19 abril 2007

Somos culpados, mas de quê?


Pesquisa mostra que a culpa mais dolorosa é o lamento por não termos agido como queríamos

A MELHOR polícia do mundo não conseguiria manter a ordem se respeitássemos as leis só por medo da punição. A sociedade funciona (mais ou menos) porque infrações e crimes despertam não só a PM e a PF mas também nossa consciência: a perspectiva do arrependimento nos inibe.
O problema, como Freud constatou, é que a gente se culpa mais do que é necessário: enxergamos crimes onde não há, consideramos que nossas vagas intenções e nossos sonhos noturnos já são delitos e nos castigamos para aliviar os tormentos de nossa culpa. Seja como for, até os anos 60, o sentimento de culpa -necessário ou patológico e excessivo- parecia ser só isto: o arrependimento por ter desrespeitado uma norma ou uma autoridade.

Em seu seminário (um pouco críptico) de 1959-60 ("A Ética da Psicanálise", Zahar), o psicanalista francês Jacques Lacan propôs algo diferente: a culpa mais relevante e mais sofrida surgiria não por termos desobedecido a uma norma, mas por termos neglicenciado nosso próprio desejo, por termos desistido de agir como queríamos. Podemos nos arrepender de nossas transgressões, mas lamentamos, mais amargamente, as ocasiões perdidas.

Era uma pequena revolução no mundo da clínica. De fato, o sentimento de culpa é onipresente (ou quase), e as transgressões, em geral, são poucas. É lógico, portanto, que a culpa que nos atormenta seja sobretudo um efeito de nossa covardia (que é crônica), e não de nosso atrevimento (que é raro).

Pois bem, no ano passado, Ran Kivetz e Anat Keinan publicaram uma pesquisa que confirma experimentalmente a intuição de Lacan (que, claro, eles não leram): "Repenting Hyperopia: an Analysis of Self-Control Regrets" (Hipermetropia Pesarosa: uma Análise dos Arrependimentos do Autocontrole, "Journal of Consumer Research", vol. 33, setembro 2006).

Em três protocolos de pesquisa, Kivetz e Keinan confirmaram o seguinte: 1) todos condenamos as decisões que só enxergam o prazer imediato sem levar em conta as conseqüências futuras (desde comer a segunda fatia de bolo ou gastar dinheiro que não temos até cometer um pecado pelo qual responderemos na porta do purgatório); 2) mas essa condenação é fugitiva, efêmera: a longo prazo (depois de um ano, por exemplo), considerando a decisão que nos pareceu sábia (não comer a segunda fatia de bolo, não gastar, não pecar), o que prevalece é o arrependimento por ter perdido uma ocasião, por não ter agido segundo nosso impulso ou desejo.

Na metáfora ótica usada por Kivetz e Keinan, sabemos que nossos impulsos são míopes (só enxergam a satisfação do momento) e achamos certo agir como hipermetropes (o que, em geral, significa deixar de agir, focalizando e receando as conseqüências afastadas de nossos atos); a curto prazo, nós nos felicitamos por ter pensado no futuro, enquanto, a longo prazo, lamentamos ter sido hipermetropes e desperdiçado satisfações que estavam ao nosso alcance imediato.
Kivetz e Keinan sugerem uma explicação: a longo prazo, os atos passados são integrados numa espécie de balanço de nossa vida, em que devemos decidir se a corrida foi boa, se valeu a pena. Nesse balanço, o lamento pelas coisas que queríamos e não ousamos fazer pesaria mais que o mérito das "sábias" decisões que comandaram nossas desistências.

De qualquer forma, o fato é que o arrependimento por não ter escutado o desejo parece falar mais alto e por mais tempo do que o arrependimento por ter ousado transgredir. Seria aventuroso concluir que, para não se arrepender no futuro, a gente deveria atuar qualquer desejo.

Mas resta uma suspeita, ou melhor, uma lição: freqüentemente, as razões que mantêm nosso comportamento nos padrões esperados (obediência à ordem social, a nossos pais, à tradição etc.) são apenas racionalizações de uma covardia da qual nos arrependeremos um dia.

Para entender plenamente o alcance da pesquisa, esqueça a segunda fatia de bolo, os gastos e os pecadilhos (exemplos triviais usados na experiência) e pense em decisões cruciais de sua vida: uma mudança de carreira à qual você renunciou porque teria desapontado ou preocupado seus próximos, uma paixão amorosa que você calou porque teria encontrado a desaprovação dos mesmos. Pois bem, a longo prazo, essas desistências doem mais do que doeria a culpa por ter transgredido normas e expectativas, seguindo nosso desejo.


12 abril 2007

O hedonismo em "Roma" e entre nós

Somos demasiado preocupados com nossa sobrevivência para sermos hedonistas

NO DIA 9 de maio, chega o papa. Provavelmente, em um de seus discursos, ele criticará a busca imoral pelo prazer imediato. Tudo bem, criticar o hedonismo da gente é uma coisa que os papas fazem.

Fato curioso: se, nessa ocasião, Bento 16 precisasse de citações, ele disporia de uma ampla escolha de autores laicos. De Zygmunt Bauman a Colin Campbell, passando por uma coorte de excelentes pensadores contemporâneos, quase todo mundo parece convencido de que nossas vidas sejam regradas pela busca do prazer (aí residiria, aliás, a origem de muitos de nossos males).

É uma trivialidade comum a religiosos e ateus, racionalistas e místicos: o hedonismo nos corrompe, torna-nos pequenos, covardes e, claro, consumistas. Será que é verdade? Uma coisa é óbvia: somos demasiado preocupados com nossa sobrevivência para sermos hedonistas.

Um pé na balança e um olhar inquieto para os números do colesterol na hora de abocanhar chocolate ou queijo, um ou dois preservativos (sobrepostos) no momento de transar (de preferência no sábado, que amanhã dá para descansar), preocupados com nossa reputação na hora de escolher o lugar de um encontro furtivo, apreensivos na hora de gastar, envergonhados, temerosos e arrependidos já antes do ato: esses somos nós, os pretensos "hedonistas" modernos.
Os únicos hedonistas, entre nós, são poucos e marginalizados: heroinômanos queimando o organismo para viver um orgasmo permanente ou promíscuos procurando raivosamente o gozo, noite adentro, nos escassos e precários lugares da orgia.

O papa, em geral, opõe o suposto "hedonismo" contemporâneo à "cultura da vida". É a maneira que ele encontrou para defender casamento e procriação contra divórcio e aborto.
O estranho é que os outros (que não são papas) não percebam que a "cultura da vida" já ganhou faz tempo: a preservação de nossa existência é, para nós, infinitamente mais importante do que a procura do prazer. Somos higienistas, isso, sim. Mas não hedonistas.

Nestes dias, em uma conversa sobre o tema, um amigo me lembrou, com razão, que o argumento laico contra a procura dos prazeres coincide com a convicção (constante na cultura ocidental) de que estaríamos sempre vivendo uma decadência a partir de uma "idade de ouro" perdida (o livro de A. Herman "A Idéia de Decadência na História Ocidental", ed. Record, é, nesse sentido, muito instrutivo).

O mesmo amigo "citou" o clássico de Edward Gibbon ("Declínio e Queda do Império Romano", Companhia das Letras): Roma era forte e maravilhosa quando seus homens eram dominados pelos grandes ideais republicanos. A sede de poder e prazeres levou a cidade ao declínio.

Na hora, eu não disse nada, mas, cá entre nós, esse lugar comum tem pouco a ver com Gibbon. A tese segundo a qual o luxo e a luxúria enfraquecem os cérebros e os músculos é uma idéia "pop": ela orienta, por exemplo, o filme "300", versão cinematográfica dos quadrinhos de Frank Miller.

Mas, para Gibbon, o maior responsável pelo declínio romano é o cristianismo: a promessa da vida eterna tornaria vãos os sacrifícios extremos e mesmo os esforços na procura dos prazeres e do poder, e a moral cristã sugeriria um pacifismo que inibe o uso da força. Para Gibbon, de uma certa forma, foi o anti-hedonismo cristão, não o hedonismo, que acabou com Roma.

Seja como for, o relato de Gibbon começa no segundo século de nossa era, depois do império de Marco Aurélio. Será que até então Roma era grande porque os romanos fugiam dos prazeres? Nada disso.

Fique em casa nas próximas noites de domingo. Estréia no dia 15, na HBO, a segunda temporada do seriado "Roma". A primeira (12 episódios imperdíveis, que cobrem o breve período entre a volta de César da Gália e seu assassinato no Senado) está disponível para locação.

"Roma", o seriado, é uma reconstrução histórica extraordinária, não pela verossimilhança de monumentos, costumes e batalhas (isso é fácil), mas porque nos mostra perfeitamente um mundo distante do nosso, um mundo em que sobreviver importa menos do que viver: um mundo em que é permitido gozar e é fácil morrer, matar e se matar.

Se você quer saber o que seria (o que foi) uma sociedade verdadeiramente hedonista em todo seu esplendor (tanto faz que seja para lamentar seu fim ou para odiá-la), não deixe de ver "Roma", sob nenhum pretexto.

05 abril 2007

Pequenos furtos, manchas e alívio


Pessoas respeitadas, como Sobel, cometem, irresistivelmente, atos contra a sua imagem
EM PSIQUIATRIA , a cleptomania (impulso de roubar) é um dos "transtornos do controle dos impulsos", junto com o jogo de azar descontrolado, a piromania (impulso incendiário), a tricotilomania (impulso de se arrancar cabelos) e as explosões repentinas de violência contra os outros ou os objetos.

Caraterísticas comuns desses transtornos: 1) o impulso surge de maneira irresistível e sem premeditação (se coloco fogo na minha granja para receber o prêmio do seguro, não sou pirômano, apenas malandro); 2) o ato, precedido por uma forte tensão, produz no sujeito uma sensação de alívio.

Nota: é importante não confundir os transtornos do controle dos impulsos com condutas similares que aparecem nas crises de mania -as quais, por sua vez, são caracterizadas assim: três ou quatro dias sem sono, idéias (delirantes ou quase) de grandiosidade e onipotência, fuga do pensamento, agitação psicomotora.

Desde que chegou a notícia da prisão do rabino Henry Sobel pelo furto de quatro gravatas em lojas luxuosas de Palm Beach (EUA), recebo e-mails que propõem apoio moral ao rabino e outros que parecem antever e contestar antecipadamente esta coluna, lembrando (não sem humor): "Cuidado: pobre que rouba é ladrão, rico é cleptômano".

Que os autores desse segundo grupo de e-mails se tranqüilizem: nos tribunais americanos, a cleptomania não ameniza a responsabilidade do acusado.

Agora, é verdade que, em regra, o cleptômano, rico ou não, rouba objetos que não lhe são indispensáveis e que ele poderia comprar sem grande esforço financeiro.

Mas vamos ao que importa. A categoria psiquiátrica de "transtornos do controle dos impulsos" é descritiva e não diz nada sobre os caminhos que tornam um sujeito cleptômano, pirômano, jogador compulsivo etc. Esses caminhos são singulares.

Exemplo extremo dessa singularidade: conheci um transexual operado (homem para mulher) que, a cada dia, roubava nas lojas de Paris e sempre voltava para recolocar (também às escondidas) o objeto roubado na prateleira.

Provavelmente, era guiado pela vontade de fazer desaparecer e reaparecer objetos que representavam a parte de seu corpo à qual tinha renunciado.

Não tenho idéia das razões singulares que levaram o rabino Sobel a roubar naquelas lojas de Palm Beach. Assim como não sei o que levou Winona Ryder a roubar roupas na Saks de Berverly Hills; ou Ronaldo Esper, o estilista das noivas, a roubar vasos de concretos num cemitério paulistano.
Mas essas três histórias (e várias outras) têm algo em comum: os protagonistas são pessoas públicas; de maneira e por razões diferentes, eles são (ou foram) objeto de algum tipo de idealização. Não só eles não precisavam roubar (pois os objetos furtados estavam ao alcance de seu bolso), mas, sobretudo, se fossem descobertos, o dano sofrido por sua figura pública seria incomparavelmente superior ao valor dos objetos roubados.

Acontece com uma certa freqüência: pessoas respeitadas e admiradas cometem, irresistivelmente, atos que mancham sua imagem. Elas ganham assim, no noticiário, um espaço que é o inverso àquele que elas ocupavam: caem, diretamente, da idealização ao escárnio.
Poderíamos inventar uma nova categoria, a dos "transtornos do controle dos impulsos em notáveis de uma comunidade". Seu traço saliente seria a desproporção entre o tamanho da infração (geralmente pequena) e o risco de comprometer uma reputação que é, no fundo, o maior patrimônio do sujeito.

Uma explicação possível para essas condutas está justamente na desproporção.
Imagine conviver com a sensação de um divórcio permanente (que é, de qualquer forma, inevitável) entre a visão idealizada que os outros têm de você e a visão, bem menos lisonjeira, que você tem de sua pessoa. Imagine a tensão incessante para estar à altura de uma imagem pública da qual você só pode, honestamente, sentir-se indigno: a visibilidade, o respeito e a admiração dos outros se tornam um fardo insustentável.

Quando um homem respeitado e respeitável comete um ato incompreensível que prejudica o capital de estima que ele acumulou, talvez seja justamente para desmentir sua figura pública idealizada, ou seja, para abrandar, enfim, o sentimento de viver uma extenuante impostura.
O ato, nesses casos, é um alívio, um grito que diz: "Sou um homem qualquer".

29 março 2007

O "mea-culpa" pela escravatura

As desculpas retroativas pela escravatura parecem ser sinais da volta do racismo

O REINO Unido celebra os 200 anos da abolição do comércio de escravos. Tony Blair expressou seu pesar pelo antigo papel dos britânicos no tráfico.

Como assinala Marco Aurélio Canônico na Folha do dia 24, os aniversários anteriores passaram sem destaque especial. O historiador John Oldfield, citado por Canônico, atribui o interesse atual pelo aniversário às mudanças na sociedade britânica: o "mea-culpa" seria um jeito de agradar às massas de imigrantes das ex-colônias, facilitando sua integração. Quem dera...

O processo da abolição da escravatura é uma longa jornada da consciência ocidental; começou nos primeiros séculos da cristandade, com o sucesso da idéia de que o limite da humanidade não é a tribo, a raça ou a fé, mas é a própria espécie: somos irmãos, simplesmente por sermos humanos. Hoje, por um sentimento espontâneo e imediato, qualquer ser humano é "dos nossos". No passado e em outras culturas, já foi e ainda é banal considerar que nosso semelhante é só quem dorme na toca da gente.

A idéia de uma comunidade da espécie humana é uma invenção, se não exclusiva, no mínimo peculiar da cultura ocidental. E, sem essa idéia, vinga a tentação de usar e possuir o outro (diferente e, portanto, subumano) como um objeto.

Em suma, o aniversário do dia 25 deveria ser uma festa para todos - no caso, todos os cidadãos e residentes do Reino Unido, celebrando juntos sua igualdade de princípio.

Ora, as desculpas pela escravatura sugerem uma divisão: de um lado, há os "descendentes de escravos", do outro, os "descendentes de escravocratas". É curioso, pois, na modernidade ocidental, presume-se que ninguém se defina como "descendente de": se somos todos humanos, indiferentemente, é também porque somos definidos não pelo passado, mas por nossas potencialidades futuras.

Entende-se que os ditos "descendentes de escravos" (cuja cultura de origem pode ser escravocrata) sejam, eventualmente, enredados numa divisão subjetiva dolorosa: aderir à cultura que os acolhe como cidadãos (porque, para ela, só há homens livres) significa renegar sua tradição.

Mais complicado é entender as desculpas dos ditos "descendentes de escravocratas", pois qual é o sentido da desculpa retroativa de quem não se define pelo seu passado?

Versão otimista: hoje, por termos "evoluído", enxergaríamos o horror de um passado que não nos define, que não é o da gente, mas que, afinal, carregava nosso nome.

Tony Blair não tem nada a ver com os ministros dos séculos 17 e 18, salvo a referência comum a um "Reino Unido" que, aliás, não é mais o mesmo país.

Versão realista (a de Oldfield): as desculpas constituem uma homenagem (forçada) aos imigrantes, que são os novos cidadãos do Ocidente.

Minha versão é pessimista. A necessidade de se desculpar pela escravatura não vem do sentimento (improvável) de uma responsabilidade retroativa nem da vontade (duvidosa) de desejar as boas-vindas aos africanos. As desculpas se parecem mais com os desagravos preventivos e hipócritas que são pronunciados quando a gente está à beira de fazer uma besteira: "Desculpe, mas vou ter de lhe dar um soco na cara". Explico.

As diferenças que a Europa deveria integrar hoje não são maiores do que as que povoaram as Américas, por exemplo, no começo do século passado. As Américas tentaram diluir as diferenças transformando todos em puros agentes econômicos: "Esqueça-se de suas origens e pense em fazer fortuna".

A Europa, zelosa de sua história e de suas identidades nacionais, pode dificilmente pedir a seus imigrantes que se esqueçam do passado deles. Com isso, na Europa, as diferenças não se perdem, se agudizam.

As desculpas de hoje, justamente, parecem assinalar uma intolerância crescente. "Desculpe-me por tê-lo escravizado no passado" é um jeito de lembrar que o passado continua valendo, e, nesse passado, você foi escravo, eu não. Ou seja, não somos bem humanos da mesma forma.

Em 1973, um psicanalista francês, Jacques Lacan, previa a subida do racismo. Na época, antes das recentes ondas de imigração do Terceiro Mundo para a Europa, suas palavras pareciam estranhas: afinal, não estávamos no meio do luminoso caminho da tolerância? Hoje, obviamente, elas parecem proféticas. E as pretensas desculpas pelo passado escravagista parecem ser mais uma inquietante confirmação do pressentimento de Lacan.

22 março 2007

"My Fair Lady"

O amor é prepotente: sempre acreditamos poder transformar e corrigir o objeto amado

NA SEMANA retrasada, estreou a nova versão brasileira de "My Fair Lady", no Teatro Alfa, em São Paulo. Jorge Takla, realizador e diretor, produziu um espetáculo encantador. A nova tradução, de Cláudio Botelho, é ótima; Amanda Acosta, como Eliza Doolittle, é adorável. O elenco, os cenários, a coreografia, as vozes, tudo é impecável.

Ao longo de minha vida, assisti a três produções de "My Fair Lady", (duas americanas e uma italiana) e, duas vezes, ao filme musical homônimo, que ganhou oito Oscars, em 1962. Também assisti à peça de Bernard Shaw, "Pigmalião" (na qual o musical é baseado), e ao filme "Pigmalião", de 1938 (que é a versão cinematográfica da peça). Em suma, a história de "My Fair Lady" me é bastante familiar, mas, a cada vez, ela me "pega". Por que será?

Certo, a música de F. Loewe é maravilhosa (algumas melodias integram meu módico repertório de chuveiro). Mas não é só isso: "My Fair Lady" é um clássico, que encena fantasias que habitam a mente de todos nós.

A história é conhecida: o professor Higgins encontra uma pobre vendedora de flores, estigmatizada por suas maneiras, sua gramática e sua pronúncia. Ele aposta que a transformará em uma "lady" com um curso intensivo de poucos meses. O mesmo professor, celibatário rabugento, aproveitará o curso para aprender algo sobre sentimentos.

Como nota Jorge Takla no programa do espetáculo, "My Fair Lady" é uma "Cinderela" em que acontece uma troca extraordinária entre um homem e uma mulher, cada um transformando o outro.

Voltemos ao mito que inspirou Bernard Shaw. Pigmalião era um escultor que se apaixonou perdidamente pela figura feminina que ele mesmo tinha esculpido. Afrodite ouviu suas súplicas e deu vida à estátua. Não se sabe se Pigmalião ficou feliz com essa dádiva ou se, ao longo do tempo, ele lamentou a época em que sua amada não tinha vida própria. Detalhe inquietante: Pigmalião criou a estátua e se apaixonou por ela porque desgostava das mulheres reais, que lhe pareciam indecentes (animadas por desejos autônomos).

A psicologia clínica usa o termo "pigmalionismo" para designar 1) a conduta erótica, um pouco estranha, de quem se apaixona por estátuas e as deseja; 2) num sentido mais amplo, a paixão pedagógica e erótica do sujeito que sonha com um objeto de amor e desejo que ele mesmo moldaria.

A psicologia experimental, nas últimas décadas, confirmou e debateu o "efeito Pigmalião": quando os professores esperam um grande progresso de seus alunos, os alunos progridem duas vezes mais rápido. O desempenho do aluno é proporcional às expectativas do professor.
Aos 20 anos, leitor assíduo de Ronald Laing e devoto da antipsiquiatria italiana, eu devaneava que, um dia, encontraria uma jovem esquizofrênica e catatônica: pela mágica de meus cuidados, eu lhe devolveria a fala e a vida. No processo, eu me apaixonaria por ela, e ela por mim; viveríamos felizes para sempre. Portanto, confesso: já fui pigmalionista e já apostei na força curativa do "efeito Pigmalião".

Mas a história de Pigmalião não se aplica apenas em casos de extremismo pedagógico e terapêutico. Qualquer um de nós desejou e deseja transformar o objeto amado. O amor é prepotente: idealizamos o outro e acreditamos firme que ele ou ela se emendarão. Somos convencidos de que o outro amado carrega todas as qualidades que nossa paixão lhe atribui: elas estão escondidas, atrás de uma "deformação" que será corrigida pela virtude de nosso amor.

Com isso, o amor desafia diferenças extremas, étnicas, culturais, religiosas e sociais. Um amigo carioca, aliás, me disse uma vez, brincando, que, se não tivéssemos uma fé desmedida no poder transformador do amor, se fôssemos "sensatos", homem só casaria com homem, e mulher com mulher.

Resta que, quando escolhemos nossa parceira ou nosso parceiro apesar de diferenças que nos incomodam e confiantes nas mudanças que virão, as chances de durar são pequenas. E grandes são as chances de que a vida em comum vire, rapidamente, um inferno. Mas é uma constatação que não inspira ninguém: o amor pensa o contrário, e esse é o mito de "My Fair Lady".

A peça de Bernard Shaw termina "mal" (Eliza não casa com o professor Higgins). "My Fair Lady", aparentemente, termina bem. Mas considere a última cena e, honestamente, pergunte-se: "Como essa história vai acabar?"

15 março 2007

Fama e narcisismo

Em uma "sociedade narcisista", a invisibilidade é mais intolerável que a prisão

NA CONVERSA leiga, "Fulano é narcisista" significa que ele adora se ver no espelho e nunca pensa nos outros.

Na clínica, o sentido da expressão é diferente: o traço dominante da "personalidade narcisista" é a insegurança. Narcisista é quem está sempre se questionando: "O que os outros enxergam em mim? Será que gostam do que vêem?".

Em ambos os casos, o narcisista se preocupa com sua imagem. Mas, na conversa leiga, ele seria apaixonado por ela (como o Narciso do mito), enquanto, segundo a clínica, ele seria dramaticamente atormentado pelo sentimento de que sua imagem depende do olhar dos outros.
De fato, a clínica tem razão: no espelho, enxergamos sempre e apenas o que os outros vêem (ou o que imaginamos que eles vejam). O mesmo mal-entendido aparece quando a gente constata que vive numa "sociedade narcisista".

Na conversa leiga, essa constatação soa como uma queixa moral: estaríamos vivendo no mundo do "cada um por si". A clínica sugere o contrário: numa sociedade narcisista, cada um depende excessivamente dos outros. Somos desprovidos de essência: sou filho SE meus pais me amam, sou pai SE meus filhos gostam de mim, sou psicanalista SE pacientes e colegas me reconhecem, sou colunista SE você agüentou ler até aqui. O espelho que nos define não é o de Narciso, é o da bruxa de Branca de Neve, um espelho que interrogamos, ansiosos.

Ora, recentemente, assisti, fascinado, ao processo de seleção da sexta temporada do programa "American Idol" (no canal Sony). É um programa parecido com "Fama", da Globo de dois ou três anos atrás, e com "Ídolos", do SBT. Trata-se de descobrir novos cantores e cantoras.

O vencedor é eleito pelo público da TV, mas o que me cativou foi a longa fase inicial, em que os finalistas são selecionados por um júri, entre milhares de jovens concorrentes.

Todos os candidatos parecem entusiasticamente certos de que serão o futuro ídolo, mas a audição da grandíssima maioria é propriamente constrangedora.

No mesmo canal, há outro programa parecido: "American Inventor", em que desfilam inventores convencidos de que seu achado mudará o mundo, mesmo que se trate da máquina acariciadora de cachorro para dono preguiçoso (uma das invenções propostas).

O que leva milhares de sujeitos a encarar uma espécie de humilhação pública? Será que eles são narcisistas à moda da conversa leiga, enamorados de si mesmos a ponto de perder toda autocrítica? Por algum milagre do amor materno, eles guardariam uma imagem de si positiva e imperturbável: "Deixe o mundo falar, pois eu fui, sou e sempre serei o ídolo da minha mãe" (alguns concorrentes, aliás, compareciam acompanhados por uma mãe embevecida).

É possível. Mas, nas palavras de muitos candidatos entrevistados, aparecia outra coisa: uma vontade dolorosa de despertar um olhar de reconhecimento não só no público, mas nos seus familiares, ausentes e indiferentes. Era como se eles estivessem dispostos a qualquer coisa para deixar, enfim, de ser invisíveis: "Riam de mim, mas ao menos me vejam". Pode parecer paradoxal que alguém tente chamar a atenção (do pai, da mãe, da irmã e do mundo) expondo-se ao ridículo e ao fracasso.

Mas, aparentemente, acontece que escárnio e zombaria são um preço aceitável por um (triste) momento de fama.

Uma analogia talvez nos ajude a entender. As estatísticas dizem que há mais jovens que adultos delinqüentes. Justificação tradicional (além da "testosterona" da adolescência): os jovens andam em grupo.

Portanto, é freqüente, no caso deles, que haja mais de um réu por crime.

Certo. Mas também tudo indica que os jovens delinqüentes são presos mais facilmente que os adultos. Não é imperícia: parece que, de uma certa forma, eles se deixam prender, como se seu gesto transgressor tivesse como finalidade última o encontro com a polícia e o juiz. Por quê?
Para a dramática insegurança do narcisismo (aqui no sentido clínico), uma condenação ou um fracasso humilhante apresentam uma vantagem parecida: ambos são preferíveis ao silêncio do outro. Num mundo em que a gente só existe pelo olhar alheio, a invisibilidade é mais intolerável do que o escárnio ou a prisão.

PS.: Na semana retrasada, comentei o filme "Pecados Íntimos". Li, nestes dias, o livro no qual ele se inspira, "Criancinhas", de Tom Perrotta (Objetiva): é tão tocante e forte quanto o filme, se não mais.

08 março 2007

Mistérios de dentro ou de fora

Desde quando o interior de nosso corpo revelaria os mistérios de nossa própria existência?

NA SEMANA passada, duas exposições estrearam na Oca do Parque do Ibirapuera, em São Paulo: "Corpo Humano" e "Leonardo da Vinci". O ideal seria visitá-las no mesmo dia (apesar das filas e do preço).

"Corpo Humano" apresenta 16 corpos esfolados e dissecados (e 225 órgãos internos). A exposição suscitou, pelo mundo afora, um enorme interesse de público e algumas críticas. Por exemplo, foi levantada a suspeita de que os corpos sejam cadáveres de indivíduos executados pela Justiça chinesa.

Seja como for, Roy Glover (o promotor desse circo anatômico ambulante) propõe um extraordinário espetáculo científico-educativo: enfim, podemos ver como somos por dentro. Diz a sinopse: "É uma oportunidade única para o público em geral explorar os mistérios de sua própria existência".

Pergunta: desde quando acreditamos que ver de perto o interior de nosso corpo seja um jeito de conhecer os mistérios de nossa existência? Não faz muito tempo.

Foi em algum momento do século 17 que nossa curiosidade científica e existencial começou a procurar respostas sobretudo no que está dentro das coisas e no invisível, no infinitamente pequeno (que podemos magnificar) ou no longínquo (que podemos aproximar e tornar visível). É nessa época que inventamos telescópio e microscópio. Desde então, descobrimos células, bactérias, vírus, circulação do sangue etc., assim como moléculas, átomos, cometas, satélites, buracos negros e por aí vai.

O cientista (que, geralmente, tem pouca consideração pela história da ciência) dirá que a ciência se engajou na direção do dentro e do perto, tornando visível o invisível, porque é assim que ela conseguiu entender melhor o mundo e transformá-lo no interesse de todos.
Mas, na verdade, a escolha pelo dentro e pelo perto não se deu na procura da eficácia técnica (que, aliás, no começo, era imprevisível).

Nossa cultura foi procurar a solução dos mistérios no que está escondido dentro dos indivíduos e dos objetos porque o conjunto do mundo visível tinha perdido seu sentido. A ciência se enveredou por um caminho forçado, imposto por um luto: éramos órfãos do sentimento de uma harmonia do Cosmo.

Se tivéssemos podido escolher o grande angular em vez do telescópio e do microscópio, se tivéssemos podido olhar para o conjunto e não sobretudo ou apenas para os elementos, teríamos produzido outra ciência (menos eficiente? Não há como saber). Agora é tarde: se, na noite de sábado passado, seu filho ficou doente, você, em princípio, preferiu pedir um exame de sangue a interrogar os efeitos do eclipse da Lua. Hoje, podemos "brincar" de astrólogos, mas nossa confiança num Universo harmônico, em que tudo estaria interligado, é abalada, duvidosa.
Os cadáveres de Roy Glover revelam alguns mistérios da existência nos mostrando o que é normalmente invisível, o interior do corpo. Mas há outros mistérios, perdidos: quem foram eles? Quem os amou, quem eles amaram, quem foram seus pais, qual conjuntura da família, do vilarejo, do mundo e dos astros acompanhou sua vida?

É o custo de nosso caminho forçado: nossa ciência gagueja quando se trata de entender o conjunto. Mapeamos o DNA e logo conheceremos cada proteína no sangue; em comparação, o que conseguimos entender das relações humanas e de nosso lugar no mundo é risível: conjeturas, interpretações nas quais a ciência compete com a fantasia.

Houve um momento de transição, mágico e esplendoroso, em que pareceu possível conciliar os inconciliáveis, ou seja, olhar para dentro, para o invisível, sem deixar de apostar numa suprema harmonia do mundo visível. Nesse momento, que é a Renascença, foi possível dissecar cadáveres e começar a construir ciência e técnicas eficientes sem abandonar a idéia de um Universo ordenado.

Na exposição de Leonardo, há desenhos anatômicos (resultado de dissecação) e há máquinas sofisticadas, mas, no centro, está o Homem Vitruviano com seu corpo perfeitamente inscrito num círculo. Leonardo podia explorar nossas entranhas sem deixar de acreditar na relação do corpo com o universo: a anatomia humana era, para ele, um microcosmo que refletia o macrocosmo.

Como seria o mundo de hoje se, por exemplo, medíssemos as distâncias não pelo metro (estabelecido arbitrariamente no século 18), mas pelo tamanho médio da envergadura de nossos braços?

01 março 2007

"Pecados Íntimos"


O filme, tocante e verdadeiro, é sobre como nosso desejo encalha e se solta

"PECADOS ÍNTIMOS", de Todd Field, estreou no dia 9 de fevereiro. Parecia ser mais um filme sobre a vida nos subúrbios americanos de classe média, tipo "Beleza Americana" (vencedor do Oscar em 2000), e fiquei com preguiça. Sempre acho um pouco fácil satirizar uma maneira de viver, como se o jeito da gente fosse o certo: "Aponto o vazio na vida dos outros para me convencer de que a minha é autêntica e plena".

Vários leitores me escreveram estranhando que não comentasse o filme. Graças a eles, assisti, enfim, a "Pecados Íntimos", que NÃO é um filme sobre a vida nos subúrbios americanos (a não ser que você considere que "Hamlet" é uma peça sobre a vida na corte da Dinamarca durante a Idade Média).

"Pecados Íntimos" é um filme tocante e verdadeiro sobre os caminhos forçados de nosso desejo e sobre como ele encalha (quase sempre) e se solta (aos trancos).
Quando ensinava "Cultural Studies" na New School, começava dizendo a meus estudantes que eles eram livres para tirar todas as notas

A que quisessem, mas, para entender a subjetividade moderna, eles teriam que passar por três letras B: Brummel, Byron e Bovary. Não era só uma piada de professor: as três figuras em questão, afinal, falam todas de nossa impossibilidade de conseguir, na vida, a nota máxima.
Um B já é de bom tamanho. Brummel (o primeiro dandy, no fim do século 18) lembra que a nobreza não é efeito do berço em que a gente nasce; ela é fruto da "elegância" (não tanto das maneiras e da roupa, mas do espírito). O hábito, na modernidade, faz o monge, e somos livres para escolhê-lo. Mas essa liberdade tem um custo: o desconforto de apenas parecer o que somos e, claro, a aflição de parecer o que não somos ou não queremos ser. O hábito faz e aprisiona o monge.
Byron (o poeta romântico) lembra que, na vida moderna, o que importa é a intensidade e a variedade de experiências. A fome de viver e o anseio de aventuras levam alguns a lutar pela independência da Grécia, a pular de skate quando mal sabem andar ou a perder-se nas sarjetas do mundo. E nos levam a sonhar com o que não ousamos empreender.

Emma Bovary (a heroína do romance de Flaubert) lembra que o amor é o grande operador moderno da mudança. Descobrimos que podíamos inventar nossa vida quando começamos a casar por amor (e não para preservar a casta, a família e o patrimônio). Portanto, esperamos do amor que ele nos transforme e nos leve para uma "outra" vida (e toda vida tem uma "outra" vida com a qual sonhar).
Numa cena de "Pecados Íntimos", "Madame Bovary" é comentado por um grupo de mulheres. Elas descobrem (a contragosto) que são todas, de um jeito ou de outro, Emma Bovary: inconformadas com sua vida e desejosas de um amor que as salve.

Mas "Pecados Íntimos" é mais que uma adaptação de "Madame Bovary": é um pequeno "tratado" da subjetividade moderna. Até porque, justamente, Emma Bovary sentia que ela era muito mais do que parecia pela "rotina" de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura. Ou seja, os três "B" estão sempre juntos, dentro da gente.

Além disso, é difícil sair do cinema sem se perguntar por qual mistério somos condescendentes com nossas impulsões (o pedófilo e a protagonista não são os únicos que não sabem resistir às tentações) e, ao mesmo tempo, inertes quando se trata de mudar de vida. O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida.

A incapacidade de mudar, aliás, é o grande tema do filme. Há a mãe do pedófilo, que espera que o filho se torne "normal", mas, olhe só, coleciona estatuetas de meninos. Há a mulher que não quer perder o marido, mas enfia o filho no meio da cama e vigia a vida do esposo como uma mãe. Há a mulher que morre de tédio e transa com o marido toda terça às 19h30, embora sonhe em conseguir o telefone de um bonitão.

Há o homem que cansou de ser babá do filho, mas, quando se trata de estudar para o exame da Ordem, passa as noites à toa.

O título original do filme é "Little Children" (criancinhas). Em matéria de desejo, somos todos criancinhas, incapazes de encontrar a coragem de fazer o que desejamos, mas sempre (e apenas) tentados por potes de geléia.

22 fevereiro 2007

Raciocínios "motivados"



Qual deveria ser a função principal dos auxiliares de nossos representantes eleitos?

É BANAL reconhecer que mesmo nossos pensamentos mais racionais são parasitados por afetos e emoções. Ou seja, uma boa parte de nossos raciocínios são, de fato, "wishful thinking", meditações motivadas pelo desejo.

Em 2002, aliás, um psicólogo, Daniel Kahneman, ganhou o Prêmio Nobel de Economia por trabalhos que mostram como os agentes econômicos (investidores, consumidores etc.) acreditam obedecer, em suas escolhas, a critérios racionais (utilidade, lucro, interesse), mas, de fato, são levados por emoções que eles desconhecem e que os impedem de calcular corretamente os riscos de seus atos.

Outros pesquisadores chegaram mil vezes a conclusões parecidas analisando pensamentos políticos, nos quais a racionalidade é seriamente ameaçada por afetos e emoções. Isso, claro, sem que o sujeito pensante se dê conta da interferência.

Recentemente, o "Journal of Cognitive Neuroscience" (revista de neurociência cognitiva, 18:11, 2006) publicou uma pesquisa, de Drew Westen e outros, que, pela primeira vez, comprova "materialmente" o peso das motivações afetivas e emocionais em nossos pensamentos.
Os sujeitos da amostra deviam julgar, por exemplo, uma explicação fornecida por um político. Enquanto decidiam se a explicação lhes parecia plausível ou não, seu funcionamento cerebral era monitorado por ressonância magnética.

Embora os sujeitos jurassem que eles estavam decidindo fria e racionalmente, suas escolhas implicavam uma intensa atividade de zonas cerebrais classicamente envolvidas na regulação afetiva, na defesa psicológica e no "viés de confirmação".

O "viés de confirmação" é um funcionamento psíquico freqüente (e catastrófico) no diagnóstico médico, no discurso político e nas brigas de casais. Ele consiste no seguinte: o sujeito procura ativa e seletivamente (embora de maneira inconsciente) dados que confirmem sua hipótese ou o seu preconceito iniciais. O prazer de ter razão prevalece sobre argumentos e informações, produzindo cegueiras.

Com a pesquisa de Westen, as neurociências afirmam algo que a psicologia (social e clínica) sabe há tempo: nosso raciocínio é influenciado por afetos implícitos que nos levam a "minimizar estados afetivos negativos e potencializar estados afetivos positivos". A gente pensa e escolhe não no interesse da verdade, mas para sentir-se bem. O próprio Westen reconhece sua dívida mais antiga: "Freud descobriu esses processos há décadas, usando o termo "defesa" para descrever os processos pelos quais as pessoas adaptam seus resultados cognitivos de maneira a evitar sentimentos desagradáveis como angústia e culpa".

O que fazer com isso? É possível desistir da verdade, considerando que o mundo é um vasto teatro em que as subjetividades se enfrentam e que o que importa é apenas a versão de quem ganha a luta (retórica ou armada).

Ou, então, talvez seja possível amparar a verdade, preservá-la de nossas próprias motivações. Podemos, por exemplo, desconfiar de nossas idéias, sobretudo quando nos sentimos particularmente satisfeitos com o entendimento da realidade que elas nos proporcionam. Pois a verdade (com o curso de ação que, eventualmente, ela "impõe") é geralmente pouco gratificante e de acesso trabalhoso.

Um exemplo. Nossos deputados não precisam ter uma competência específica: o essencial, em princípio, é que sejam dignos de nossa confiança. Imaginemos que sejam. O orçamento prevê que cada deputado disponha de 25 auxiliares.

Sem dúvida, os eleitos precisam de secretários, motoristas e mesmo de marqueteiros, mas, antes de mais nada, para poder legislar, eles precisam de dados e informações corretas. A arte de um legislador eficaz está na sua capacidade de apreender a realidade para tentar melhorá-la, não na qualidade retórica que é a praga habitual do discurso político (geralmente animado por vontade de seduzir e viés de confirmação).

Portanto, um deputado deveria dispor de pesquisadores qualificados (por exemplo, jovens mestres e doutores das áreas jurídica, socioeconômica e científica), capazes de encontrar rapidamente, sobre cada assunto debatido, a literatura essencial e de resumi-la, traduzi-la e apresentá-la de maneira que o representante vote conhecendo (de verdade) a questão em pauta.

Pergunta: quantos dos auxiliares de nossos representantes respondem a esse critério básico?

15 fevereiro 2007

Maioridade penal e hipocrisia


Nossa alma "generosa" dorme melhor com a idéia de que a prisão é reeducativa

UM ADOLESCENTE de 16 anos fazia parte da quadrilha que arrastou o corpo de João Hélio, 6 anos, pelas ruas do Rio.

A cada vez que um menor comete um crime repugnante (homicídio, estupro, latrocínio), volta o debate sobre a maioridade penal.

Em geral, o essencial é dito e repetido. E não acontece nada. Aos poucos, o horror do crime é esquecido. Não é por preguiça, é por hipocrisia. Preferimos deixar para lá, até a próxima, covardemente, porque custamos a contrariar alguns lugares-comuns de nossa maneira de pensar. 1) A prisão é uma instituição hipócrita desde sua invenção moderna.

Ela protege o cidadão, evitando que os lobos circulem pelas ruas, e pune o criminoso, constrangendo seu corpo. Mas nossa alma "generosa" dorme melhor com a idéia de que a prisão é um empreendimento reeducativo, no qual a sociedade emenda suas ovelhas desgarradas.

A versão nacional dessa hipocrisia diz que a reeducação falha porque nosso sistema carcerário é brutal e inadequado. Essa caracterização é exata, mas qualquer pesquisa, pelo mundo afora, reconhece que mesmo o melhor sistema carcerário só consegue "recuperar" (eventualmente) os criminosos responsáveis por crimes não-hediondos. Quanto aos outros, a prisão serve para punir o réu e proteger a sociedade.

Essa constatação frustra as ambições do poder moderno, que (como mostrou Michel Foucault em "Vigiar e Punir") aposta na capacidade de educar e reeducar os espíritos. A idéia de apenas segregar os criminosos nos repugna porque diz que somos incapazes de convertê-los.

Detalhe: Foucault denunciou (com razão) a instituição carcerária, mas, na hora de propor alternativas (conferência de Montreal, em 1975), sua contribuição era balbuciante.

2) Em geral, para evitarmos admitir que a prisão serve para punir e proteger a sociedade (e não para educar), muda-se o foco da atenção: "Esqueça a prisão, pense nas causas". Preferimos, em suma, a má consciência pela desigualdade social à má consciência por punir e segregar os criminosos. Ora, a miséria pode ser a causa de crimes leves contra o patrimônio, mas o psicopata, que estupra e mata para roubar, não é fruto da dureza de sua vida.

Por exemplo, no último número da "Revista de Psiquiatria Clínica" (vol. 33, 2006), uma pesquisa de Schmitt, Pinto, Gomes, Quevedo e Stein mostra que "adolescentes infratores graves (autores de homicídio, estupro e latrocínio) possuem personalidade psicopática e risco aumentado de reincidência criminal, mas não apresentam maior prevalência de história de abuso na infância do que outros adolescentes infratores".

3) A má consciência por punir e segregar é especialmente ativa quando se trata de menores criminosos, pois, com crianças e adolescentes, temos uma ambição ortopédica desmedida: queremos acreditar que podemos educá-los e reeducá-los, sempre -e rapidamente, viu?
No fim de 2003, outra quadrilha, liderada por um adolescente, massacrou dois jovens, Liana e Felipe, que passavam o fim de semana numa barraca, no Embu-Guaçu. Depois desse crime, na mesma "Revista de Psiquiatria Clínica" (vol. 31, 2004), Jorge Wohney Ferreira Amaro publicou uma crítica fundamentada e radical do Estatuto da Criança e do Adolescente. Resumindo suas conclusões:

Ou o menor é consciente de seu ato, e, portanto, imputável como um adulto;
Ou seu desenvolvimento é incompleto, e, nesse caso, nada garante que ele se complete num máximo de três anos;

Ou, então, o jovem sofre de um Transtorno da Personalidade Anti-Social (psicopatia), cuja cura (quando acontece) exige raramente menos de uma década de esforços.

Em suma, a maioridade penal poderia ser reduzida para 16 ou 14 anos, mas não é isso que realmente importa. A hipocrisia está no artigo 121 do Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo o qual, para um menor, "em nenhuma hipótese, o período máximo de internação excederá a três anos".

Ora, a decência, o bom senso e a coerência pedem que uma comissão, um juiz especializado ou mesmo um júri popular decidam, antes de mais nada, se o menor acusado deve ser julgado como adulto ou não. Caso ele seja reconhecido como menor ou como portador de um transtorno da personalidade, o jovem só deveria ser devolvido à sociedade uma vez "completado" seu desenvolvimento ou sua cura -que isso leve três anos, ou dez, ou 50.


ccalligari@uol.com.br

08 fevereiro 2007

O futuro da humanidade

O aquecimento global revela que a ação coletiva é difícil em nossa cultura

A ONU criou um órgão para determinar se está (ou não) acontecendo uma mudança climática global e, se esse for o caso, para explicar sua origem e propor um curso de ação. Na semana passada, esse órgão divulgou um relatório.

Tudo indica que há um aquecimento progressivo do planeta e que esse fenômeno é causado pelo homem. Nossos filhos e netos já conhecerão seus efeitos devastadores: a subida do nível do mar ameaçará nossas costas, e o desequilíbrio climático comprometerá os recursos básicos -em muitos lugares, faltará água e faltará comida.

Esse futuro, próximo e sinistro, não é inevitável: existem ações que podem estancar ou reverter o processo. Mas o acordo internacional e os atos são tímidos, se não nulos.
Claro, podemos nos indignar com os interesses nacionais e particulares que se esquecem da catástrofe que nos espreita para defender o lucro imediato. Mas a encruzilhada atual revela, antes de mais nada, um impasse fundamental da cultura dominante.

Primeiro, um aparte. Nossa espécie se distingue das outras porque se organiza numa grande variedade de culturas (nossos hábitos não são apenas o resultado de uma programação biológica). Essa plasticidade talvez seja a razão da duração e da expansão de nossa espécie. A cultura ocidental, hoje dominante, é particularmente plástica (apta a se transformar). Mesmo assim, é possível que, desta vez, ela não consiga se adaptar de modo a permitir a sobrevivência da espécie. Talvez a fórmula cultural que fez nosso "sucesso" até aqui seja, amanhã, a razão de nosso sumiço. Como assim?

Os humanos (sobretudo na modernidade) prosperaram num projeto de exploração e domínio da natureza cujo custo é hoje cobrado. Para corrigir esse projeto, atenuar suas conseqüências e sobreviver, deveríamos agir coletivamente. Ora, acontece que nossa espécie parece incapaz de ações coletivas. À primeira vista, isso é paradoxal.

Progressivamente, ao longo dos séculos, chegamos a perceber qualquer homem como semelhante, por diferente de nós que ele seja. Infelizmente, reconhecer a espécie como grupo ao qual pertencemos (sentir solidariedade com todos os humanos) não implica que sejamos capazes de uma ação coletiva.

Na base de nossa cultura está a idéia de que nosso destino individual é mais importante do que o destino dos grupos dos quais fazemos parte. Nosso individualismo, aliás, é a condição de nossa solidariedade: os outros são nossos semelhantes porque conseguimos enxergá-los como indivíduos, deixando de lado as diferenças entre os grupos aos quais cada um pertence. Provavelmente, trata-se de uma conseqüência do fundo cristão da cultura ocidental moderna: somos todos irmãos, mas a salvação (que é o que importa) decide-se um por um. Em suma, agir contra o interesse do indivíduo, mesmo que para o interesse do grupo, não é do nosso feitio.
Resumo do problema: hoje, nossa espécie precisa agir coletivamente, mas a própria cultura que, até agora, sustentou seu caminho torna esse tipo de ação difícil ou impossível.
Não sou totalmente pessimista.

Talvez nosso impasse atual seja a ocasião de uma renovação. Talvez saibamos inventar uma cultura que permita a ação coletiva da comunidade dos humanos que habitam o planeta Terra. Estou sonhando? Nem tanto.

Afinal, há bastante tempo, nossa cultura inventa histórias que nos instigam a agir em nome e no interesse da espécie. Centenas de romances e filmes (bons ou ruins, tanto faz) nos propõem inimigos comuns: grandes epidemias e extraterrestres de todo tipo. Outros filmes e romances promovem uma nova aliança dos humanos contra suas próprias invenções: a catástrofe atômica, as máquinas rebeldes e enlouquecidas. Já existem até filmes que contam a reação (tardia, claro) da espécie contra o próprio aquecimento global. E é banal, enfim, que nossas narrativas mostrem que, apesar da diferença dos indivíduos e da variedade cultural da espécie, nossos destinos são, sempre e propriamente, cruzados.

Os positivistas diziam que o clima faz o homem. Pois bem, quem sabe a mudança climática nos obrigue mesmo a transformar nossa cultura.

Para melhor. Última hora. Acabo de assistir ao filme-documentário de João Jardim, "Pro Dia Nascer Feliz". É uma visão terna, seca e justa de nossos adolescentes. Falando em preocupação com o futuro da humanidade, é um filme imperdível.

01 fevereiro 2007

Devaneios e mágicas

O PAC, bom ou ruim, não será "na veia"; será administrado por via oral ou cutânea

ANOS ATRÁS (e longe do Brasil), tentei ajudar um jovem cuja vida era devorada por um devaneio. Ele não se limitava a sonhar, de vez em quando, com o dia em que todas as mulheres o achariam bonito e o mundo inteiro conclamaria seus méritos: quando me consultou, já tinha preenchido dezenas de cadernos em que, por exemplo, detalhava planos de investimento para a imensa fortuna (que seria sua) e anotava os tópicos para os discursos de aceitação dos prêmios que lhe seriam conferidos (entre eles, o Nobel de Literatura).

O problema não era a hipertrofia do devaneio, mas a inércia que ele alimentava. O jovem não tomava iniciativa alguma que o aproximasse de seu sonho; apenas aperfeiçoava a descrição de seu futuro, esperando por um milagre que o realizasse. Ele encontraria, um dia, uma caixa com seis romances datilografados, os quais, publicados a intervalos bem orquestrados, venderiam milhões de exemplares pelo mundo afora.

Em outra versão, a caixa lhe seria entregue por um sábio japonês que morreria nos seus braços ou ainda por um extraterrestre.

A energia que ele dedicava a imaginar e planejar os leilões dos agentes literários, os lançamentos, os pedidos de adaptação cinematográfica etc. teria sido suficiente para escrever ao menos os primeiros dois ou três romances. Mas esse cálculo não vinha ao caso. Agir (colocar as mãos na massa e, quem sabe, fracassar) era fora de questão. Melhor viver no devaneio e na espera das mágicas.

Durante esta última semana, pensei repetidamente no meu jovem paciente. Pois me parece que todos nós (governo, políticos, comentadores e homens da rua) lidamos com o PAC (e com qualquer plano para o país) da mesma forma. Discutimos e elaboramos: há quem diga que o plano é perfeito, quem pense que é tímido, quem queira modificá-lo em benefício próprio ou de seus eleitores, quem ache que está totalmente errado. Tanto faz: elaboração e discussão são parecidas com os cadernos do jovem sonhador porque deixam de lado a questão "trivial" da realização. Como assim?

Para começar, sempre há uma inquietante desproporção entre os recursos alocados e os que chegam efetivamente à destinação. Ou seja, do valor de qualquer pacote, é preciso deduzir o custo da lentidão política, da corrupção, da incompetência técnica, da preguiça administrativa, da inércia burocrática e por aí vai.

Qual é, neste caso, o "custo Brasil"?

Acho simpático o otimismo de Dilma Rousseff, mas os famosos R$ 384 bilhões de dinheiro público não serão, como ela disse, administrados "na veia", ou seja, de maneira rápida e eficiente. A administração do remédio se dará provavelmente por via oral ou mesmo cutânea.

Podemos discutir para saber se estamos receitando a dose de antibiótico necessária para curar nossa pneumonia, mas, certamente, uma quantidade relevante de remédio ficará no frasco, uma parte maior será eliminada por uma digestão preguiçosa, outra parte não será assimilada, outra ainda será absorvida por anticorpos seculares e, enfim, alguns enfermeiros displicentes se esquecerão de administrar a pílula ou passar a pomada com um mínimo de regularidade.

Em outras palavras, promover ou discutir o PAC (ou qualquer plano) sem impor mudanças radicais de gestão (burocrática e administrativa - o que significa também fiscal e política) é, como no devanear de meu jovem paciente, um jeito de preencher cadernos com visões do futuro, guardando-se de agir. Nada de novo: Sérgio Buarque de Hollanda já explicou e estigmatizou a paixão nacional pela retórica.

Ora, as reformas administrativas pedem competência, grandes esforços e, provavelmente, medidas impopulares. É mais gratificante elaborar novos planos. E esperar a mágica: um extraterrestre ou um japonês misterioso resolverão o problema, quem sabe baixando drasticamente os juros ou desvalorizando a moeda. Alguém nos dará dinheiro barato, e investiremos brutalmente; alguém decidirá que o real vale quatro dólares, e venderemos qualquer coisa pelo mundo afora. Tudo isso sem que a gente tenha de se preocupar com a agilidade de nossa administração, com nossa produtividade ou com a competitividade, a qualidade e a unicidade de nossos produtos. Todas coisas chatas, que demandam um trabalho danado. Melhor ficar discutindo o PAC e esperando Godot.

Agora, se um presidente e um governo quisessem passar para a história...

25 janeiro 2007

Você quer mesmo ser feliz?

O imperativo de felicidade é enganoso, mas rege nossa organização social

CIRCULA, NOS meios acadêmicos ingleses e americanos, a expressão "happiness studies" (estudos da felicidade), calcada, por exemplo, em "women's studies" (estudos das mulheres). Talvez apareçam, em breve, departamentos universitários multidisciplinares de "estudos da felicidade".

Pois bem, no campo dos "estudos da felicidade", acabam de sair dois livros notáveis.

O primeiro, ainda não traduzido para o português, é "Happiness: A History" (felicidade, uma história), de Darrin McMahon (Atlantic Monthly). McMahon reconstrói as mudanças pelas quais passou nossa concepção de vida feliz: uma vida virtuosa, para os gregos antigos; prazerosa, para os romanos; merecedora do paraíso, para os cristãos etc.

Aliás, é sobretudo com os cristãos que a felicidade começa a se confundir com a promessa de uma vida melhor no futuro, após a morte.

Na modernidade, a definição do que nos faz felizes fica bastante incerta, mas, paradoxalmente, a exigência de sermos felizes (sem saber direito o que isso significa) torna-se irrenunciável. Esse imperativo enigmático é uma peça essencial de nossa organização social. Explico.
A felicidade é, hoje, uma aspiração obrigatória que, por sua indefinição, não pode ser satisfeita. Portanto, ela alimenta uma sede insaciável de objetos e prazeres. Essa sede sustenta nosso modo de produzir e consumir e nos leva a organizar nossas diferenças sociais segundo os "sonhos" que cada um conseguiu realizar (ou seja, pela inveja).

O outro livro é "Stumbling on Happiness" (tropeçando na felicidade), de Daniel Gilbert. Apesar da tradução portuguesa do título ("O que nos Faz Felizes", Campus), não se trata de um livro de receitas para sermos felizes, mas de uma explicação da dificuldade desse projeto.

Gilbert, evocando brilhantemente uma quantidade de pesquisas, mostra o seguinte: uma propriedade de nossa espécie é a capacidade de imaginar o futuro, mas, nessa tarefa, somos péssimos. Por isso, a felicidade desejada e alcançada nunca é bem o que a gente queria.

Para Gilbert, o problema é cognitivo: o futuro com o qual sonhamos não nos outorga a felicidade esperada porque não sabemos prevê-lo corretamente.

Aparte: de fato, há outras razões para que o futuro nunca chegue ou, ao chegar, seja decepcionante. Por exemplo, como lembra o título de um livro de Jorge Forbes ("Você Quer o que Deseja?"), nem sempre queremos efetivamente o que desejamos e planejamos.
Num capítulo de seu livro, Gilbert recorre a uma metáfora genética.

Um "super-replicador" é um gene que se replica com sucesso porque ele leva seu portador a transmitir ativamente seus genes. Exemplo: imaginemos que exista um gene do prazer no orgasmo. Mesmo que esse gene não seja necessário para a reprodução (que pode acontecer sem prazer) e mesmo que ele seja associado com uma série de traços ruins (doenças ameaçadoras), ele se replicará porque leva seus portadores a praticar mais sexo do que os outros (aumentando as chances de transmissão).

Gilbert aplica esse princípio às crenças: há crenças falsas que se propagam e se transmitem porque sustentam sociedades estáveis, e uma sociedade estável é o ambiente ideal para a propagação de crenças (falsas ou verdadeiras). No caso, nossa concepção da felicidade se parece muito com uma crença falsa super-replicada, ou seja, uma crença que se propaga porque, apesar de ser falsa, ela é uma condição de nossa coesão social (e a coesão social facilita a propagação das crenças). Em suma, o imperativo de felicidade é enganoso, mas rege nossa sociedade; portanto, ele só pode se reproduzir.

Uma nota. Gilbert parte do pressuposto que faz funcionar nossa sociedade: a felicidade depende da realização de um futuro que desejamos e imaginamos.

Uma outra concepção da felicidade (a minha preferida) diz que ela depende da qualidade da experiência presente, e não da realização de nossos projetos. Talvez essa seja uma concepção nostálgica de um momento qualquer na história reconstruída por McMahon.

Ou talvez seja uma concepção nova, que vem se afirmando devagar, de Nietzsche até a contracultura dos anos 60 e 70 (o próprio Gilbert se lembra do livro, meio delirante, de Ram Dass, que se intitulava "Be Here Now" -esteja aqui agora). Seja como for, neste começo de 2007, fico com aquele ditado chinês: que todos possamos viver um ano não "feliz", mas interessante.

18 janeiro 2007

Para que servem as ficções?

A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim

ESTÁ EM cartaz "Mais Estranho que a Ficção", de Marc Forster (com um extraordinário roteiro de Zach Helm). Se você lê romances e contos, se freqüenta cinemas e teatros, se, em suma, a ficção tem alguma relevância na sua vida, não perca o filme.

É a história (engraçada e terna) de um auditor de impostos que, de repente, começa a ouvir a voz misteriosa de uma narradora: sua vida, aparentemente insignificante, é o tema de um romance, do qual ele é, obviamente, o protagonista.

Saí do cinema pensando no lugar que as ficções ocuparam e ocupam na minha vida.

Cresci numa família em que ler romances e assistir a filmes, ou seja, mergulhar em ficções, não era considerado uma perda de tempo. Podia atrasar os deveres ou sacrificar o sono para acabar um capítulo, e não era preciso me trancar no banheiro nem ler à luz de uma lanterna.

Meus pais, eventualmente, pediam que organizasse melhor meu horário, mas deixavam claro que meu interesse pelas ficções era uma parte crucial (e aprovada) de minha "formação". Eles sequer exigiam que as ditas ficções fossem edificantes ou tivessem um valor cultural estabelecido. Um policial e um Dostoiévski eram tratados com a mesma deferência.

Quando foi minha vez de ser pai, agi da mesma forma. Por quê?

Existe a idéia (comum) segundo a qual a ficção é uma "escola de vida": ela nos apresenta a diversidade do mundo e constitui um repertório do possível. Alguém dirá: o mesmo não aconteceria com uma série de bons documentários ou ensaios etnográficos? Certo, documentários e ensaios ampliam nosso horizonte. Mas a ficção opera uma mágica suplementar.

Tome, por exemplo, "O Caçador de Pipas", de Khaled Hosseini. A leitura nos faz conhecer a particularidade do Afeganistão, mas o que torna o romance irresistível é a história singular de Amir, o protagonista. Amir, afastado de nós pelas particularidades de seu grupo, revela-se igual a nós pela singularidade de sua experiência. A vida dos afegãos pode ser objeto de um documentário, que, sem dúvida, será instrutivo. Mas a história fictícia "daquele" afegão o torna meu semelhante e meu irmão.

Esta é a mágica da ficção: no meio das diferenças particulares entre grupos, ela inventa experiências singulares que revelam a humanidade que é comum a todos, protagonistas e leitores. A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim.

Há uma outra idéia, menos comum, segundo a qual a vida da gente pode (e talvez deva) ser vivida como uma narração. Não tanto para que ela se transforme num roteiro mirabolante, mas para que nosso cotidiano (por humilde e banal que seja) assuma uma relevância e uma intensidade que o tornem digno de ser vivido. Não fica claro? Faça a experiência: passe três horas de seu dia acompanhando suas ações de sempre, seus pensamentos, seus encontros e suas rotinas com uma narração mental detalhada, como se você fosse o protagonista de um romance que está sendo escrito enquanto você age. Que o resultado seja um atormentado monólogo interior ou uma seca descrição, de qualquer forma, seu mundo (externo e interno) será transformado.

Se você prolongar a experiência (redigindo um diário, em forma de blog ou num caderno, pouco importa), a narração passará a comandar sua vida: aos poucos, suas escolhas serão decididas em função do texto que você está escrevendo. Critérios estéticos ("como fica isso na história?") acabarão se misturando com os critérios éticos pelos quais, até então, você se norteava.

"Viva sua vida como se ela fosse o objeto de um romance" é um imperativo moral estranho e eficiente, embora nem sempre seguro (e às vezes, aliás, francamente perigoso). Num momento do filme de Marc Forster, o protagonista aceita que a narradora escreva sua morte (e o condene, portanto, a morrer), pois esse parece ser, naquela altura, o desfecho adequado da história. Essa atitude do protagonista leva a escritora a observar que, na verdade, a gente deveria preservar a vida de um homem que é capaz de aceitar a morte para que sua história possa ser contada da melhor maneira possível. É um pequeno paradoxo (ético ou estético, difícil dizer) que merece reflexão.

Enfim, se perpetuei e transmiti o respeito de meus pais pelas ficções é porque elas me parecem ser a maior e melhor fonte não de nossas normas morais, mas de nosso pensamento moral.

11 janeiro 2007

Os sonhos dos adolescentes

Por que os adolescentes sonham com um futuro acomodado e razoável, que nem a nossa vida?

NA FOLHA de domingo passado, uma reportagem de Antônio Gois e Luciana Constantino trouxe os dados de uma pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais: em 2005, 16% dos adolescentes entre 15 e 17 anos de idade não freqüentaram a escola. Trata-se de 1,7 milhão de jovens. Alguns desistiram por falta de meios, de vaga ou de transporte escolar, outros adoeceram, mas, em sua maioria (40,4%), eles abandonaram os estudos por falta de interesse. Como disse uma entrevistada, "os professores eram muito chatos".
Os comentadores, na própria reportagem, acusam a pouca qualificação ou motivação de muitos professores e um sistema de avaliação que produz repetências. Concordo, mas talvez haja mais.
Ao longo de 30 anos de clínica, encontrei várias gerações de adolescentes (a maioria, mas não todos, de classe média) e, se tivesse que comparar os jovens de hoje com os de dez ou 20 anos atrás, resumiria assim: eles sonham pequeno.

É curioso, pois, pelo exemplo de pais, parentes e vizinhos, os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram, sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis.

Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-adolescentes de hoje têm devaneios sobre seu futuro muito parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia-a-dia que, para nós, adultos, não é sonho algum, mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações.

Um exemplo. Todos os jovens sabem que Greenpeace é uma ONG que pratica ações duras e aventurosas em defesa do meio ambiente. Alguns acham muito legal assistir, no noticiário, à intrépida abordagem de um baleeiro por um barco inflável de ativistas. Mas, entre eles, não encontro ninguém (nem de 12 ou 13 anos) que sonhe em ser militante do Greenpeace. Os mais entusiastas se propõem a estudar oceanografia ou veterinária, mas é para ser professor, funcionário ou profissional liberal. Eles são "razoáveis": seu sonho é um ajuste entre suas aspirações heróico-ecológicas e as "necessidades" concretas (segurança do emprego, plano de saúde e aposentadoria).

Alguém dirá: melhor lidar com adolescentes tranqüilos do que com rebeldes sem causa, não é? Pode ser, mas, seja qual for a qualidade dos professores, a escola desperta interesse quando carrega consigo uma promessa de futuro: estudem para ter uma vida mais próxima de seus sonhos.

Aparte: por isso, aliás, é bom que a escola não responda apenas à "dura realidade" do mercado de trabalho, mas também (talvez, sobretudo) aos devaneios de seus estudantes; sem isso, qual seria sua promessa? "Estude para se conformar"?

Conseqüência: a escola é sempre desinteressante para quem pára de sonhar.

Em princípio, os jovens interpretam o desejo (inconsciente) dos pais e herdam os sonhos reprimidos atrás das vidas (fracassadas ou bem-sucedidas, tanto faz) dos adultos. Aquela fala chata dos pais, que evocam as renúncias que foram necessárias para conseguir criar os filhos, aponta o caminho de aventuras menos sacrificadas. Há uma guitarra empoeirada no sótão do comerciante ou do profissional cujo filho quer ser roqueiro. O que mudou? Duas hipóteses.

É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de vidas possíveis, mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos, um simples entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem, enquanto, comportadamente, aspiramos a um churrasco no domingo e a uma cerveja com os amigos.

É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu nariz. Ora, a capacidade de os adolescentes inventarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renunciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entrelinhas de nossas falas, as aspirações das quais desistimos, eles se deparem apenas com versões melhoradas da mesma vida acomodada que, mal ou bem, conseguimos arrumar. Cada época tem os adolescentes que merece.

04 janeiro 2007

O segredo da vida de um casal



Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente

EM GERAL , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta).

No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um "viveram felizes para sempre", que seria a "óbvia" conseqüência da paixão.

No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?

Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal.

O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la "Dormindo com o Inimigo".
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista "New Yorker" e em alguns livros (por exemplo, "Travels with Alice", viajando com Alice, de 1989, e "Alice, Let's Eat", Alice, vamos para a mesa, de 1978).

Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo?

Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.

Trillin escreveu "Sobre Alice", que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos.

O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de "Sobre Alice": "Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia". A graça está no fato de que a "propensão" de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel.

Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal.

Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
Nota. Correção da semana passada: o site do Instituto Quatro Estações é www.4estacoes.com (sem br).

"Em Direção ao Sul"

A desigualdade produz, nas elites, a fantasia de estar num harém de corpos escravos

NO FIM de semana passado, São Paulo estava deserta.
Nos faróis, até a turma habitual de pedintes, saltimbancos e vendedores ambulantes era reduzida ao mínimo.

Na sexta à noite, mostrando a cidade a um turista europeu (meu conhecido), parei na esquina da Estados Unidos com a Nove de Julho. Uma moça, muito bonita e habilidosa, fez seus malabarismos só para nós. Dei-lhe alguns reais (merecidos) e lhe desejei feliz Ano Novo.
Meu hóspede fez um comentário que queria ser engraçado: "Poderíamos convidá-la para casa...".

Covardemente, reagi no estilo esperado (o do clube do Bolinha). Resmunguei "pois é...", num tom entre incerto e maroto.

Mais tarde, fui assistir a "Em Direção ao Sul", de Laurent Cantet, que estreava naquele dia. O filme (excelente) é inspirado em uma série de contos do haitiano Dany Laferrière ("Vers le Sud"). O pano de fundo é o Haiti dos anos 70: miséria e poder ilimitado da gangue de papa Doc.
Três mulheres brancas e maduras do hemisfério norte (duas americanas e uma canadense) passam suas férias num hotel na beira da praia; elas procuram o sol e, sobretudo, os garotos negros, que namoram e transam com elas e que elas pagam em dinheiro e presentes.

Numa cena do filme, as mulheres se perguntam por que não gostam tanto dos negros de seus países de origem. A pergunta vale para o turismo sexual em geral: por que ir tão longe? Afinal, nas cidades do primeiro mundo, há uma ampla escolha de amores à venda. A troca é mais barata no Haiti, no Brasil ou nas Filipinas, mas (considerando o custo da viagem) o argumento financeiro não se sustenta sozinho.

Os "tristes trópicos" de quem vive no terceiro mundo são a condição necessária para que existam os trópicos alegres do turista sexual. Mas a razão disso não é só econômica.

Explico. Na vida erótica, funciona uma espécie de proporção: para desejar sexualmente, é como se precisássemos, ao menos por um momento, despojar o outro de sua dignidade subjetiva, considerá-lo apenas como corpo. É por isso que, para alguns, é impossível desejar e amar o mesmo outro. É por isso que a maioria, na hora do sexo, não sussurra palavras de carinho, mas solta "injúrias" que rebaixam a parceira ou o parceiro, ou seja, que o transformam em carne entregue ao desejo. Nada de "meu anjo". Na cama, é "puta" e "cafajeste".

Nos lugares preferidos pelo turismo sexual, essa configuração banal da vida amorosa está, por assim dizer, realizada de antemão: o turista encontra sujeitos que já são reduzidos a seu corpo. Se não bastasse o passado colonial ou escravagista, a desigualdade brutal prepara os corpos tropicais para o festim do turista sexual. Laferrière, num outro livro ("La Chair du Maître", a carne do dono), escreve: "É simples: um pequeno grupo de pessoas possui, neste país, todo o dinheiro disponível.

Como se sabe, com o dinheiro dá para comprar tudo: os seres e as coisas". E os seres, nesse caso, podem se tornar objetos eróticos sem empecilhos: destituídos de cidadania, eles são, se não coisas, carne.

Por exemplo, Legba, o jovem negro que, no filme, é objeto de desejo das senhoras, pode ser uma espécie de felino que elas querem acariciar e mimar porque já foi transformado em bicho pela miséria social e política de seu país.

Com os negros do Norte, não é tão fácil. Certo, eles são descendentes de escravos e ainda assombram os sonhos sexuais das elites brancas do Norte, mas a diminuição da desigualdade e a conquista de direitos políticos efetivos os tornaram cidadãos. Para lidar com seus corpos, é necessário lidar também com suas pessoas.

Saindo do cinema, pensei no comentário de meu conhecido sobre a jovem malabarista de farol. Tanto faz que ele fosse europeu: o Brasil tem dois mundos suficientemente separados para que seja possível praticar turismo sexual sem sair do país. Pela força do passado e pela distribuição de riqueza que o preserva, somos divididos em gente e bichos, sujeitos e vira-latas que talvez seja possível levar para casa, oferecendo um biscoito.

Algo resiste ao fim de uma desigualdade que priva os desfavorecidos de cidadania e os reduz a seu corpo. E não são apenas dificuldades administrativas e econômicas. A desigualdade é também uma fonte, talvez envergonhada, de prazer erótico; ela alimenta, nas elites, a fantasia (apenas e mal reprimida) de estar, o tempo todo, num harém de corpos escravos.

28 dezembro 2006

Doutrina, lei e consciência



Decidir em nosso foro íntimo é quase sempre melhor do que inventar leis e doutrinas

EM 1870, morreu George Holland, um ator de origem inglesa, que morava em Nova York na pobreza. Naquela época, muitas igrejas se negavam a oferecer ritos religiosos ao corpo dos atores, que eram considerados párias: uma casta de perdidos.

Na hora de enterrar George Holland, portanto, os amigos e os filhos encontraram sérias dificuldades, até que alguém lhes assinalou (com um certo desprezo) uma "igrejinha atrás da esquina, que talvez topasse essas coisas". Era uma igreja anglicana, que ainda existe, em Nova York, na rua 29, entre a Quinta Avenida e a Madison.

Assim, logo antes do Natal de 1870, o reverendo George Hendric Houghton celebrou o funeral de George Holland, e a "igrejinha atrás da esquina" se tornou, desde então, o refúgio preferido dos atores da Broadway -e dos atores em geral.

Depois do Natal (bem nesta época do ano, 136 anos atrás), a imprensa americana levou a questão para a opinião pública, que, em geral, aprovou o ato do reverendo.
Há quem diga que a generosidade de Houghton fosse uma conseqüência de sua paixão pelo teatro. Essa suposição o torna ainda mais simpático, mas tudo indica que sua motivação era mais ampla.

Houghton não era homem de se orientar pela opinião dos demais nem por doutrinas estabelecidas.

Durante a Guerra de Secessão americana, ele tinha abrigado escravos fugitivos. Mais tarde, fundou a primeira escola dominical para negros. Também ele instituiu uma prática (que se popularizou um pouco): na janela de sua paróquia, colocou uma vela que queimava a noite inteira e, na porta, uma campainha, para assinalar que, na necessidade, era sempre possível procurar ajuda na casa de Deus.

Pois bem, para enterrar George Holland, Houghton não pediu a autorização de ninguém. Não se preocupou com a doutrina oficial de sua congregação em matéria de atores.
É verdade que a Igreja Anglicana, em geral, não promove doutrinas de cima para baixo, mas aposto que, mesmo se ele fosse padre católico, Houghton não agiria diferente: decidiria segundo sua consciência.

Seu moto pessoal era uma citação de Terêncio (um autor, que, além de escrever comédias, não podia ser cristão por ter nascido bem antes de Cristo): "homo sum: humani nihil a me alienum puto", sou homem, nada do que é humano me é alheio.

Nestes dias, em Roma, a Igreja Católica recusou o enterro religioso a Piergiorgio Welby, um italiano que sofria de distrofia muscular progressiva, vivia paralisado há dez anos e, quando a doença lhe retirou a própria possibilidade de falar, quis que seu médico desligasse o respirador artificial. Como relatou a reportagem da Folha no dia do Natal, o papa (que não se opôs ao funeral religioso de Pinochet) achou bom se pronunciar nesse caso e declarou que "o nascimento de Cristo nos ajuda a tomar consciência do que vale a vida de todo ser humano, desde seu primeiro instante até seu declínio natural".

É um bom exemplo de como a "autoridade" permite qualquer distorção. É claro que o nascimento de Cristo celebra a vida (como todos os nascimentos), mas é meio capenga escolher o Cristo como exemplo de valorização da vida acima de tudo. Afinal, o Cristo, que eu saiba, não fugiu de Jerusalém para salvar a pele, mas ficou encarando o suplício porque pensava, por exemplo, que sua missão valesse mais do que sua vida.

Fora esse detalhe, não sou "a favor" da eutanásia nem "contra" ela. Assim colocada, a alternativa não me interessa, pois tenho a maior dificuldade em ser "contra" ou "a favor" quando se trata de generalidades. Ou melhor, sou quase sempre contra quem legisla abstratamente: a eutanásia não pode (e o ditador assassino e corrupto pode, porque o caso não está no livro).

Teria preferido que, no caso da morte de Piergiorgio Welby, não houvesse debate, apenas um padre que ouvisse o pedido da mãe, considerasse as circunstâncias da vida de Welby e fizesse seu dever ou, então, se assim ditasse sua consciência, rejeitasse o pedido e encaminhasse os familiares a um outro padre, sem fazer disso um tema de discussão, sem pedir que alguém, de cima, legislasse. Por quê?

Porque nossa capacidade de decidir, em nosso foro íntimo, o que é justo e o que é errado é infinitamente maior que nossa capacidade de inventar leis e doutrinas que respeitem a singularidade das vidas concretas.

Um bom começo de ano a todos.

25 dezembro 2006

É Natal

Os primeiros Natais de minha infância foram momentos encantados. Ou, ao menos, é assim que me lembro deles.

No dia 24, de tarde, cada escrivaninha e console da casa era levado para a sala de jantar e servia para encompridar a mesa, de maneira a acomodar os 20 e tantos familiares e amigos de sempre. Logo começava a preparação do peixe. Meu irmão e eu ajudávamos meu avô na tarefa selvagem de tirar a pele das enguias, que eram o prato tradicional e que nenhum de nós gostava de comer. Antes de ir para a cama, nós, as crianças, preparávamos, perto da árvore, uma mesinha: um copo de vinho branco, um prato com uma fatia de bolo e um pequeno guardanapo. No chão da entrada, colocávamos uma bacia com água e outra com duas ou três cenouras. O bolo e o vinho eram para o menino Jesus. A água e as cenouras eram para a mula que o carregava.

Acordávamos de madrugada, pela ânsia de ver os presentes e de constatar a mágica passagem do menino Jesus. A casa estava deserta, os presentes brilhavam embaixo da árvore, o copo de vinho tinha sido em parte (só em parte) bebido, a fatia de bolo tinha sido mordida, assim como as cenouras. Havia, sempre, em algum lugar do corredor, uma poça: a mula, coitadinha, tinha feito xixi. Da porta de entrada até a árvore, espalhava-se um rasto de folhas e pétalas de flores, que, aparentemente, o menino Jesus deixava atrás de si, por onde passasse.

Não sei por que, na nossa família, era o menino Jesus, e não Papai Noel, que trazia os presentes. A coisa era ainda mais curiosa por meu pai ser declarada e ferozmente ateu. E minha mãe o acompanhava.

Menino Jesus ou não, era bom fazer de conta: o ritual era um segredo de família que celebrava o milagre de estarmos juntos. Também era um alívio constatar que nem todos os presentes vinham de meus pais. E era gostoso acreditar numa certa benevolência do mundo ou de seu criador: havia ao menos um dia no ano em que, indo para a cama cedo e forçando-se a fechar os olhos, alguém, no meio da noite, faria o necessário para que acordássemos felizes.

Houve Natais em que o encanto se perdeu. Num deles, bem perto da meia-noite, morreu de repente o pai de meu melhor amigo. Meu pai saiu correndo com sua bolsa de médico; a festa parou. Nós descobrimos que, às vezes, não só a mula, mas o próprio menino Jesus se esquecia (de alguém, no caso). Os presentes, na manhã seguinte, estavam lá; mas eu não sabia o que fazer com eles. Também estava lá Alessandro, meu amigo do peito, órfão.

E houve outros Natais em que explodiram brigas de família incompreensíveis (para nós). Um tio que saiu batendo a porta porque não gostou do lugar que sua mulher ocupava na mesa ou uma nora que não se dava com a sogra. Esperávamos demais e, à força de querer (e simular) harmonia para a família e o mundo inteiro, vivíamos decepções fellinianas se algum detalhe atrapalhasse o cartão-postal natalino.

Mais tarde, chegaram os anti-Natais da adolescência. Eram proclamações indignadas contra a família. Valia qualquer coisa para contrariar o espírito dos Natais da infância: Natal numa boate? Natal num prostíbulo? Natal jogando pôquer num boteco?

Ou, então, eram proclamações políticas: Natal numa célula de militantes, Natal com amigos e companheiros, sem festa, sem árvore e cheio de conversas sobre as armadilhas "alienantes" do consumo.

Alguns anos atrás, no dia 25, acordei muito cedo, embora soubesse que ninguém viera, no meio da noite, depositar presentes embaixo da árvore. O apartamento estava deserto, todos dormiam ainda. Atravessei a sala assim como costumo dormir, de camiseta, sem pijama. Olhei com carinho para os restos do jantar da noite anterior e liguei a máquina do café. Não sei por que, achei graça enfiar na cabeça um chapéu de Papai Noel que estava em cima da mesa. Logo fui buscar o jornal na porta de casa, caso ele já tivesse chegado.

Por precaução pudica e por preguiça de vestir uma calça ou mesmo uma cueca, tentei inventar um jeito de apanhar o jornal sem impor minha nudez aos (improváveis) vizinhos que estivessem circulando pelo prédio às 6h do dia de Natal. Ajoelhado, abri a porta e estendi o braço; o jornal estava lá, mas longe demais. Insinuei o ombro na abertura, mas não bastou. Avancei mais, sempre ajoelhado, até que, empurrado pela própria porta, que é comandada por uma mola que a fecha automaticamente, estava mais fora do que dentro do apartamento. Por sorte, o batente não fechou atrás de mim. No instante em que, enfim, coloquei a mão no jornal, escutei um barulho. Levantei os olhos: bem na minha frente, um vizinho, também ajoelhado e seminu, era vítima da mesma manobra. Ficamos imóveis um longo momento, até que, de jornal na mão, desejei-lhe "feliz Natal" e recuei.

Cinco minutos depois, sentado contra a porta fechada do meu apartamento, ainda estava rindo, constatando que, durante esse estranho encontro, ficara não só meio nu, de camiseta, mas também de chapéu de Papai Noel.

É um bom retrato de meus Natais de hoje. O chapéu representa uma certa fé no ritual que afirma a permanência dos afetos familiares e das amizades, mas sem esquecer que o espírito de Natal não ganha das notícias do dia (o jornal na mão) nem dos desejos que nascem abaixo da cintura (às vezes estamos sem cueca).

Feliz Natal a todos.

21 dezembro 2006

Mudar de gênero

Projeto de lei nova-iorquino reconheceria a todo cidadão o direito de mudar de gênero

ATÉ ESTE começo de dezembro, tudo indicava que o conselho de saúde pública (Board of Health) da cidade de Nova York aprovaria uma lei autorizando qualquer cidadão a mudar de gênero em sua certidão de nascimento e, conseqüentemente, em todos os seus documentos.
Bastaria pedir: não seria necessário comprovar que o sujeito tivesse mudado seu sexo anatômico por uma cirurgia ou alterado seu corpo pelo uso de hormônios. Não seria sequer exigido que ele se vestisse e vivesse habitualmente como uma pessoa do sexo oposto ao seu.

João, de terno e bigode, poderia se apresentar no escritório previsto e pedir para se tornar oficialmente mulher. Inversamente, Maria, de saia e cabeleira, poderia pedir para tornar-se oficialmente homem.

O projeto de lei parece extremo e, de fato, foi objeto de gozações ("Se eu não gostar, posso mudar de novo? Quantas vezes no ano?"). Mas, a bem da verdade, ele era adequado, por duas razões.

A primeira é que nenhum sujeito pediria a mudança administrativa de seu sexo se a questão não fosse, para ele, mais que séria: vital. A segunda é que, hoje, o estado de nossa ciência, biológica e psicológica, não permite mesmo que um conselho de especialistas (por mais bem escolhido que seja) assuma a responsabilidade de autorizar ou proibir uma mudança administrativa de sexo.

Nessas condições, respeitar a palavra do sujeito interessado é, muito provavelmente, o caminho em que menos se erra. Mas, antes de mais nada, algumas explicações. Há sujeitos ("transgêneros") que sofrem porque seu sentimento profundo de pertencer ao sexo masculino ou feminino não corresponde à sua anatomia. Em número mais ou menos igual para cada sexo, há mulheres que se sentem homens e se vivenciam como homens, e há homens que se sentem mulheres e se vivenciam como mulheres. Ambos são cativos de corpos que lhes parecem estrangeiros.

Quantos são? As estatísticas oscilam absurdamente: entre um sujeito em cada mil e um sujeito em cada 100 mil. Por que existe tamanha variação? A categoria dos transgêneros pode ser delimitada de maneiras muito diferentes: ela pode incluir desde sujeitos (raríssimos) que nascem com os atributos sexuais de ambos os sexos até sujeitos (muito numerosos) que, esporadicamente, sentem a necessidade de vestir a roupa do sexo oposto - passando pelos sujeitos que modificam (mais ou menos radicalmente) seu corpo para que corresponda a seu sentimento de identidade.

Para complicar a tarefa dos pesquisadores, existem transgêneros "primários", em quem a discordância entre sexo anatômico e sentimento de identidade se manifesta desde a infância, e transgêneros "secundários", em quem a discordância se manifesta ou se agudiza na idade adulta (às vezes avançada).

Seja qual for o número de transgêneros no mundo, em sua grande maioria (90%, as estatísticas concordam) eles residem nas grandes cidades, onde o anonimato permite mais facilmente viver num gênero diferente do que figura nos documentos e é mais fácil encontrar possibilidades de inserção social (sempre tristemente escassas).

Fato de difícil compreensão para os "normais": os problemas de identidade de gênero não correspondem a uma orientação sexual específica.

Um grande número de transgêneros (a metade deles, segundo algumas estatísticas) eram e continuam sendo heterossexuais, ou seja, eram homens que desejavam parceiras mulheres ou mulheres que desejavam parceiros homens: ao mudarem de gênero, eles não alteram seu desejo e se tornam, de uma certa maneira, homossexuais.

Pois bem, a lei proposta pelo conselho nova-iorquino foi retirada. A proposta suscitou, obviamente, protestos "morais", fruto da ignorância de quem confunde um drama do sentimento de identidade com alguma forma de libertinagem. Mas, sobretudo, apresentaram-se problemas práticos ("New York Times" de 6/12): por exemplo, o que aconteceria com transgêneros que tivessem mudado de sexo administrativamente e que, por alguma razão, fossem presos? Iriam para uma penitenciária masculina ou feminina? E nos hospitais, como seria?

Essas objeções fazem sentido, mas revelam quanto nosso mundo é segregado pela diferença sexual. Homens à esquerda, mulheres à direita. Quem não se enquadra, que se vire.
O Natal é sempre um bom momento para pensar em quem tem uma vida especialmente difícil. Boas festas a todos.

14 dezembro 2006

"Inocência" e as mesas de bar

Se não sabemos mais sonhar com a vida como deveria ser, podemos abraçá-la como ela é

NO SÁBADO passado, em São Paulo, fui para o Espaço dos Satyros, na praça Roosevelt, e assisti a "Inocência", de Dea Loher, com direção de Rodolfo García Vasquez. A peça fica em cartaz até o dia 18 e volta em janeiro. A montagem é surpreendente pela elegância das soluções cênicas e pela performance de todos os atores.

O texto de Dea Loher é uma meditação (teatral e engraçada: nada de longos discursos) sobre a idéia, própria aos nossos dias, de que a vida não faz sentido. Misteriosamente, a montagem dos Satyros opera um pequeno milagre: ela revela, no pouco sentido do mundo, mil razões para amar a vida. Nisso, ilustra uma moral que aprecio muito: talvez não consigamos mais sonhar com a vida como deveria ser, mas podemos abraçar a vida como ela é.

Na saída do teatro, é de praxe parar numa mesa de bar naquele trecho da praça Roosevelt (escolha entre o espaço dos Satyros, o dos Parlapatões e o bar-antiquário Papo, Pinga e Petisco). A animação da rua responde à inquietude levantada pela peça: talvez a vida não faça sentido, mas nos resta viver. No mínimo, resta-nos a mesa do bar.

Sei que é pouco: a quem se sente abandonado pelas grandes causas comuns, a mesa do bar e sua conversa parecem pálidos reflexos da sociedade desejada. Mas, filosofando: se, por falta de transcendências, devemos encontrar sentido na imanência, é melhor se acostumar a dar relevância às coisas pequenas de cada dia.

Na mesa do bar, a gente dá "uma relaxada": encontra, na facilidade do convívio (ou do "convício", entre cigarros e cervejas), um amparo contra as frestas e falhas mais dolorosas. Considere seus companheiros de mesa: todos parecem espirituosos e bem-humorados.

Mas há um que, uma vez de volta em casa, perseguirá, solitário, na internet, fantasias sexuais que ele nunca se permite viver; há o casal que se deitará sem se abraçar; há outro que não quer ir embora porque a perspectiva da solidão o desespera; há outra que consegue ironizar uma perda cuja lembrança, quando ela estiver sozinha, de novo a arrasará. E por aí vai.

Não se trata de um "fazer de conta": existe uma divisão subjetiva sem a qual viver seria difícil. Já imaginou um dia inteiro na intensidade alarmante de um diálogo com seu melhor amigo, com um terapeuta ou até consigo mesmo, numa noite sem sono?

A única dificuldade com as mesas de bar é que, às vezes, o amparo se dá às custas dos ausentes, a torcida do "outro" time, os "veados", os negros, etc. (a mesa de bar pode ter uma proximidade perigosa com as mesas da infausta cervejaria onde começou o nazismo).

Mas, fora isso, as mesas de bar e as rodas de padaria são uma modesta e frágil presença da vida social concreta: elas mantêm, ao menos, a ilusão de que os outros existem para nós e nós existimos com eles. Falando em mesa de bar, na esquina de meu consultório tem um café, que, até pouco tempo atrás, tinha três mesinhas na rua. Era o lugar onde eu almoçava; era também o lugar onde as pessoas do bairro se encontravam, e a conversa rolava ao lado da banca de jornais, na frente do ponto de táxi.

Ali, vendedores ambulantes paravam entre as mesas. Meninos e meninas de rua pediam aos clientes um refrigerante e um salgado. Em suma, casas e apartamentos se prolongavam para um pouco além das portas trancadas.

Um belo dia, veio um caminhão da prefeitura; disseram que a ocupação da calçada não era legal e levaram embora (triste troféu) as mesinhas e as cadeiras de metal branco. "Quer regularizar? Faça um toldo retrátil novo." Custo: R$ 10 mil, impossível para o café da esquina.

Acho ótimo regulamentar o uso das calçadas. Mas governar, ao meu ver, deveria ser a arte de estimular a (frágil) comunidade que existe. Fazer o quê, deixar tudo na bagunça? Não, mas um funcionário da prefeitura poderia ter chegado no café da esquina (e em centenas de outros bares da cidade) e dito, por exemplo: a gente vai tornar São Paulo mais bonita, é preciso regularizar os toldos, a administração previu sua dificuldade e obteve um empréstimo do BNDES. Você vai poder pagar seus R$ 10 mil ao longo de cinco anos, a juros razoáveis.

Para que isso acontecesse, teria sido suficiente que os governantes pensassem primeiro na vida concreta da gente, que não é nada -pode ser apenas uma mesa de bar-, mas, num mundo com pouco sentido, é o que temos.

07 dezembro 2006

"Crazy - Loucos de Amor"

Como se determina a orientação sexual? É uma "escolha" livre ou uma fatalidade?

ESTÁ EM cartaz "Crazy - Loucos de Amor", de Jean-Marc Vallée (canadense de língua francesa). É a história de Zac, um garoto que se torna adulto e homossexual entre uma mãe religiosa, um pai banalmente machista e quatro irmãos.

O filme é uma pérola: delicado, engraçado e comovedor. Além disso, ele é uma obra de utilidade pública. Ao longo dos anos, muitas vezes, encontrei e tentei aconselhar casais que lidavam, de maneiras diferentes, com a descoberta de que seu filho (ou um de seus filhos) era homossexual. As reações variavam, desde uma aprovação maníaca (que, em geral, escondia um desespero reprimido) até a decisão sádica de impor a normalidade a tapas ou à força de excursões obrigatórias ao bordel.
Pois bem, hoje, a todos esses pais de um jovem homossexual, sem exceção, recomendaria que, antes mesmo de começar a conversa, eles assistissem a "Crazy". Estenderia a recomendação aos eventuais irmãos do jovem, aos amigos, aos colegas de colégio e de trabalho.

Deixo aos espectadores o prazer de uma história que, para usar uma expressão na moda, melhora singularmente nossa "inteligência emocional". E aproveito para resumir um debate que o filme reavivou.

Falando com um amigo sobre a história de Zac, usei a expressão "escolha sexual" (diga-se de passagem que, no filme, Zac é perfeitamente "capaz" de desejar e talvez de amar uma mulher). O amigo desaprovou energicamente minha expressão. E lá fomos nós, discutindo, mais uma vez: a orientação sexual é fruto de uma especificidade genética ou é um efeito da história do sujeito? Além disso, é uma fatalidade ou uma "escolha"? Chegamos a algumas conclusões provisórias, que resumo a seguir.

1) Os dados científicos não são conclusivos. Por exemplo, os estudos sobre gêmeos univitelinos (que já comentei no passado, nesta coluna) deixam, sobretudo, perplexidade: seria esperado que uma maioria esmagadora de irmãos gêmeos, por compartilharem o mesmo patrimônio genético, tivesse uma orientação sexual idêntica, mas as pesquisas mostram que isso acontece em pouco mais de 50% dos casos -uma maioria pequena, que poderia ser explicada pela infância comum.

2) De qualquer forma, o termo "escolha sexual" é, no mínimo, impreciso: ele sugere uma liberdade que, de fato, nunca existe em matéria de amor e sexo. Em geral, a fantasia que sustenta o desejo de cada sujeito (homossexual ou não) é mais próxima de uma imposição do que de uma criação livre e variável: não é uma coisa que a gente "escolha".

3) A razão para defender a expressão "escolha sexual" ou, então, seu contrário (por exemplo, "determinação sexual") é sobretudo política. Muitos sujeitos cuja conduta amorosa e sexual é excluída, perseguida ou censurada preferem, hoje, que a forma de seu desejo seja considerada por todos como uma necessidade biológica. Com isso, eles se libertariam das tentativas (ridículas e opressivas) de "corrigir" o que, para eles e de fato, é um desejo não negociável (que pode ser reprimido, mas não "endireitado"). Em suma, eles esperam ganhar uma aceitação social definitiva, visto que não há como se opor "à natureza".

Por que não adotar esse argumento, considerando que, de qualquer forma, a expressão "escolha sexual" é incorreta?

Eis minha resposta: no mundo dos meus sonhos, as mais variadas orientações sexuais e amorosas seriam aceitas sem a justificativa de determinação biológica alguma, mesmo se elas fossem livres escolhas dos sujeitos.

Um exemplo vai ser útil. Uma filósofa libertária que admiro, Jeanne Hersch (que morreu em 2000), foi minha professora na época em que ela dirigia a divisão de filosofia da Unesco. Nessa função, ela teve que decidir se a Unesco financiaria ou não uma pesquisa para demonstrar que não existem diferenças de inteligência entre raças. Hersch votou contra o projeto, pela indignação de boa parte de nós, estudantes. Os filósofos apreciarão o sabor kantiano de seu argumento, que foi o seguinte: é verdade que a pesquisa poderia desmentir cientificamente muitos estereótipos raciais e racistas, mas autorizar a pesquisa significaria admitir, mesmo por um instante, que a igualdade de direito possa derivar da igualdade de fato. Isso era, para Hersch, inaceitável.

Seguindo sua lição, prefiro defender o princípio da liberdade de "escolha" amorosa e sexual, sem justificativa biológica. É muito "crazy"?