quando não está em lista alguma de liquidações e promoções. Certo, o mal-estar do maximizador é uma patologia da liberdade de escolha. Mas a liberdade de escolher entre as ofertas que estão nos cardápios é, por sua vez, uma deformação da verdadeira liberdade -a de inventar.

03 janeiro 2008

"Meu Nome Não É Johnny'


Os desmandos dos filhos constituem o consolo dos pais diante da inelutabilidade da morte

NOS anos 90, João Guilherme Estrella, um jovem de classe média-alta carioca, tornou-se "barão" do varejo de cocaína. Ele exportou "pura" para a Europa, foi preso com seis quilos da droga e, num processo memorável pela sinceridade do acusado e pela inteligência da juíza, foi condenado a dois anos de internação num manicômio judicial. Ele cumpriu a pena e é hoje um produtor musical.

Estréia amanhã "Meu Nome Não É Johnny", de Mauro Lima, com atuações notáveis de Cléo Pires e Selton Mello. O filme se inspira no livro homônimo (Record, reeditado nesta ocasião) em que Guilherme Fiuza reconstruiu e contou a história de João Guilherme Estrella.

O filme (como o livro) começa com uma breve descrição da infância de João Guilherme. Por um momento, pensei (receei) que a narrativa adotasse a explicação que quase sempre liga a toxicomania dos filhos à permissividade dos pais. É aquela lengalenga: os pais nunca souberam dizer não, e os filhos, incapazes de encarar qualquer frustração, procuram na droga a garantia de uma gratificação constante. Pois é, o filme é muito mais inteligente e verdadeiro do que esse clichê explicativo.

Um exemplo. O pai de João Guilherme tolera que o filho estoure um rojão na sala quando o Vasco marca um gol. Mas é melhor a gente não se apressar em julgar e condenar: o pai também exige que o moleque trabalhe para pagar ao menos a metade da prancha de surfe que ele quer.

Quase todos os pais se reconhecerão nessa mistura em que coexistem a fascinação pelas façanhas do filho (deixe, que esse menino vai longe) e as tentativas desesperadas de inculcar nele uma ética do esforço. Esse paradoxo é o drama básico de todos os pais modernos.

No começo de sua "carreira" de traficante, João Guilherme vivia na casa de família junto com o pai, que se separara e estava gravemente doente. Enquanto o pai esperava a morte confinado no seu quarto, cocaína e maconha rolavam soltas nas animadíssimas reuniões organizadas pelo filho na sala da casa.
O espectador talvez se indigne: o pai está cego? Não vê o que está acontecendo? Ou então: como o filho faz a festa enquanto o pai está morrendo?

Mas uma outra leitura é sugerida pelos bonitos planos em que Mauro Lima enquadra frontalmente a casa do Jardim Botânico ou mostra o pai se virando na cama no meio da noite: o quarto do pai doente e a sala da bagunça não são mundos separados.

A contradição é só aparente entre os desmandos do filho e a agonia do pai: talvez, no fundo, o pai queira mesmo o barulho da festa que não o deixa dormir.

É sempre assim. Os filhos são tudo o que nos resta para acreditarmos que a vida continua, e eles têm a tarefa de serem "felizes" para compensar as amarguras de nosso tempo que se acaba. Condenamos os excessos nos quais eles se engajam, mas é apenas "pelo bem deles". O gozo dos filhos, por mais que seja reprovado, é um espetáculo que consola os pais da inelutabilidade de sua própria morte.

João Guilherme Estrella foi traficante de droga. Mas o verdadeiro traficante nunca toca na droga; ele só vende. Para fazer a diferença entre traficante e usuário, a lei só pode indicar critérios quantitativos, que são freqüentemente incorretos: João Guilherme movimentou enormes quantidades de cocaína, mas ele mesmo chegou a cheirar, numa semana, o despropósito de cem gramas. A juíza viu mais o drogado que o traficante. Com razão: ao longo de sua "carreira", João Guilherme não acumulou nenhuma reserva de dinheiro nem organizou uma quadrilha, ele apenas viveu anos na ânsia de uma fruição frenética. Durante o processo, a juíza perguntou a João Guilherme se ele sabia que estava fazendo algo errado ou ilegal.

João Guilherme respondeu que ele não tinha muito clara a distinção entre o que é certo e o que não é. Claro, ele devia saber que algumas substâncias são ilícitas por lei. Mas há uma distinção mais profunda que muitos perdem -não só os toxicômanos, também todos os entusiastas que, a mando dos pais, saem à conquista do mundo. Ou seja, todos nós, quem mais quem menos.

Há um momento, no filme, em que João Guilherme e alguns amigos cheiradíssimos circulam de carro pelo Rio lançando um grito comum: "O Rio de Janeiro é nosso!!!". Que o Rio fosse dele -aliás, que o mundo fosse dele- era tudo o que o pai de João Guilherme queria. E é tudo o que qualquer pai quer para o filho, não é?

27 dezembro 2007

O saber dos poucos e o dos muitos


Na era do darwinismo digital das idéias, o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço

NAS ÚLTIMAS semanas, revisei manuscritos em inglês e em português. Em português, sou enganado pelo meu passado francófono. Em inglês, meu ouvido está enferrujado.


Nos dicionários, a gente nunca encontra exemplos que confirmem exatamente a legitimidade da expressão que queremos usar. Ou, pior, a gente confia em exemplos antigos e acaba usando expressões esquisitas porque Machado já as usou. Fazer o quê? Posso recorrer à internet.

Quero saber se uma regência nominal é "boa"? É só digitá-la entre aspas na barra do Google e repetir a experiência com regências alternativas. Adotarei a mais usada.

É claro, dessa forma, a freqüência do uso sempre valerá mais que a regra. Mas, afinal, em matéria de gramática, o que é a regra, se não a formalização do uso?

Por esse caminho, a longo prazo, acabaremos escrevendo à força de clichês, numa língua empobrecida. Não seria muito grave (sempre haverá poetas para inventar novos jeitos de se expressar) se uma coisa parecida não acontecesse com as idéias. Como assim?

Saiu, em 2007, "The Culture of the Amateur" (a cultura do amador), de Andrew Keen. Keen não é um tecnófobo; ao contrário, é uma figura do Vale do Silício e colabora com publicações on-line. Apesar disso (ou por causa disso), ele escreveu uma ata de acusação contra a constituição e a difusão do saber na internet.

Resumindo: estamos na era do darwinismo digital das idéias, em que o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço. O sonho de uma informação produzida pelos próprios cidadãos, sem intermediários, desaguou no pesadelo de centenas de milhões de cidadãos escrevendo indiscriminadamente sobre qualquer aspecto do passado, do presente e do futuro do mundo (segundo os cálculos de Keen, nasce um blog a cada segundo).

Nunca foi tão fácil plantar notícias falsas e criar consensos ao redor de opiniões estapafúrdias: a difusão multiplica a crença, e a crença dos muitos vira autoridade. Um exemplo: logo depois da inundação de Nova Orleans, as notícias sobre estupros e assaltos no Superdome (onde se hospedavam os refugiados) foram plantadas na net; os jornais acreditaram e repercutiram.


A legislação está perplexa e impotente: mesmo nos EUA, onde é fácil perseguir a imprensa escrita por calúnia, é quase impossível se defender das "notícias" on-line. Quem dispõe de meios técnicos básicos pode manipular qualquer informação, destruir impunemente a reputação de um candidato e por aí vai.

Prova pelo contrário: nos EUA, nas pós-graduações em jornalismo, é regra que nenhum fato pode ser considerado conferido só por ter sido "encontrado", mesmo repetidamente, na internet. As próprias páginas on-line dos jornais são suspeitas: um hacker médio consegue facilmente construir uma "sombra", que imita perfeitamente a página que você imagina estar consultando.


Recebi recentemente, por e-mail, uma coluna "minha" que nunca escrevi. No e-mail, ela aparecia como um "copia e cola" da página on-line do caderno Ilustrada da Folha da quinta anterior. Fato curioso: o texto não afirmava nada de extravagante, nada que eu não pudesse assinar.


Em suma, Keen tem razão. Seus alertas contra o "saber" duvidoso espalhado pelo Google, pela Wikipédia e pela simples proliferação da rede são justificados.

No entanto, seu livro lembra os gritos de alerta que surgiram, no começo do século 19, contra as possíveis perversões da democracia (e, por exemplo, o barateamento do custo da impressão de libelos anônimos). A idéia era que o clamor dos muitos emudeceria a voz dos poucos sábios que, de fato, sabem do que eles falam.

Não há como discordar. Mas resta que, a cada vez que encontro um argumento contra a desordem produzida pela livre e louca circulação de informações e pensamentos, ocorre-me o seguinte: num tribunal, se você for processado um dia, por quem preferirá ser julgado?
Pela expertise (sem ironia) de um juiz ou pela atrapalhada mistura de razões, convicções e sentimentos que animam os membros de um júri popular?

Eu preferiria o júri. Assim como ainda prefiro a bagunça da internet ao privilégio exclusivo de autoridades instituídas. Desejo a todos um 2008 fascinante, confuso e variado como a net -apenas corrigido pela capacidade (e o prazer) de separar, de vez em quando, o joio do trigo.

20 dezembro 2007

Presentes para as festas

Nossas tentativas de entender o mundo sempre oscilam entre "zoom in" e "zoom out"


TENHO UM carinho especial pelos livros de imagens de Istvan Banyai.


Dois estão disponíveis no Brasil: "Zoom", em sua 16ª reimpressão (Brinque-Book), e "O Outro Lado", que acaba de ser publicado (Cosac Naify). São livros sem palavras, em que a série de imagens constitui uma história e, ao mesmo tempo, uma reflexão.Nesta época de amigos secretos e de propósitos para o Ano Novo, esses dois pequenos livros são o brinde que mais gosto de oferecer. Além de agradar (espero) a adultos e crianças, eles dizem algo essencial sobre minha maneira de pensar e de viver, ou melhor, sobre como gostaria de conseguir pensar e viver. "O Outro Lado" é, dos dois, o mais fantasioso e, talvez, o mais complexo.

À força de folheá-lo, cheguei a este resumo de sua sabedoria:
1) sempre há um outro lado;

2) vale a pena, em cada situação, olhar para nós mesmos do ponto de vista daqueles que estamos observando;
 
3) esse esforço não é apenas um jogo no qual brincaríamos de passar de um lado ao outro do espelho;
 
4) tampouco trata-se apenas de saber se colocar nos sapatos dos outros (o que já não seria mal);
 
5) os desenhos revelam que, quando a gente se desloca para o lugar dos outros, quando a gente se mexe para "o outro lado", algo muda: o resultado final não é só a mesma cena vista de ângulos opostos, mas é, de repente, uma nova cena.

Veja se você concorda. "Zoom" é de uma leitura mais imediata, mas não por isso é menos rico. Para não estragar o prazer dos leitores, invento uma seqüência parecida com a do livro, mas diferente dela: no começo, você vê alguém de costas, sentado à frente de uma tela de computador, e imagina que esse seja o cenário da história que começa.

O zoom, afastando seu olhar, amplia o campo visual, e eis que aparece o seguinte: aquele cenário inicial é uma propaganda de informática numa revista que está nas mãos de alguém sentado na sala de espera do dentista. Antes de decidir que esse seria, então, o cenário da história, espere: o zoom vai recuar de novo.

E por aí vai. "Zoom" pode ser lido do começo ao fim (sucessão de ampliações do campo visual - "zoom out") ou do fim ao começo ("zoom in": aproximação progressiva do nosso olhar, que, portanto, enxerga de maneira cada vez mais detalhada, mas também com cada vez menos compreensão do conjunto, que se perde a cada aproximação).

Para quem lê do começo ao fim, o livro vale como uma meditação apaziguadora sobre a pouca relevância das pequenas coisas nas quais encalha o narcisismo da gente -a começar pela nossa própria pessoa. Ele lembra um pouco aquelas fantasias por meio das quais as crianças tentam aliviar o fardo do olhar dos pais, que permanentemente tenta convencê-las de que elas são seres únicos e extraordinários.

Nessas fantasias, as crianças imaginam, por exemplo, que nosso "universo" seja apenas um viveiro de bactérias no ventre de um gigante -os terremotos e as inundações sendo, respectivamente, acessos de tosse ou bebedeiras de nosso hóspede desmedido. E não acaba assim: o gigante, por sua vez, sem se dar conta, poderia ser um vírus no corpo de um supergigante, que, por sua vez... Mas, fora esse exercício salutar, que encolhe o narcisismo (ele sim, gigantesco) do qual sofremos normalmente, "Zoom" é também uma espécie de meditação, por assim dizer, cognitiva.

Explico. Nossas tentativas de entender e explicar o mundo estão sempre oscilando entre um "zoom in" e um "zoom out". Ou seja, entre a aproximação máxima que nos permite encontrar a causa de nossos males no microscópio (invasores invisíveis, genes, cromossomos etc.) e a distância máxima que nos leva a procurar a explicação do que acontece, por exemplo, na disposição dos astros na hora de nosso nascimento ou no dia de hoje.

Com isso, alimentamos oposições, quase sempre estéreis, entre explicações pelo infinitamente pequeno e explicações pelo quadro mais amplo -no meu campo, entre a descrição da química invisível que regula nossa mente e a consideração de eventos externos que nos afetam.

Meu propósito, para o ano que vem, é que a gente não fique travado carregando na mão apenas duas objetivas separadas, uma macro e uma teleobjetiva, mas que estejamos dispostos a acionar constantemente o nosso zoom -"zoom in" e "zoom out".

E também, quase ia esquecer, que sejamos capazes de enxergar sempre "o outro lado".

13 dezembro 2007

Os novos janízaros

A assimilação cultural pode ser desejada, mas é sempre vivida como traição e violência

A REVISTA "Foreign Affairs" está publicando os programas de política estrangeira dos candidatos à presidência dos EUA (no número de novembro/dezembro 2007, foi a vez de Hillary Clinton e John McCain).
Os candidatos têm idéias diferentes sobre o futuro do Iraque, a condução da guerra contra o terror etc., mas todos compartilham uma preocupação com a "idéia americana".
Por exemplo, Hillary Clinton cita um discurso famoso de Daniel Webster, que, em 1825, assinalava que os EUA deveriam cuidar não de seu poder, mas do poder da "idéia americana", segundo a qual "com sabedoria e conhecimento, os homens podem governar a si mesmos" (resumo perfeito do que há de melhor na modernidade ocidental).
Em suma, os presidenciáveis discordam na avaliação das políticas que enfraqueceram a autoridade moral dos EUA. Mas todos querem restaurar o caráter exemplar da experiência norte-americana.
A lógica atrás dessa urgência é esta: "eles" nos odeiam porque nos julgam por alguns atos errados e não pelo que somos; é preciso lembrar que, aos trancos e barrancos, continuamos os mesmos que inventaram e defenderam a democracia e a liberdade do indivíduo, contra inimigos externos e internos. É preciso lembrar que somos os mesmos que inventaram narrativas que alimentam os sonhos do mundo inteiro.
Parece uma boa estratégia para captar simpatia, mas é fundada numa ingenuidade da razão. Explico.
Em geral, diante de qualquer outro que tenha valor de exemplo para nós, somos, no mínimo, ambivalentes. Ou seja, podemos endereçar a esse outro pedidos de ajuda e até de adoção, mas também queremos derrubá-lo. Por quê? Porque a sedução que o exemplo exerce sobre nós é vivida como uma violência que nos incita a "trair" nosso jeito habitual de ser, nossa inércia. De fato, odiamos, no exemplo, nossa própria vontade de igualá-lo.
A todos (não só aos presidenciáveis americanos), recomendo a leitura de um maravilhoso pequeno romance, "O Fundamentalista Relutante", de Mohsin Hamid (ed. Alfaguara). O autor (assim como o protagonista do livro) é muçulmano paquistanês, estudou nas melhores universidades americanas e foi consultor em Nova York.
O romance (em forma de monólogo endereçado a um americano, numa cidade paquistanesa) joga uma luz singular sobre o enfrentamento entre o Islã e o Ocidente e, bem além disso, sobre o conflito que surge DENTRO de cada cultura e de cada sujeito quando seduzidos e conquistados pela modernidade ocidental.
Num trecho do livro, o protagonista lembra a história dos janízaros, corpo de elite do exército do sultão, composto de crianças cristãs levadas como escravas e educadas na lei islâmica.
O que teria sido da legendária fidelidade dos janízaros se eles tivessem sido capturados quando já adolescentes ou adultos? Ou se fossem criados mantendo um contato constante com suas famílias e sua cultura de origem?
O sultão não faria uma besteira dessas. Mas é o que o Ocidente faz a cada dia, integrando (alistando) indivíduos pelo mundo afora. O Ocidente aposta na idéia "razoável" de que o charme da liberdade individual e as vantagens materiais do "progresso" amenizem ou compensem, em seus "novos janízaros", qualquer sensação de que, ao integrar-se, eles trairiam suas origens. É uma aposta perdedora.
O novo janízaro pode desejar ardentemente sua "conversão" cultural, mas o modelo segundo o qual ele entenderá e justificará sua mudança é o do escravo arrancado à força de sua terra, de seus costumes e de sua família. O ódio contra a cultura que assimila será tanto mais violento quanto mais a assimilação for fruto de uma escolha e de uma ambição do próprio sujeito que se integra (a tropa de elite dos terroristas, desde o 11 de setembro até os últimos atentados de Londres ou da Escócia, é composta por sujeitos bem integrados na sociedade ocidental).
Nota aos presidenciáveis americanos: na era da globalização, ser símbolo e exemplo da cultura dominante significa também, inevitavelmente, constituir-se como objeto de ódio. A expansão do individualismo ocidental é provavelmente sem volta, mas continuará produzindo, durante um bom tempo, novos janízaros raivosos -revoltados contra a integração que eles mesmos desejam e que, justamente por isso, parece-lhes constituir uma traição dos seus e de si mesmos.

06 dezembro 2007

"A Vida dos Outros"

O mistério é a banalidade do bem: por que alguns encontram a vontade de resistir ao horror?

É UMA HISTÓRIA que já contei, mas não tenho como evitar esta breve repetição. Anos atrás, defendi uma tese de doutorado sobre a questão seguinte: como é possível que homens quaisquer, sem nenhuma predisposição moral ou patológica, homens como você e eu, possam se tornar algozes?

O exemplo central da tese eram os inúmeros sujeitos que, durante o nazismo, atuaram, direta ou indiretamente, como agentes de extermínio.

Excluí a minoria que era motivada por uma certeza ideológica e os pouquíssimos sádicos, que, aliás, eram descartados pelo próprio processo seletivo dos SS. Também confirmei que, no caso da "tarefa" genocida, as punições para quem não obedecesse às ordens eram mínimas, se não nulas.
Sobraram-me, então, batalhões de reservistas, pais de família, "brava gente", provavelmente animados pela mesma moral básica que todos compartilhamos. Como explicar sua complacência e seus atos?

Cheguei a esta resposta inquietante: qualquer um (ou quase) pode se esquecer de sua humanidade não por convicção nem por crueldade ou por medo, mas, simplesmente, pelo descanso que ele encontra na obediência, no sentimento de fazer parte de uma máquina da qual ele pode ser uma pequena engrenagem. Desejar, pensar e agir como indivíduo é penoso; muito mais fácil é renunciar à subjetividade (sempre atormentada) para transformar-se em burocrata do mal.

Meus argumentos convenceram os que os leram. Mas fiquei com uma pergunta: tinha jogado um pouco de luz sobre a "banalidade do mal" (como dizia Hannah Arendt), mas o que continuava misterioso era a banalidade do bem. Entendia como milhares de homens comuns puderam se tornar algozes; não sabia por que alguns, nas mesmas condições, tinham encontrado a vontade de resistir.

Não penso nos que, animados por seus ideais, levantaram as armas ou a voz contra os totalitarismos do século 20. Gostaria de entender os pequenos gestos de resistência que surgiram do nada, sem uma motivação que fosse clara para o próprio agente.

Gostaria de entender o fascista simpatizante que, um dia, no meio de uma batida policial, escondeu um judeu, um homossexual ou um resistente. Ou o burocrata que, de repente, apagou o nome de uma família de uma lista de deportação ou avisou alguém que ia ser preso, para que fugisse a tempo.

No nosso cotidiano imediato, na esquina de casa, por que, às vezes, se abrem frestas de humanidade e resistência na parede uniforme da complacência?

Estreou, na semana passada, "A Vida dos Outros", o filme alemão, de F. H. von Donnersmarck, que foi Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

Os fatos narrados acontecem durante os últimos anos da Alemanha Oriental, um regime talvez inigualado em seu caráter totalitário e policial.

Claro, é uma história de homens transformados em burocratas sinistros pela vontade de impor seu capricho aos outros e, sobretudo, pelo vazio de sua vida. Mas é também a história do ato de coragem repentino (pequeno ou grande, depende do ponto de vista) de Gerd Wiesler, um oficial da Stasi, a polícia do regime.

Saí do cinema me perguntando o que, no filme, tinha motivado a insubordinação de Wiesler. Foi a descoberta das razões sórdidas de seus superiores? Foi a simpatia por suas vítimas ou, quem sabe, o amor por uma delas? Foi a leitura de um poema de Brecht? Ou a escuta de uma sonata? Ou talvez a comparação entre a miséria silenciosa de sua existência e o ruído de amores, conversas e idéias na vida dos que eram objetos de sua escuta contínua?

Numa cena tocante do filme, Wiesler chega em casa (uma espécie de protótipo do anonimato), cobre seu espaguete com extrato de tomate frio e senta diante do televisor que transmite crônicas políticas do regime. Há, na vida de Wiesler, uma irrelevância e um deserto afetivos que são o próprio estigma da complacência burocrática, mas que talvez sejam, ao mesmo tempo, a causa de uma vontade inesperada de fazer, por uma vez, a diferença, de se permitir um ato que valha a pena ser lembrado e contado. Raramente assisti a um filme que, de maneira discreta e humilde, me ajudasse tanto a entender o que, de repente, no marasmo, pode nos devolver nossa humanidade e nos levar a fazer a coisa certa.

PS: O livro de José Saramago mencionado na coluna passada, "O Conto da Ilha Desconhecida", foi publicado em 1998 e reimpresso recentemente.

02 dezembro 2007

Imagens a bordo de um táxi

Como nas eleições, as pessoas preferem lidar com complôs do que reconhecer o seu próprio destino

1. É frequente que o primeiro da classe, aquele que estúpida e invejosamente os outros chamam de CDF, um dia seja seduzido pelo malandro da classe e acabe aceitando, por exemplo, de acender com ele um cigarro na hora do recreio. Normalmente, o primeiro irá sozinho para a secretaria, pois o malandro saberá cair fora.

É banal que, na adolescência, um menino suponha que a glória social, aquela que lhe abriria as portas do mundo dos homens verdadeiros (ironia), seja uma transgressão, mesmo e sobretudo se descoberta e devidamente punida. Qual melhor marca do macho do que uma tatuagem de presidiário?

Assim, a única questão séria que coloca a recente história do ex-ministro Ricupero concerne não a ele, nem ao que ele disse (que, na verdade, para quem leu a íntegra, é pouca coisa), mas ao nosso país. Que tipo de imagem de virilidade nossa cultura promove, se, para se fazer valer frente a um jornalista –membro de sua família–, um ministro escolhe, como forma de cumplicidade, aparecer e se dizer mais malandro do que ele é?

2. Domingo, no começo da tarde, em Porto Alegre, vou para o aeroporto. Com o motorista de táxi se estabelece uma cumplicidade: juntos, lamentamos as coisas que, supõe-se, ambos adoraríamos estar fazendo. Entoamos um coro sobre os prazeres dos intermináveis churrascos caseiros do domingo, a cervejinha, a costela e por aí vai.

De fato, se ele está trabalhando e eu viajando, talvez na verdade ele compartilhe comigo a ojeriza às conversas vazias de tios e tias, uma antipatia certa pela costela gorda e em geral por toda carne assada coberta (contra qualquer lógica culinária) de sal grosso, e talvez enfim deteste a estupidez e o torpor desta caricatura de descanso.

Mas a imagem do churrasco é o lugar comum do qual dispomos, às pressas, para comungar.

O catálogo das imagens, que constituem os estereótipos comuns do prazer como do dever, é o dicionário dos valores dominantes, a lista, não necessariamente dos deuses aos quais sacrificamos, mas dos deuses em cujo culto nos reconhecemos. O acordo tácito, subentendido sobre estas imagens cimenta nossa vida social. E comanda uma série de escolhas, naturalmente.

3. Depois de descer em São Paulo, outro táxi e outro motorista. As eleições monopolizam a conversa. Milagrosamente, entre Guarulhos e a avenida Faria Lima, ele consegue conciliar uma eloquente indignação contra a classe política corrupta, negligente da coisa pública, desprovida de toda moral republicana, com um irreverente e malandro elogio da sonegação.

Nenhuma contradição: as duas imagens coexistem no céu dos valores sociais. A contradição só surgiria se a referência comum que sua conversa procura fosse, não uma imagem, mas um símbolo qualquer. Em outras palavras, se a referência procurada fosse um valor abstrato, aí a moralidade seria contraditória com a malandragem. As imagens, aparentemente, desconhecem estas dificuldades lógicas. Cada uma vale por si só, à simples condição de ser coletivamente admirada.

4. De novo indo de táxi, inúmeras vezes desde o lançamento do Plano Real, volta exatamente a mesma questão: ``Você acha que vai dar certo?'' Não é uma questão que mobilize um critério científico ou moral (se tal fosse o caso, ela se formularia: ``você acha que o plano é ou está certo?''). Também não é um esforço da imaginação para entrever futuros possíveis (que se formularia: ``no que você acha que poderia dar?''). Qualquer uma destas duas versões da pergunta, aliás, suporia um conhecimento e uma experiência do plano, assim como da realidade que ele pretende transformar.

De fato, a pergunta tantas vezes repetida reduz o futuro a uma simples aposta, torna a realidade uma espécie de absconsa estranheza sobre a qual só um lance de sorte poderia agir, e enfim necessariamente transforma o ministro e candidato em um santinho.

A coisa vale, aliás, para todos os candidatos: qual é o santinho que dá sorte? As imagens –banalidade, esta, repetida até o enjôo em época de eleições– prevalecem sobre critérios e projetos. Menos banal é notar que a prevalência do santinho implica uma dupla desistência: espera-se que a realidade mude por milagre e deixa-se de imaginar o futuro.

A imagem, com efeito, abole o tempo. Ela é um ato de fé em uma espécie de eterno instante, como nos devaneios dos adolescentes que podem se imaginar adultos conformes ao ideário de todos os sucessos sem pensar um instante no como e a que preço se chega lá.

5. A modernidade é paranóica. Desde o século 18, atrás do destino ou da ordem –tradicional ou sagrada– das coisas, nossa leitura do mundo aprende a descobrir a figura de um semelhante, um homem como nós, que nos oprime. É uma das grandes novidades da Ilustração. Esta nova visão do mundo acelerou a história. Se os artífices de nossas infelicidades são nossos semelhantes, podemos nos revoltar, combatê-los. Mas esta aceleração tem um preço.

A frustração se torna a única falta que reconhecemos: o que não temos é sempre e só aquilo de que um outro nos frustra. Marxismo e psicanálise produziram esforços notáveis para corrigir a tendência. Manifestamente em vão: o capitalismo, complexa ordem de nossas sociedades, continua nos aparecendo como a maléfica invenção dos capitais e nossas dificuldades subjetivas mais frequentemente nos aparecem como a suma aritmética das injustiças que os pais nos fizeram em nossa infância indefesa.

É um bom jeito de tirar o corpo fora. Não somos nunca nós, são os outros. O mundo é o teatro das injustiças que sofremos. De repente, o que ganhamos em perspectivas de ação, perdemos em entendimento e em experiência. Do que acontece somos sempre as vítimas (inocentes).

Assim, por exemplo, é quase unânime o coro das vítimas das mídias nesta última eleição. Com algumas exceções (por exemplo um recente notável artigo de Tarso Genro, na Folha de 7/10), prefere lidar com complôs e manipulações do que se reconhecer envolvidos em seu próprio destino.

Qualquer teoria séria das mídias sugeriria que, na verdade, os meios de comunicação de massa tentam oferecer a seus espectadores, em primeiro lugar, as imagens nas quais estes mais querem se espelhar.

Talvez por isso mesmo, aliás, nossa relação com as mídias seja facilmente paranóica. De fato, as imagens que elas nos apresentam, para que possamos refleti-las como tantos espelhos, acabam nos perseguindo. É em relação a elas que medimos nossa inadequação, elas constituem um assíduo e frustrante dever. Na ausência de princípios reguladores, são a versão moderna do que a psicanálise chama de superego.

6. As dificuldades econômicas do Terceiro Mundo parece que são, desde sempre, responsabilidade do Primeiro e sobretudo dos Estados Unidos. Talvez a responsabilidade não esteja lá onde nossa paranóia a procura e encontra, ou seja, na avidez dos ``banqueiros de Londres'', dos quais já falava Mário de Andrade. Talvez ela esteja na inevitável modernidade de nosso Terceiro Mundo: somos, tanto quanto o Primeiro, dominados por imagens. Mas, à diferença do Primeiro, não produzimos imagens, mas adotamos as do primeiríssimo mundo. Por este caminho, aliás, o próprio Primeiro Mundo como um todo se torna nossa imagem ideal.

Isso é suficiente para que nosso imperativo não seja mais o desenvolvimento, mas a imediata adequação a sua imagem. Assim, não nos desenvolvemos. Nos transformamos em caricaturas de desenvolvidos, logo todos de celular porque não há rede telefônica. A pressão narcísica de uma imagem realizada de desenvolvidos impede e atrasa o desenvolvimento. O imperativo de ``chegar no Primeiro Mundo'' (vide Collor, mas também as ambições, por certos aspectos, do discurso de Celso Amorim na ONU) pode acabar na distribuição de gravatas de Hermès na cestas básicas da LBA.

Em suma, o Primeiro Mundo talvez nos estrangule um pouco ou mesmo muito, política e economicamente, mas sua imagem, que adoramos, faz mais e pior. Ela nos pára no meio do caminho com a ilusão de que uma boa mascarada vale qualquer chegada.

Uma parte da desconfiança ou mesmo do ódio que os EUA, por exemplo, parecem às vezes inspirar no Terceiro Mundo é certamente ódio de nossa própria paixão por sua imagem, que nos persegue.

29 novembro 2007

Ilhas desconhecidas


O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo, em nós, que não conhecíamos até então

QUANDO ERA criança, um senhor canadense, Mr. Evans, foi contratado por meus pais para "treinar" meu inglês. O método de Mr. Evans consistia em narrar grandes eventos da História (com H maiúsculo) como se ele tivesse sido uma testemunha ocular. Conseqüência: há detalhes íntimos de várias cenas famosas que não sei mais se são fatos ou fantasias de Mr. Evans.

Uma fonte de inspiração de Mr. Evans era a expedição de Lewis e Clark, que, entre 1804 e 1806, abriu o caminho do Oeste americano. Segundo Mr. Evans, em 7 de abril de 1805, deixando Fort Mandan para se aventurar no território desconhecido das grandes planícies, Lewis, pensativo, teria dito a George Gibson (o melhor atirador da expedição): "New land, George" (uma nova terra, George).

Nunca pude confirmar a veracidade da dita conversa. Mas essa frase, aparentemente trivial, foi incorporada no meu léxico familiar. A cada vez que, numa viagem de férias, saíamos do país, meu irmão e eu não parávamos de repetir: "New land, George". Ainda hoje, quando chego num lugar desconhecido, penso em Lewis e Gibson.

Mais tarde, meu irmão e eu passamos a usar a mesma expressão quando - numa festa, por exemplo - avistávamos mulheres que despertavam nosso interesse. Um dos dois, invariavelmente, levantava a mão espalmada, como se quisesse proteger os olhos do sol, e dizia: "New land, George".

Na literatura, não é raro que um corpo amado e desejado seja comparado à paisagem de terras incógnitas. John Donne, num de seus mais lindos poemas (do século 17), chamou sua amada de "minha América, minha terra recém-descoberta". De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual.
De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens.

Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: "Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver".

Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas.

Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa.

Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses "desaparecidos", os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga.
Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes.

O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós.

Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem.

Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.

A história de Querô



Não é a denúncia, mas a qualidade da história que pode nos revelar uma realidade injusta

CONSTATAÇÃO DE bilheteria: os espectadores brasileiros se interessam cada vez menos pelos filmes nacionais que tratam da miséria social.

A leitura, na imprensa, de comentários sobre essa mudança do gosto dá a impressão de que estaríamos lidando com uma espécie de "Cansei" cultural: quem tem R$ 10 para gastar no cinema procuraria, naquelas duas horas, o sossego de pensar em realidades diferentes das que assolam sua vida cotidiana e a do país.

Depois de cercas elétricas e seguranças armados na porta de casa, eis que a última defesa seria a simples negação: não me falem mais disso.

Pois é, não acredito nessa tese. Em compensação, constato o seguinte: com as devidas exceções, o cinema de denúncia é chato. E não é o caso de pensar que o sentimento de chatice seja uma defesa psicológica do espectador. É mais provável que, freqüentemente, a intenção de denunciar produza filmes chatos. Como assim "chatos"?

O cinema, como qualquer ficção, pode nos fazer descobrir realidades que desconhecíamos ou preferíamos ignorar. Ele pode nos deixar indignados, apavorados e, como se diz, mais "conscientes" do drama social ao redor de nós. Mas isso acontece quando, primeiro, o filme nos conquista, ou seja, banalmente, quando ele nos conta uma história em cujos conflitos, dramas e alegrias reconhecemos os percalços de nossa própria vida.

Ora, na sexta passada, estreou "Querô", de Carlos Cortez. O filme está em poucas salas, talvez porque se presuma que os espectadores resistam a mais um filme de denúncia da miséria social brasileira.

É uma pena, porque "Querô" não é um filme sobre a miséria social brasileira: é um filme tocante que conta a história de Querô, um adolescente da Baixada Santista que ganhou esse apelido por ter sido abandonado pela mãe, uma prostituta que se matou ingerindo querosene.

Obviamente, ao longo do filme, visitamos os antros do porto de Santos e os porões da Febem. Nesse passeio, talvez enxerguemos algo que preferiríamos não saber, mas isso acontece graças à complexidade e à intensidade da história que nos é contada. Em suma, acontece porque Querô, tão diferente, parece tão próximo a nós.

Raramente acordamos de uma noite dormida em cima das cordas de um barco abandonado, mas todos sabemos sonhar com a liberdade absoluta que é "prêmio" (envenenado) da marginalidade. Raramente devemos escolher entre o amor e o assassinato, mas não é raro que, um dia, tenhamos desistido de um amor que nos transformaria para seguir um dever iníquo ou pela simples força do que parece ser o destino. Poucos foram abandonados quando bebês, mas muitos sofrem do sentimento radical de um desamor, no mínimo, imaginário. Poucos foram abusados brutalmente, mas o ódio e a vontade de matar nos são mais familiares do que gostamos de admitir.

A qualidade humana da experiência narrada e a maestria de quem narra fazem com que uma história nos prenda, por ela se tornar, por assim dizer, universal (ou quase). Nesse caso, pode acontecer, "de brinde", que seu pano social de fundo nos deixe indignados.

Carlos Cortez se vale da extraordinária atuação do estreante Maxwell Nascimento como Querô. Ele poderia, aliás, ter confiado mais em Nascimento, cujo rosto fala alto e dispensa a esporádica evocação cinematográfica dos pensamentos do protagonista.

A origem do roteiro do filme é o romance de Plínio Marcos, "Querô: Uma Reportagem Maldita", de 1976.
Em 2002, a adaptação cinematográfica de uma peça de Plínio Marcos permitiu um filme memorável, "Dois Perdidos Numa Noite Suja", de José Joffily. No passado, houve várias outras adaptações cinematográficas de obras de Plínio Marcos, inclusive uma do próprio "Querô".

Não as conheço, mas, no caso dessas duas adaptações, aposto que ambas devem uma boa parte de sua qualidade ao carinho de Plínio Marcos pelo mundo e submundo que ele descrevia.

Um censor da época da ditadura disse um dia a Plínio Marcos que sua obra era subversiva porque continha palavrões. Plínio Marcos achou estranho, pois ele usava palavrões não para subverter, mas porque escrevia o diálogo de quem trabalha no mercado e de quem conversa nas cadeias e nos puteiros. E não fazia isso para denunciar nem para chocar, mas porque esses eram os protagonistas das histórias que ele conhecia, que lhe pareciam valer a pena e que ele gostava de contar.

22 novembro 2007

Narciso no país das maravilhas


A maioria dos objetos são drogas: satisfazem um anseio parecido com o do toxicômano

ESSE É o subtítulo de um estudo publicado recentemente (2006) pela Routledge, "The Self Psychology of Addiction and its Treatment" (a psicologia-do-self da adicção e de seu tratamento). Os autores, Richard Ulman e Harry Paul, são psicanalistas (da psicologia do self, a escola de Heinz Kohut), terapeutas de toxicômanos e eles mesmos drogadictos em remissão.
O estudo, embora estritamente clínico, propõe uma visão da toxicomania que, ao meu ver, vale como interpretação geral da modernidade. Explico.

Na laboriosa tentativa de encontrar um lugar no mundo, cada um de nós se alimenta de duas fontes: 1) as aspirações, as normas e os brasões transmitidos por nossos ascendentes, coisas que podem nos dar a sensação de que temos uma missão na vida; 2) o amor, mais ou menos incondicional, que nos acolhe e agasalha nos primórdios de nossa existência permitindo, aliás, que ela vingue.

Em suma: legados paternos e cuidados maternos (é óbvio que qualquer um pode fazer função de pai ou de mãe).
Ora, na modernidade, bebemos sobretudo na segunda fonte. Por isso, somos todos narcisos, ou seja, mais preocupados em sermos gostados, amados e admirados pelos outros do que com deveres e princípios.

Problema: em geral, o modelo do amor graças ao qual seríamos "alguém" (que sempre significa "alguém muito especial") é o momento em que, pendurados ao peito materno, ou melhor, com a mãe pendurada aos nossos lábios, estaríamos ao centro de um mundo controlado por nós: basta chamar, chorar etc. para que ela apareça e nos faça felizes.

Logicamente, com esse sonho narcisista encravado no nosso âmago, torna-se difícil lidar com separações, frustrações etc. E, infelizmente, o mundo é um pouco mais cruel do que a mãe-padrão e sempre muito mais cruel do que a mãe mítica e escrava que gostaríamos de ter tido.
Como aprendemos a encarar perdas, danos e fracassos?

Quem lia as tiras de Charlie Brown, de Charles Schultz, deve se lembrar do cobertor que Linus carregava sempre consigo: quando as coisas não iam bem, ele agarrava o cobertor e chupava o dedo; era seu jeito de reencontrar, momentaneamente, a felicidade perdida. O cobertor de Linus é um exemplo perfeito do que D. W. Winnicott, um grande psicanalista, chamou de "objetos transicionais": são objetos inanimados, mas que representam um amor do qual não conseguimos ainda nos separar.

Eles funcionam como o lápis entre os dentes do fumante que quer parar de fumar: não substitui o cigarro, mas, na luta para deixar o vício, oferece conforto nas crises de abstinência. Ou como a mamadeira da noite quando o desmame acabou há tempos, mas ainda bate, digamos assim, uma "nostalgia amorosa".

À força de brincar com cobertores e chupetas, a gente deveria aprender a 1) dispensar cobertores e chupetas,

2) lidar com a precariedade da presença e do amor dos outros. Mas não é tão simples assim, até porque, nessa tarefa, o mundo não nos ajuda. Narciso vive no país das maravilhas, diante de uma imensa vitrina de objetos que nos prometem o seguinte: ao alcançá-los, ganharemos o amor, a admiração e (por que não) a inveja de todos. E alcançá-los é fácil -basta comprar: chocolate, relógios, charutos ou pacotes de férias.

Quem precisa de amores incertos com pessoas de verdade ou de objetos "transicionais" que as representem? Os objetos do consumo são a melhor escolha; sobre eles temos um controle absoluto.

As drogas propriamente ditas oferecem algumas vantagens marginais: são baratas e, graças à crise de abstinência, garantem a ilusão de dominar perfeitamente a alternância de insatisfação e contentamento. Mas, na verdade, para Narciso no país das maravilhas, qualquer objeto de consumo serve.

Poderia ser o melhor dos mundos, se não fosse por dois detalhes. 1) Se hesito entre um carro e uma amizade ou um amor, é bem provável que minha experiência afetiva seja miserável; 2) se espero a felicidade dos objetos, desaprendo a agir e a desejar. No próximo domingo é a primeira fase da Fuvest, e passei o ano dormindo no cursinho? Não é o caso de me desesperar, vou para o shopping comprar um sapato simplesmente "divino".

Agora, falando sério, por que se opor à liberação das drogas? Afinal, a maioria dos objetos em venda livre satisfaz, no fundo, um anseio parecido com o do toxicômano. Relaxe e goze...

08 novembro 2007

A história da gente


O ideal da modernidade é a esperança de que "as pessoas" sejam sempre, de certa forma, "a gente"

EM SÃO Paulo, "People - Histórias de Nova York", de Danny Leiner, estreou na semana passada, num cinema só (Gemini).

Num site, encontrei a seguinte crítica do filme: "Com referências ao incidente de 2001 ou não, "People" é bastante chato, alternando entre cinco histórias triviais centradas em personagens medíocres e sem nenhuma qualidade. Difícil dizer porque alguém assistiria a um filme sobre pessoas comuns e chatas". Só para explicar: o "incidente de 2001" é o ataque terrorista de 11 de setembro.

Essa crítica me deu vontade de assistir ao filme, pois tenho um carinho especial por enredos "plurais", em que várias histórias se cruzam ou, simplesmente, coexistem. Tenho mais carinho ainda pela vida de pessoas triviais e "chatas".

E não é só isso. Obviamente, os eventos que são e serão mencionados nos livros de história transformam nossa vida concreta. Há os efeitos diretos de todo tipo de bomba na porta de casa e há as ações de quem se engaja. Mas, sobretudo, há caminhos discretos e ocultos pelos quais o espírito dos tempos e os "grandes" acontecimentos afetam o cotidiano mais íntimo de todos nós.
Por isso, aliás, tenho uma paixão antiga pela trilogia "USA", de John Dos Passos (traduzida pela Rocco em três volumes, "Paralelo 42", "1919" e "O Grande Capital"). A pluralidade dos personagens, o uso, no texto, de manchetes de jornal, propagandas, letras de músicas populares etc. me parecem escrever uma história coral e complexa, na qual me reconheço, embora seja de outra época e de outro lugar.

O herdeiro de Dos Passos, na literatura americana de hoje, é Don DeLillo. Ao ler "Submundo" (Companhia das Letras), vivi uma emoção parecida com a que me foi proporcionada pelos volumes de "USA": o sentimento de uma relação, silenciosa, mas ativa, entre as nossas histórias e a História. DeLillo, justamente, acaba de publicar "Homem em Queda" (mesma editora), romance situado em Nova York no próprio dia 11 de setembro de 2001 e nos primeiros anos após o ataque (para um dos personagens, um terrorista, no ano anterior).

"Homem em Queda" é muito mais forte e tocante do que o filme "People", mas as duas obras têm isto em comum: são narrativas plurais, com o mesmo momento histórico como tema e pano de fundo. Nelas, os efeitos do ataque nas vidas dos personagens são vistos de maneira diferente. Em "People", aparentemente, nada ou pouco mudou -há até uma crítica feroz da teimosia terapêutica, que quer encontrar traumas para explicar condutas e "aliviar" sofrimentos. Ao passo que, em "Homem em Queda", uma ferida aberta transforma a vida de todos ou quase. Mas o que importa é o que segue.

Quando aprendi o português, nos anos 80, fui seduzido por várias propriedades exclusivas da língua lusitana. Uma delas era a expressão "a gente". Nas outras línguas latinas, para designar uma coletividade na qual quem fala está incluído, é preciso usar o "nós" da primeira pessoa do plural (que indica um sujeito coletivo constituído) ou, então, recorrer ao impessoal (que, ao contrário, não inclui necessariamente quem fala). Em português, se digo "a gente" em vez de "as pessoas", isso implica que faço parte do sujeito, mas sem que exista propriamente um "nós" sólido e definido.

A distância entre "as pessoas" e "a gente" pode ser pequena, mas percorrê-la é um gesto civilizador: os ideais da modernidade ocidental repousam sobre a esperança de que "as pessoas" sejam sempre, de alguma forma, "a gente". Ora, as melhores ficções, sobretudo as plurais, como o novo livro de DeLillo, produzem este milagre: transformam "as pessoas" em "a gente", e isso sem nos distribuir carteirinhas, sem nos cooptar num sujeito coletivo. A ética moderna, dos "Principia Ethica" de G. E. Moore (1903) à "Teoria da Justiça" de John Rawls (Martins Fontes), esbarra sempre na pergunta seguinte: qual é o traço comum que, embora sejamos indivíduos livres, diferentes e soltos de tradições compartilhadas, leva-nos (mais freqüentemente do que possa parecer) a escolher o mesmo bem, na concórdia?

Outra pergunta (ou talvez outra formulação da mesma): qual é a parcela comum de humanidade que nos torna capazes de reconhecer que a vida dos outros tem sempre algo a ver com a nossa?
Na espera de uma resposta, as ficções continuam nos ajudando a transformar a História (com maiúscula) e as histórias dos outros em história da gente.

25 outubro 2007

"Infiel'



A tolerância não impede de reconhecer e recusar a diferença quando ela é inimiga de nossos valores

A COMPANHIA das Letras acaba de publicar a autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, "Infiel - A História de Uma Mulher que Desafiou o Islã".

Hirsi Ali nasceu na Somália (país muçulmano) em 1969, viveu o horror da guerra civil e da luta entre clãs que levaram o país da pobreza à miséria, passou partes da infância e da adolescência na Arábia Saudita e no Quênia e, enfim, adulta, fugiu para o Ocidente. Na Holanda, ela se tornou cidadã e, logo depois, foi eleita deputada. Pela sua história e pela coragem de suas palavras, ela continua sendo alvo de um fanatismo assassino.

O livro, além de tocante, é imprescindível para quem queira, hoje, perguntar: "Vigia, como está a noite?".

As primeiras 300 páginas tratam da progressiva metamorfose de Ali: uma menina definida pela sua ascendência e pela obediência aos homens e ao Alcorão se transforma numa jovem pessoa atormentada por dúvidas sobre sua fé e pela vontade de escutar seus sentimentos e de escolher livremente seus objetos de amor.

Essas páginas deveriam estar nas bibliografias de introdução à antropologia cultural: elas explicam perfeitamente quem somos nós, ocidentais. Na história da jovem somali, a oposição à autoridade tradicional do clã e do texto sagrado não está nos grandes textos do Ocidente -está nos romances.

Fragilidade e grandeza de nossa cultura: a liberdade do indivíduo moderno é, antes de mais nada, liberdade de amar e de romancear o amor. "Romeu e Julieta" e Barbara Cartland nos definem melhor do que "O Contrato Social".

Li as últimas 200 páginas do livro na noite de sábado, sem parar, madrugada adentro. Nelas, Ali, ao contar as peripécias de sua vida na Holanda, expõe sua crítica do Islã.

Depois de 11 de setembro de 2001, talvez você tenha lido "Choque de Civilizações?", de Samuel Huntington, e, como eu, tenha resistido à idéia de que o terceiro milênio seja destinado a encenar um conflito cultural sangrento entre o Ocidente e o Islã. Talvez você, como eu, sem examinar de perto os textos e os fatos, tenha se juntado ao coro da tolerância e à visão otimista do Islã paz-e-amor, convencido de que aceitar a diferença seja (como é, de fato) uma prerrogativa crucial e gloriosa de nossa cultura.

Só a tolerância -você pode ter pensado, como eu- permitirá a integração que confirmará a humanidade comum de todos, realizando o sonho ocidental moderno. Pois bem, Ali pensa diferente.

Para ela, o fundamentalismo e o terrorismo islâmicos de hoje não se fundam numa distorção do Islã, eles estão inscritos na letra do Alcorão e do Hadith.

Só será possível evitar um embate frontal se o mundo islâmico passar por uma revolução interna comparável com a que sacudiu o cristianismo no começo da modernidade, quando o indivíduo (com sua liberdade e seu foro íntimo) se tornou um valor bem mais importante do que a instituição e o texto religiosos.

Portanto, para Ali, sobretudo nos lugares de maior fricção entre o Islã e o Ocidente, como na Europa, a estratégia de uma convivência possível não passa pela simples tolerância, mas pela exigência ativa de uma integração dos imigrantes na cultura para onde se mudaram ou fugiram. Essa exigência inclui a capacidade de recusar a diferença quando ela for inimiga de nossos valores.

Não há espaço, no Ocidente, para a submissão das mulheres, o ostracismo das minorias sexuais, o poder patriarcal indiscriminado e, sobretudo, não há espaço para a confusão entre religião e Estado de direito.

Theo Van Gogh, holandês, dirigiu um documentário, escrito por Ali, sobre a submissão da mulher no Islã. Ele foi assassinado e degolado por um fundamentalista islâmico, que cravou no peito de sua vítima uma mensagem para Ali, perguntando se ela estava disposta a morrer por suas idéias como ele, o assassino, estava pronto a se sacrificar pelas suas.

É um argumento freqüente nos comunicados exaltados dos terroristas: o Ocidente estaria fadado a desaparecer porque preza a vida do indivíduo.

Ora, Van Gogh, diante de seu assassino, antes de ser morto, perguntou: "Será que a gente não pode conversar?". O assassino deve ter pensado que se tratava de mais uma demonstração da fraqueza e da covardia ocidentais. Ele se enganou. Era a maior demonstração de fé nos valores do Ocidente e, portanto, de força.

18 outubro 2007

Atualizações


Metade do que um médico aprende na residência é ultrapassada dez anos mais tarde

OS PROGRESSOS da medicina são cada vez mais rápidos. Calcula-se que, hoje, o que um médico sabe no fim de sua residência estará, em boa parte (aproximadamente a metade), ultrapassado dez anos mais tarde.

Felizmente, depois de mais dez anos, o saber originário de um médico não será reduzido a um quarto.

Há partes desse saber que resistem ao tempo. Além do mais, a experiência aprimora o clínico. Um gastroenterologista que não se atualizasse durante uma década ignoraria eventuais possibilidades de cura e procedimentos diagnósticos novos, mas, em compensação, sua arte de apalpar e auscultar seria melhor do que em começo de carreira.

Para estancar a corrosão do saber pelo tempo, nos EUA, por exemplo, os médicos são obrigados a comprovar que, a cada ano, passam 25 horas em cursos, congressos etc. (um princípio análogo se aplica, aliás, a psicólogos e psicoterapeutas). Essa norma é, por sua vez, desatualizada: qualquer médico dedica muito mais de 25 horas por ano à tentativa de manter seu saber em dia.
Não é uma tarefa fácil. Volumes de atualização das diferentes especialidades são publicados regularmente, mas, na hora da publicação (geralmente um ano depois da redação dos textos), uma parte do conteúdo já está ultrapassada. O mesmo vale para os periódicos.

O instrumento mais adaptado à velocidade da evolução do saber é a internet. Recentemente, a universidade Stanford lançou "Skolar", um serviço online de consulta atualizada para médicos. As inscrições foram tantas que o serviço teve que ser fortalecido pela integração com outro (o endereço é agora www.ovid.com/clinicalresource).

A questão da atualização do saber é um bom critério para separar as ciências "exatas" das "humanas". Nas exatas, em princípio, o saber perde sua validade automaticamente (e sem objeções) quando surgem experiências e dados novos e confirmados. Na elaboração do saber das humanas, os dados são tão importantes quanto a interpretação que lhes dá uma significação.
E, na interpretação, o peso do viés, das esperanças e das apostas subjetivas é grande demais para que as "atualizações" sejam acatadas imediatamente.

Um exemplo. No fim dos anos 60, na ilha de Korcula (então Iugoslávia) houve uma reunião de estudo para quadros do Partido Comunista Italiano. Pesquisas sociológicas recentes acabavam de constatar que os operários italianos se consideravam exponentes da classe média, e não do proletariado; além disso, suas ambições diziam respeito ao padrão de vida, não à vontade de se apoderar dos meios de produção, inventando o socialismo. A assembléia se dividiu.

Houve os que queriam que o partido e o sindicado representassem a vontade dos trabalhadores assim como ela se expressava e, portanto, passassem a promover reivindicações essencialmente quantitativas, de salário, bônus etc. No outro extremo, houve os que declararam que as pesquisas eram reacionárias (note-se: não erradas, mas reacionárias) e só mostravam que a classe operária dos anos 60 era "alienada": ela precisava, portanto, de uma vanguarda que lhe lembrasse sua "vocação" revolucionária.

Os exponentes do primeiro grupo foram as levas iniciais do que, mais tarde, foi chamado de "terceira via" social-democrata. Alguns exponentes do segundo, poucos anos depois, confluíram numa luta armada que estropiou e assassinou militantes sindicais "alienados".
Mais duas observações:

1) Nessa divisão entre ciências exatas e humanas, estabelecida pelo caráter irrefutável ou não das atualizações, a psicologia é um híbrido, "mezzo" alici, "mezzo" mozzarella. Deve ser por isso que ela não pára de me fascinar.

2) É óbvio que as artes, embora constituam propriamente um saber, não sofrem de nenhuma maneira o mesmo desgaste do saber científico: o último romance publicado não compromete nem "Moby Dick", nem o "Orlando Furioso". Mas isso não significa que não haja uma espécie de exigência de atualização nas artes. Como assim?

Na homenagem a Paulo Autran que aconteceu no sábado passado, durante as Satyrianas, na praça Roosevelt, em São Paulo, alguém lembrou que Paulo Autran, até o fim, não parava de se interessar pelo trabalho de jovens atores, dramaturgos, diretores etc. e de assistir às peças que eles montavam. O grande artista é sempre sedento de conhecer e apreciar o trabalho dos que vêm depois dele.

11 outubro 2007

"Tropa de Elite"


"Nóis goza", mas "nóis sofre" de culpa: somos desculpados de nossa inércia pela culpa

NA SEXTA passada, "Tropa de Elite", de José Padilha, estreou em São Paulo e no Rio; amanhã, entrará em cartaz no resto do país. O filme é inspirado no livro "Elite da Tropa" (Objetiva), de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (os dois últimos são policiais).
Padilha nos apresenta um momento de crise na vida do capitão Nascimento (o ótimo Wagner Moura), do Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM do Rio. Além do combate entre as forças da ordem e os bandidos do tráfico, há quatro eixos de tensão: a oposição entre o Bope (um pequeno corpo de incorruptíveis treinados para a guerra) e um sistema policial inepto e corrupto; o conflito entre a vida de família do capitão, que vai ser pai, e, do outro lado, a brutalidade de sua tarefa; a luta do capitão contra o desgaste e os efeitos traumáticos de seu dia-a-dia; o embate entre a polícia e os próprios cidadãos de quem ela deveria defender a vida, a tranqüilidade e as posses.

Para cada um desses eixos, qualquer cinéfilo poderia evocar vários filmes memoráveis, sobretudo americanos. Mas o embate entre a polícia e os cidadãos que ela defende revela, no filme de Padilha, uma especificidade nacional: nas classes privilegiadas e supostamente "ordeiras", a simpatia pelo crime e a antipatia pela polícia não são efeito, como de costume, de rebeldia e sede de aventuras. Elas nascem de um forte e difuso sentimento de culpa social ou, no mínimo, justificam-se por ele.

Mas vamos com calma. Em "Tropa de Elite", o cineasta José Padilha conseguiu, de maneira admirável, suspender o julgamento e apresentar nossa "guerra" cotidiana como um incômodo dilema moral, sem tomar partido.

Para alguns, essa suspensão do julgamento valeu como uma negação da culpa social que, aparentemente, segundo eles, deveria orientar nossa compreensão do mundo.
Com isso, o filme foi acusado de "idealizar" o Bope e de fazer uma apologia "fascista" do "Estado policial" e da tortura instituída.

Essas críticas são descabidas, mas resta a pergunta: será que não é perigoso calar nossa culpa social? Será que a culpa diante da injustiça não é justamente o que nos levaria a entendê-la melhor e a agir? Pois é, nada disso. Respondo: 1) Em regra, a culpa não produz ação, mas descarrego. Funciona da seguinte maneira: somos autorizados a fazer pouco ou nada para que a situação mude porque o sofrimento de nossa consciência nos absolve.

Inversão da frase de José Simão: "nóis goza" de muitos privilégios, mas "nóis sofre" de muita culpa. Somos desculpados de nossa inércia pela culpa que sentimos.

2) Também em regra, a culpa é péssima conselheira. Ela induz a acreditar numa contabilidade estapafúrdia, pela qual há cidadãos que devem e outros aos quais é devido, sem a mediação de lei alguma. Assim, Ferréz, na Folha da segunda passada, pode achar que o relógio roubado de Luciano Huck "paga" a miséria de seus assaltantes. Ele se expressa como se a lei não fosse (não devesse ser) a referência comum para todos: o problema não é que assaltar é crime, Huck é culpado e devedor, e o "correria" cobra o devido.

Essa maneira de entender o social oferece a todos uma compensação substancial: se a lei não é a referência comum, podemos ser assaltados nos faróis, mas também podemos praticar cada tipo de mediocridade moral e de ilegalidade, sonegar, saquear o bem público, pagar salários de esmola e por aí vai.

Em agosto, uma versão inacabada de "Tropa de Elite" foi distribuída ilegalmente em DVD, de camelô em camelô, pelo país afora. Nessa ocasião, houve vozes para justificar a pirataria e racionalizar um desrespeito endêmico à lei. Havia o estilo "eu não serei o único otário", que, grosso modo, diz assim: "Se Renan Calheiros é presidente do Senado, eu posso comprar um DVD pirata". E havia o estilo "está na hora de mudar", em que um ato que nega a propriedade intelectual é justificado diretamente pela injustiça social dominante. Valia tudo, salvo o óbvio: pela lei, piratear é crime.

Pois bem, quando a culpa organiza nossa visão do mundo, tudo é permitido, assaltar de moto, a pé, de carro ou de colarinho branco.

Se você quiser passar uma hora e meia com o coração na mão e se quiser pensar e viver a realidade nacional um pouco além dos limites impostos pela consciência culpada, não perca "Tropa de Elite".

20 setembro 2007

A história de Querô



Não é a denúncia, mas a qualidade da história que pode nos revelar uma realidade injusta

CONSTATAÇÃO DE bilheteria: os espectadores brasileiros se interessam cada vez menos pelos filmes nacionais que tratam da miséria social.

A leitura, na imprensa, de comentários sobre essa mudança do gosto dá a impressão de que estaríamos lidando com uma espécie de "Cansei" cultural: quem tem R$ 10 para gastar no cinema procuraria, naquelas duas horas, o sossego de pensar em realidades diferentes das que assolam sua vida cotidiana e a do país.

Depois de cercas elétricas e seguranças armados na porta de casa, eis que a última defesa seria a simples negação: não me falem mais disso.

Pois é, não acredito nessa tese. Em compensação, constato o seguinte: com as devidas exceções, o cinema de denúncia é chato. E não é o caso de pensar que o sentimento de chatice seja uma defesa psicológica do espectador. É mais provável que, freqüentemente, a intenção de denunciar produza filmes chatos. Como assim "chatos"?

O cinema, como qualquer ficção, pode nos fazer descobrir realidades que desconhecíamos ou preferíamos ignorar. Ele pode nos deixar indignados, apavorados e, como se diz, mais "conscientes" do drama social ao redor de nós. Mas isso acontece quando, primeiro, o filme nos conquista, ou seja, banalmente, quando ele nos conta uma história em cujos conflitos, dramas e alegrias reconhecemos os percalços de nossa própria vida.

Ora, na sexta passada, estreou "Querô", de Carlos Cortez. O filme está em poucas salas, talvez porque se presuma que os espectadores resistam a mais um filme de denúncia da miséria social brasileira.

É uma pena, porque "Querô" não é um filme sobre a miséria social brasileira: é um filme tocante que conta a história de Querô, um adolescente da Baixada Santista que ganhou esse apelido por ter sido abandonado pela mãe, uma prostituta que se matou ingerindo querosene.

Obviamente, ao longo do filme, visitamos os antros do porto de Santos e os porões da Febem. Nesse passeio, talvez enxerguemos algo que preferiríamos não saber, mas isso acontece graças à complexidade e à intensidade da história que nos é contada. Em suma, acontece porque Querô, tão diferente, parece tão próximo a nós.

Raramente acordamos de uma noite dormida em cima das cordas de um barco abandonado, mas todos sabemos sonhar com a liberdade absoluta que é "prêmio" (envenenado) da marginalidade. Raramente devemos escolher entre o amor e o assassinato, mas não é raro que, um dia, tenhamos desistido de um amor que nos transformaria para seguir um dever iníquo ou pela simples força do que parece ser o destino. Poucos foram abandonados quando bebês, mas muitos sofrem do sentimento radical de um desamor, no mínimo, imaginário. Poucos foram abusados brutalmente, mas o ódio e a vontade de matar nos são mais familiares do que gostamos de admitir.

A qualidade humana da experiência narrada e a maestria de quem narra fazem com que uma história nos prenda, por ela se tornar, por assim dizer, universal (ou quase). Nesse caso, pode acontecer, "de brinde", que seu pano social de fundo nos deixe indignados.

Carlos Cortez se vale da extraordinária atuação do estreante Maxwell Nascimento como Querô. Ele poderia, aliás, ter confiado mais em Nascimento, cujo rosto fala alto e dispensa a esporádica evocação cinematográfica dos pensamentos do protagonista.

A origem do roteiro do filme é o romance de Plínio Marcos, "Querô: Uma Reportagem Maldita", de 1976.
Em 2002, a adaptação cinematográfica de uma peça de Plínio Marcos permitiu um filme memorável, "Dois Perdidos Numa Noite Suja", de José Joffily. No passado, houve várias outras adaptações cinematográficas de obras de Plínio Marcos, inclusive uma do próprio "Querô".

Não as conheço, mas, no caso dessas duas adaptações, aposto que ambas devem uma boa parte de sua qualidade ao carinho de Plínio Marcos pelo mundo e submundo que ele descrevia.

Um censor da época da ditadura disse um dia a Plínio Marcos que sua obra era subversiva porque continha palavrões. Plínio Marcos achou estranho, pois ele usava palavrões não para subverter, mas porque escrevia o diálogo de quem trabalha no mercado e de quem conversa nas cadeias e nos puteiros. E não fazia isso para denunciar nem para chocar, mas porque esses eram os protagonistas das histórias que ele conhecia, que lhe pareciam valer a pena e que ele gostava de contar.

06 setembro 2007

Tristeza e dignidade do suicídio


O ato suicida guarda sua dignidade porque é imprevisível como qualquer ato humano

QUANDO EU tinha 12 anos, um tio meu se suicidou. Era um tio de quem eu gostava e que gostava de mim. Ele enfiou a cabeça no forno e abriu a torneira do gás. Deixou uma nota, sucinta, que dizia: "Suicídio por razões profissionais e amorosas".

Meus pais não esconderam de mim as circunstâncias da morte do tio e me mostraram seu bilhete. Mesmo assim, imaginei perceber, em meus pais, uma certa vergonha. Isso, porque, no fundo, eu os culpava.

Foi a grande crise na minha idealização dos meus pais e, por conseqüência, na tranqüilidade de meu mundo: aparentemente, a amizade e o amor que eles ofereciam não tinham sido suficientes para dar a meu tio a vontade de continuar vivendo.

Nada me garantia, portanto, que eles saberiam fazer o necessário para que eu estivesse a fim de viver.

Foi assim que o luto pelo suicídio do meu tio foi também o fim de minha infância. Mas, em regra, quando se suicida um próximo de quem gostamos e que gostava de nós, não atribuímos vergonha e culpa a terceiros: esses sentimentos surgem em nós, ao descobrir que nossa presença e nosso amor não bastaram para que o outro quisesse viver. Em alguns casos, essa ferida nunca cicatriza.

Quando o suicida é nosso pai ou nossa mãe, o sentimento de não termos sido a razão suficiente para ele ou ela viverem fica conosco para sempre, como um fundo melancólico, como a sensação de uma insuficiência essencial ou de uma impossibilidade de sermos amados.

Quando o suicida é um filho ou uma filha, a perda (irreparável, pois o luto pelos nossos descendentes é contra a ordem das gerações) é acompanhada pelo sentimento de um fracasso, como se não tivéssemos conseguido transmitir o básico: a vontade de viver. Deve ser por isso que os monoteísmos consideram o suicídio como um pecado contra o criador: o suicida demonstraria o malogro de Deus. Assisti ao filme "A Ponte", de Eric Steele, e espero que continue em cartaz. Em São Paulo, já passa em apenas uma sala, duas vezes por dia.

Alguns anos atrás, Ted Friend publicou, na "New Yorker" (13/10/ 2003), um artigo sobre a estranha freqüência com que a famosa ponte Golden Gate de San Francisco é escolhida pelos suicidas. Aparentemente inspirado pelo artigo, Steele, durante um ano inteiro, filmou a ponte, sem parar. Houve 24 suicídios e várias tentativas que foram sustadas também graças à equipe de Steele (eles informavam a polícia quando detectavam, de longe, comportamentos "suspeitos").

Além disso, Steele entrevistou parentes e amigos próximos dos suicidas. O tom é justo, comovedor e tocante. O filme evita o caminho mais fácil, que consistiria em nos acusar sub-repticiamente, como se, quando alguém decide morrer, fôssemos todos, de uma maneira ou de outra, responsáveis. A maior qualidade do filme é, ao contrário, a sobriedade. O ato suicida guarda sua dignidade porque, apesar das explicações dos próximos, ele permanece misterioso e radicalmente imprevisível, como qualquer ato humano.

No dia 29 de agosto, o UOL publicou a notícia seguinte: na Áustria, dois homens viviam junto, em um apartamento-albergue dos serviços sociais. Brigaram. Um deles, Robert, psicótico em remissão, matou o outro; depois disso, ele abriu o corpo e o crânio do companheiro e comeu órgãos internos e cérebro. Quando a faxineira chegou, Robert, com a boca ensangüentada, comentou: "Veja só o que aconteceu". A porta-voz do Fundo Social de Viena declarou: "Se tivéssemos a menor idéia de que este tipo de coisa pudesse acontecer, teríamos transferido Robert para outro local e exercido um acompanhamento mais adequado". Alguém, na Áustria, deve estar criticando severamente o psiquiatra, o psicólogo ou a assistente social que, algum dia, afirmaram que Robert podia ser devolvido à sociedade.

Pensei nas poucas vezes em que, num tribunal, tive de dizer, em nome de minha "ciência", se alguém, a partir de então, seria ou não um bom pai ou uma boa mãe.

A verdade é que, uma vez os fatos acontecidos, somos capazes de interpretar, de encontrar explicações e mesmo de assumir responsabilidades e culpas que temos ou não temos. Mas tudo isso apenas retroativamente.

Em matéria de comportamento humano, somos quase sempre incapazes de prever. Não sei se é um mal: talvez essa ignorância seja a condição de nossa liberdade.

30 agosto 2007

Vida estética


Nossa paixão pelo "look" e pelo design tenta construir um mundo que faça sentido

A CADA sexta-feira, é noite de Green Express: em São Paulo, na avenida Rio Branco nº 90, dança-se samba-rock.
A turma, embora goste da mesma música, não é uniforme. Há os malhados e os que carregam consigo 30 quilos acima da média. Há homens de terno, chapéu e sapatos de duas cores, à la Michael Jackson ou à la Rio de Janeiro anos 30; outros com camiseta de time americano e touca de couro; outros tipo "roots" (camisa frouxa para fora das calças); outros são "preppy" (pólo justa). E por aí vai. Do lado das mulheres, mesma variedade.

É um bom lugar para descobrir que não há grau zero do estilo: se você cultiva a ilusão de não se importar com as aparências, saiba que seu "descaso" é mais uma escolha estética entre outras.
Comecei com uma noite no Green, mas poderia ter começado com um passeio por um supermercado. Observando os objetos à venda, mesmo os mais utilitários (um saca-rolhas, uma toalha de prato), chegaria à mesma conclusão: nossas escolhas respeitam a racionalidade (a roupa tem que nos vestir e a faca tem que cortar), mas são orientadas por considerações estéticas: gostamos de um "look". E não é preciso que seja o mesmo para todos: não procuramos um cânone, apenas queremos que nosso gosto ordene um pouco o mundo.

Nas últimas décadas, passamos do ideal de um consumo de massa (mesma geladeira para todos) a um ideal de consumo personalizado, em que o estilo e o design comandam nossas escolhas.
Esse fenômeno, dificilmente discutível, está no centro do trabalho de Virginia Postrel, recentemente entrevistada pelo caderno Mais! (29 de julho) por seu livro de 2003, "The Substance of Style" (a substância do estilo, HarperCollins).

A relevância das escolhas estéticas no comportamento e no consumo das últimas cinco décadas é tradicionalmente explicada segundo dois eixos: 1) Nosso sistema produtivo, depois de promover o consumo de massa, para continuar crescendo, incentiva a diversificação do consumo; 2) Vivemos numa sociedade em que o lugar de cada um depende do olhar dos outros; portanto, a sedução estética que conseguimos exercer (graças a nossa pessoa e aos objetos que nos cercam) torna-se crucial.

Postrel aceita essas explicações, mas acrescenta o seguinte: se valorizamos as aparências é porque encontramos, nesse exercício estético, "prazer e sentido".

É fácil entender qual é o prazer encontrado num exercício estético generalizado: é o prazer de se expressar singularmente e de compor, para si mesmo e para os outros, uma imagem agradável.
Mais complicado é entender como essa atividade estética incessante nos ajudaria a encontrar um pouco de sentido para nossa vida.

Pois bem, se alguém me perguntasse, hoje, quais são, ao meu ver, os textos filosóficos decisivos para entender o espírito moderno, eu incluiria entre os cinco primeiros, sem hesitar, a "Crítica da Faculdade do Juízo", de Kant (Forense Universitária). O livro, escrito no fim do século 18, não é uma leitura fácil. Quando o li, nos anos 70, foi por dever. Hoje, no retrospecto, considerando a extraordinária relevância da escolha estética na vida moderna das últimas décadas, ele me parece profético e genial.

Resumindo além do máximo, uma das idéias centrais de Kant é a seguinte: apreciamos o belo porque é o exemplo de algo que se justifica em si, ou seja, que tem um fim e uma razão de ser, mas esse fim não é uma idéia ou uma representação externa, ele está na coisa mesma que achamos bela. A beleza, por assim dizer, é o charme das coisas, dos seres e dos momentos que não precisam de uma justificação outra que sua beleza.

Por exemplo, uma cena qualquer da vida, contemplada da mesa de um bar, levanta questões: o que quer aquela mulher? Para onde está indo aquele cara? Qual será o futuro do cachorro que passa por aí?

Numa "bela" fotografia da mesma cena, a questão da finalidade da vida da mulher, do cara e do cachorro é resolvida pela finalidade interna da imagem, por sua "beleza".

Ora, em nossa cultura, a tradição perdeu valorm, e o plano divino é, no mínimo, incerto: as representações e idéias que davam sentido à vida são cada vez mais problemáticas. Talvez nossa paixão cotidiana pelo "look" e pelo design tente, laboriosamente, construir um mundo que se justifique por sua qualidade estética, ou seja, por si só.

21 agosto 2007

A vida de Santiago


Uma vida se justifica como um arranjo de flores, não pela duração, mas pela harmonia

ESTRÉIA AMANHÃ o filme "Santiago", de João Moreira Salles. A história de sua produção é conhecida: em 1992, João Moreira Salles filmou um documentário sobre Santiago Badariotti Merlo, que tinha sido, no passado, durante 30 anos, o mordomo de sua família.

Para o diretor, era uma maneira de se lembrar de sua infância e de meditar sobre vida e morte, memória e esquecimento. Ele abandonou o projeto durante a montagem. Santiago morreu em 1994. Em 2005, João Moreira Salles voltou ao material abandonado para criar um filme que é uma obra-prima, imperdível.

Já foi observado que "Santiago" é um filme que desnuda a relação entre o documentarista e sua personagem. O diretor não esconde sua voz, que pede que Santiago repita, retome, fale mais rápido, olhe para cá ou para lá. Alguns acharam que o longa-metragem também quer desvendar a desigualdade inevitável entre o ex-mordomo e o filho do ex-dono de casa. Pode ser. Mas a imperiosidade do documentarista me evocou outra coisa.

Quando minha avó ainda vivia, eu, ao voltar para casa, pedia que ela fizesse o polpettone de minha infância. Ela fazia, eu agradecia, elogiava e também me queixava: nunca era exatamente como "aquele" polpettone. Num momento do filme, Santiago recita o Pater Noster, o Salve Regina e a Ave-Maria, evocando sua avó, que lhe ensinara a rezar em latim. O diretor se lembra da comoção que a reza de Santiago em latim lhe causava, quando criança. Logo, ele descarta o "take" e pede que Santiago reze novamente, concentrando-se e juntando as mãos.

Crítica do gênero documentário? Eu vejo, sobretudo, o efeito tocante do mergulho na memória: o que João Moreira Salles quer é reviver a emoção que lhe dava "aquela" reza em latim da sua infância -"aquela" reza que não volta mais.

Muitos observaram também que "Santiago" é um filme sobre a luta da memória contra a morte. Eu mesmo, depois de assistir ao filme, perguntei o que aconteceria com as 30 mil páginas que Santiago escreveu sobre as dinastias da nobreza do mundo ao longo de 4.000 anos de história. Era como se quisesse que a sobrevivência da obra de Santiago prolongasse o sentido de sua vida e da vida em geral (os calhamaços ficarão no Instituto Moreira Salles, na casa da Gávea, onde Santiago foi mordomo).

Agora, Santiago tem uma consciência aguda de que a vida é passageira e o céu está vazio (citação de Bergman por Santiago). E não é uma consciência produzida pela idade avançada. Walter Salles me contou uma anedota bem anterior ao filme: uma manhã, Walter Moreira Salles, seu pai (e pai de João, claro) abriu as cortinas de seu apartamento de Copacabana junto com Santiago. Era um primeiro de maio ensolarado. Walter Moreira Salles comentou: "Que dia lindo". E Santiago, imediatamente, em portunhol, olhando para a praia já cheia: "Em cem años, estarão todos muertos".

Mas Santiago não é cínico. E seu remédio contra a morte não é apenas sua prodigiosa memória. No filme, Santiago toca as castanholas, canta, dança com as mãos e, sobretudo, está sempre preocupado com a beleza. Inclusive com a beleza da morte, "la gran partita", o "bel morir" que pode dignificar a vida inteira.

Uma especialidade de Santiago consistia em preparar arranjos de flores para as festas. Ele dava, aos diferentes arranjos, nomes musicais, cantata, scherzos etc. Quando os terminava, ficava a fim de lhes pedir (aos arranjos) que cantassem, assim como Michelangelo perguntou "Por que não falas?" à sua estátua do Moisés (Santiago corrige a lenda, preferindo o Davi).

As flores dos arranjos logo murcharão, mas o importante é que elas desabrochem na hora efêmera da festa, mostrando o esplendor de cada flor e a harmonia do arranjo. Como um arranjo, uma vida não se justifica por sua duração, nem pela lembrança, nem pelo aplauso dos outros, ela se justifica por sua harmonia intrínseca.

Se for assim, o Santiago que conhecemos pelo filme de João Moreira Salles justificou sua vida. Nota: nas últimas semanas, errei duas vezes: ao escrever que "Goldfinger" era o primeiro James Bond com Sean Connery e ao corrigir, dizendo que era o segundo. É o terceiro. O fato é que "Goldfinger" foi, na minha história, o primeiro grande propagandista de uma justificação hollywoodiana da vida. Hoje, preferiria justificar minha vida tocando Beethoven, de fraque, numa casa deserta, com Santiago.

16 agosto 2007

Antidepressivos, aspirinas e urubus


Os antidepressivos são uma espécie de aspirina psíquica, capaz de aliviar qualquer tristeza?

A FEBRE se manifesta numa longa lista de moléstias: gripe, infecções bacterianas, insolação e por aí vai. Em todos esses casos, a aspirina combate a febre, mas não cura a enfermidade em que ela se manifesta. Para isso, cada enfermidade tem remédios próprios (quando tem): antibióticos, sulfamídicos, cortisona etc.

Pergunta: segundo a psiquiatria, os antidepressivos atuais são um remédio específico para uma moléstia chamada "depressão"? Ou são uma espécie de aspirina psíquica, capaz de aliviar a tristeza e a morosidade que se manifestam numa variedade de situações de vida e de quadros clínicos? Ou será que podem ser as duas coisas?

Pois bem, graças a um amigo, Célio G. Marques de Godoy, que me indicou o artigo, li uma pesquisa publicada recentemente no "New England Journal of Medicine" (2007, vol. 356, 17). A pesquisa testa a "eficácia do tratamento auxiliar com antidepressivos na depressão de pacientes bipolares". Uma explicação: na clínica psiquiátrica, os transtornos bipolares são um quadro bem distinto da depressão. Neles, o sujeito alterna fases depressivas com fases de euforia maníaca; as fases depressivas são mais longas do que as maníacas, mas a alternância é crucial para o diagnóstico. Em suma, um bipolar em fase depressiva se parece com um deprimido, mas isso não significa que ele sofra da mesma "moléstia".

Na pesquisa, trata-se de saber se, num quadro diferente da depressão, os antidepressivos podem funcionar ou não como uma aspirina que aliviaria qualquer tristeza. A resposta, no caso dos transtornos bipolares, é negativa: os antidepressivos não funcionam como a aspirina com a febre. No entanto, eis o conselho paradoxal dos pesquisadores: se um paciente bipolar já estiver tomando antidepressivos, melhor que continue, embora a pesquisa mostre que eles não parecem aliviar sua fase depressiva. Por que a recomendação?

Pois é, literalmente, porque NUNCA SE SABE. Essa incerteza faz a felicidade dos urubus, que faturam com o uso dos antidepressivos como se fossem aspirina. Mas ela é também o retrato fiel do estado de nossa clínica e de nossa ciência. Vamos lá:

1) Os antidepressivos atuais foram descobertos quando alguém administrou um derivado da hydrazina a pacientes tuberculosos. O efeito inesperado (e único) foi que eles ficaram mais alegres.
2) Mais tarde, descobriu-se que a mesma substância aumentava (pouco importa como) a quantidade de um neurotransmissor no cérebro (a serotonina).

3) Supondo que essa alteração fosse responsável pelo bom humor dos pacientes tuberculosos, decidiu-se experimentar o uso de substâncias análogas em pacientes deprimidos.
4) Para isso, foi necessário construir um padrão de comportamentos e afetos que identificassem os deprimidos; nasceu assim "a depressão". De fato, entre 30 e 40% dos sujeitos que correspondem a esse padrão se beneficiam com o uso dessas substâncias.

5) Por que não todos? a) A definição padrão da depressão é comportamental, afetiva e discursiva, não química, pois é difícil verificar o nível de serotonina no cérebro das pessoas; b) portanto, é possível que muitas depressões sejam conformes ao padrão comportamental e afetivo estabelecido, mas que se expressem por alterações químicas diferentes da insuficiência de serotonina; c) conclusão: reagiriam positivamente a antidepressivos só aqueles deprimidos que expressam quimicamente sua depressão pela diminuição da serotonina no cérebro. Como identificá-los? Só experimentando.

6) Assim como haveria depressões que não se expressam pela insuficiência da serotonina, é também possível que haja, fora da depressão, tristezas e morosidades que se expressem por uma falta de serotonina. Nesses casos, os antidepressivos ajudariam. Como identificá-los? Só experimentando.

Em suma, o uso dos antidepressivos é empírico. Compara-se à administração de antibióticos específicos diante de um quadro no qual nenhuma cultura bacteriana pudesse nos dizer se o paciente é infectado ou não pela bactéria que o antibiótico está atacando.

É uma razão para condenar os antidepressivos? Não. Mas é bom saber que nossa ciência e nossa clínica os administram balbuciando. Correção da coluna passada: "Goldfinger" não é o primeiro James Bond com Sean Connery; é o segundo. Agradeço os leitores que me assinalaram o erro.

09 agosto 2007

Antonioni


Com ele, aprendi que, no amor, é bom não confundir verborragia com comunicação

DOIS ANOS atrás, assisti a "Eros", filme em três episódios de diretores diferentes: Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-wai.

Quase saí bem antes do fim. "Eros" começa com o episódio de Antonioni, que me pareceu de uma mediocridade constrangedora: os atores estão perdidos no set, as legendas são preferíveis aos diálogos e, como se não bastasse, há uma série de estereótipos intoleráveis.

Uma mulher nua em cima de um cavalo é uma metáfora erótica tão defunta que só deveria ser utilizada como farsa (exemplo de uma boa farsa: o nado sincronizado à la Esther Williams na cena primorosa dos Oompa-Loompas no lago da "Fantástica Fábrica de Chocolate" de Tim Burton).

Enfim, por sorte ou obstinação, agüentei firme e fui recompensado pelo episódio de Kar-wai, que é uma obra-prima.

A razão de meu constrangimento era simples: a obra de Antonioni, que morreu na semana passada, aos 94 anos, é das que mais me tocaram e me formaram. Deparar-me com um filme medíocre e assinado por ele (embora, presumivelmente, orquestrado por outros) forçava-me a interrogar o passado: o que eu acharia, hoje, dos filmes de Antonioni de 30 ou 40 anos atrás?
Decidi revê-los. Foi uma aventura de várias noites, que recomendo a todos: únicos e inconfundíveis, os filmes de Antonioni não envelheceram. Sua obra, além de ser cinematograficamente genial, continua valendo como uma extraordinária educação sentimental.
Em matéria de educação sentimental, aliás, ela só compete com a obra de Ingmar Bergman, que também acaba de perder seu jogo de xadrez com a morte. Antonioni e Bergman têm em comum um respeito extremo pela intimidade humana.


Talvez seja porque ambos tiveram que redescobrir a dignidade da vida depois da grande "aventura" coletiva da Segunda Guerra e a redescobriram na trama dos sentimentos.

Meus Antonionis preferidos se dividem em dois blocos. O primeiro inclui "A Aventura" (1960), "A Noite" (1961) e "O Eclipse" (1962) e foi chamado, na época, de "Trilogia da Incomunicabilidade". Nunca entendi por quê. Continuo não entendendo. Os personagens de Antonioni só podem parecer pouco comunicativos aos olhos de uma cultura que confunda a verborragia com a comunicação, o falar com o dizer.

Tome "A Noite": poucos filmes ou livros nos dizem de maneira tão simples e correta o que é um casal e o que é um amor. E poucos amantes, cinematográficos ou literários, conseguem, como Giovanni (Marcello Mastroianni) e Lidia (Jeanne Moreau), em "A Noite", dizer tudo o que é preciso e NADA MAIS.

Com Antonioni, aprendi que há uma ética da troca amorosa. Por exemplo, num momento do filme, Lidia some pelas ruas de Milão, durante uma tarde inteira. Quando, enfim, ela se manifesta com um telefonema, a discrição de Giovanni não é um drama da "incomunicabilidade", é a reserva de quem, no amor, preserva o respeito pela complexidade do outro.

O cinema é uma boa parte de nosso repertório amoroso. Pois bem, no amor, como num set de filmagem, é necessário, de vez em quando, avisar: "Silêncio! Ação!". Qualquer casal, em crise ou não, que seja tentado pela idéia de sentar e "discutir a relação" poderia (com bastante proveito) sentar e assistir à "Noite".

Meus outros Antonionis preferidos são "Blow Up", de 1966, (misteriosamente traduzido como "Depois Daquele Beijo") e "Profissão: Repórter", de 1975. Esses dois filmes foram a melhor resposta que minha geração recebeu a seus anseios vagos e frustrados por uma "outra" vida, diferente da mesmice acomodada que receávamos para o futuro.

"Goldfinger", o primeiro James Bond com Sean Connery, saiu em 1964, dois anos antes de "Blow Up". "Goldfinger" é o exemplo perfeito da resposta padrão à nossa questão adolescente: podem sonhar todos com a fabulosa vida de agentes secretos, criminosos, detetives e por aí vai. Pistola por pistola, dez anos depois, alguns, inspirados pela mesma proposta hollywoodiana, caíram na clandestinidade armada.

A resposta de Antonioni é mais sutil e diz que, claro, não é possível romancear a vida sem "ser outro constantemente" (a frase é de Fernando Pessoa, mas é também o recado de "Profissão: Repórter"). Agora, para romancear a vida, não é preciso encontrar destinos grandiosos. Basta enxergar o detalhe que sempre está presente num canto escuro da realidade cotidiana, ao alcance de uma ampliação fotográfica.

02 agosto 2007

As nossas histórias e "A História"


"A História" é abstração: as nossas pequenas histórias concretas são seu verdadeiro tecido

ASSISTI A "Bobby", de Emilio Estevez, que acaba de estrear. O filme conta o dia da morte de Robert F. Kennedy a partir das pequenas histórias de quem, por uma razão ou outra, estava, naquelas horas, no Hotel Ambassador de Los Angeles (que foi o lugar do atentado). É uma ocasião imperdível e tocante para pensar um pouco sobre a relação entre "A História" e nossas pequenas histórias.

Por exemplo, o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963, em Dallas, Texas, foi numa sexta-feira, por volta do meio-dia.

Sei disso porque lembro que eu estava em Milão, na casa dos meus pais, e ia sair com meu melhor amigo; a notícia chegou na hora do jantar.

Logo, o grupinho político ao qual eu e meu amigo pertencíamos (o Círculo Piero Gobetti) convocou uma reunião de urgência (no retrospecto, a urgência parece engraçada).

Redigimos uma declaração "oficial", de cujo teor eu me esqueci totalmente, mas que foi impressa em cartaz no dia seguinte. Passei a noite de sábado com meu amigo, colando cartazes pelas ruas, no frio. Como o cartaz não era autorizado, fomos presos, na madrugada. É a melhor lembrança que tenho de meu amigo do peito daqueles dias.

Eu também me lembro do exato momento em que aprendi que Martin Luther King tinha sido assassinado, em Memphis, Tennessee, no começo de abril de 1968: estava sendo apresentado a meus sogros, em Houston, Texas.

Do dia do assassinato de Robert Kennedy, em junho de 1968, não me lembro. Provavelmente não está ligado a nenhum pequeno evento de minha própria história.

Estava em Paris no dia da greve geral de 22 de maio de 1968. Mas saí da cidade, de carro e com dificuldade (era difícil encontrar gasolina), antes da manifestação favorável a De Gaulle, que foi em 30 de maio. Sei disso porque sei onde estava e com quem quando me disseram que a manifestação do dia 30 tinha acontecido, promovida (fato doloroso) por um dos meus ídolos literários, André Malraux.

Depois disso, nada até o fim de agosto de 1968: no dia em que os tanques soviéticos entraram em Praga, estava no barzinho do porto de Panarea, na Sicília, onde, naquele ano, eu passava minhas férias de verão (que eram também uma espécie de lua-de-mel).

Alguns grandes eventos da "História" me permitem datar minhas pequenas histórias. Reciprocamente, há datas de grandes eventos das quais me lembro porque estão ligadas a momentos cruciais de minha pequena história.

Tudo bem, eu uso meu teatro íntimo para me lembrar das datas dos grandes eventos e, reciprocamente, sirvo-me dos grandes eventos para me lembrar de algumas datas de minha vida. Mas qual é a diferença e qual a relação entre minhas histórias e "A História"?

Poderíamos dizer assim: os eventos da "História" são aqueles que interferem na vida de muitos, enquanto nossas histórias só concernem a nós e a um número restrito de próximos.
Agora, por mais que sonhemos, às vezes, com o progresso da razão, o fim da luta de classe ou a marcha providencial para o juízo final, "A História" não tem dinâmica própria.

Ela é só a resultante das infinitas pequenas histórias da gente. Sirhan Sirhan, o assassino de Robert Kennedy, disse, na época, que ele se sentia compelido a agir pela "História": Robert Kennedy tinha apoiado Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e o assassinato aconteceu no aniversário do começo da guerra. Por outro lado, Sirhan era um sujeito desequilibrado e influenciável. Sem os percalços de sua pequena história pessoal, ele nunca teria cometido o ato que o propulsou para o palco da "História".

Além disso, "A História" não tem interesse intrínseco. Ela só vale porque, de uma maneira ou de outra, ela mexe com nossas pequenas histórias. "A História" pode dizer, por exemplo, que, se Robert Kennedy não tivesse sido assassinado, Nixon não teria sido eleito e a guerra do Vietnã teria terminado mais cedo.

É provável. Mas dizer que "a guerra do Vietnã teria terminado mais cedo" é uma abstração. O que importa é que Joe, Jack, Ho, Nguyen etc. teriam ficado em casa, teriam amado, criado seus filhos e por aí vai -é isso o que importa.

Quando contamos "A História", esquecemos que ela não é nada se não uma abstração de histórias concretas. E, quando pensamos nas pequenas histórias, inclusive nas nossas, esquecemos que elas são o verdadeiro e único tecido da "História".