26 outubro 2006

Quantos você matou?

O assassino é idealizado como se nos vingasse das imposições sociais aceitas a contragosto

DURANTE O segundo conflito mundial, Ernest Hemingway foi correspondente de guerra (não era combatente, mas gostava de circular armado). Ora, recentemente, um jornalista descobriu duas cartas em que o escritor se gaba de ter matado 122 alemães e conta o seguinte: um prisioneiro desarmado gozou da sua cara (tipo, "você não vai ter a coragem de me matar, seu bosta"), e Hemingway mandou ver.

É provável que se trate de uma fanfarronice. Naquelas circunstâncias, talvez fosse possível matar um, mas não 122. Resta que o escritor achou "legal" vangloriar-se de ter matado.
Hemingway passou a vida inteira tentando demonstrar ao mundo e a si mesmo que ele era "homem" de verdade.

Sua história pessoal faria a festa de qualquer psicanalista, desde o suicídio do pai até o dele mesmo, mas o teor das cartas me fez pensar num livro, que, em 2002, foi transformado num filme homônimo, "Confissões de uma Mente Perigosa". É a autobiografia de Chuck Barris, um produtor e apresentador da televisão americana, que contou ter sido, durante anos, um assassino ao soldo da CIA (a qual não confirmou nem desmentiu o fato).

O livro de Barris começa com ele contemplando, no espelho, as injúrias do tempo: sua barriga, sua carne flácida. O fato (ou a fábula) de ter sido um sicário parece valer, para Barris, como uma cirurgia plástica: "Olhe só, tenho cara de esportista de sofá e cerveja, mas as aparências enganam: sou um assassino".

Talvez Hemingway e Barris sejam exemplos patológicos e patéticos de machismo. Mas escute o último disco de Bob Dylan, "Modern Times". Na segunda faixa ("Spirit on the Water"), Dylan canta que ele não poderá permanecer com sua amada no paraíso porque "I killed a man back there..." (matei um cara no passado).

Que charmoso, não é? Nenhum espanto: de Johnny Cash a Merle Haggard, o passado sombrio do cantor é um lugar comum da música "country".

Em geral, o número de assassinatos em nossas ficções (escritas ou filmadas) é infinitamente superior ao das chances efetivas de nós, um dia, matarmos alguém. Em suma, ao que parece, matar nos faz "sonhar".

Evidentemente, há traços de caráter e elementos da história de uma vida que produzem uma disposição assassina, chamada, por alguns psicanalistas ingleses, de "blueprint for murder" (instruções para matar). Mas, certamente, essas peculiaridades dos (poucos) que matam prosperam num ambiente em que, para os machinhos, ter matado ou ter disposição para matar são marcas "positivas".

Ninguém parece achar bizarro que, durante algum tempo, nossos meninos queiram se vestir e andar pelas ruas como membros de gangues sanguinárias (desse ponto de vista, os jovens que se alistam no narcotráfico são apenas crianças que podem realizar um jogo que todos curtem).

Alguns se preocupariam se seus filhos não passassem por uma "fase" de brincadeiras assassinas; receariam, por exemplo, que eles fossem debochados como "frouxos" pelo grupo dos amiguinhos. Não estariam completamente errados: tudo indica que, em nossa cultura, matar é um ato que impõe respeito, ou pior, uma espécie de admiração. Como no Oeste, as entalhaduras na empunhadura do revólver (que contam o número de mortos) medem o valor do pistoleiro.
Censurar nossas produções culturais não é uma solução. Vivemos numa contradição constante entre a liberdade do indivíduo (como valor supremo) e a coação das leis necessárias para vivermos juntos. Conseguimos respeitar as leis; em contrapartida, o fora-da-lei é o herói de nosso individualismo.

"Não Matarás" talvez seja a norma que internalizamos melhor, mas essa é mais uma razão para que "admiremos" o matador: ele consegue agir contra o interdito que está mais solidamente dentro de nós. Nas telas, nas brincadeiras de crianças, nos escritos de Hemingway e Barris ou, simplesmente, nas nossas fantasias, o assassino é idealizado como se ele nos vingasse de todas as imposições sociais que aceitamos a contragosto.

Às vezes, a tela e a realidade se confundem. Em Campinas, na semana passada, um segurança de shopping center matou, por nada, um jovem que tinha derrubado três cones com a sua moto. Armas de verdade deveriam estar só nas mãos dos adultos. O problema é: como encontrá-los?

19 outubro 2006

O Piauí é aqui

A condição básica de uma convivência democrática é que se goste da vida concreta

CHEGOU ÀS bancas o primeiro número da revista "Piauí". Li de cabo a rabo, numa noite.
Aprendi tudo sobre Salem, nossa antepassada etíope de 3,3 milhões de anos atrás. Acompanhei Roberto Jefferson no dia das eleições e conheci o poema que, nessa ocasião, ele declamou junto com o pai, Roberto Francisco.

Entendi que há uma luta entre as baianas do candomblé e as neo-baianas, que vendem acarajé evangélico. Soube dos comentários dos ex-presidiários do Carandiru sobre a morte do coronel Ubiratan.

Conheci Fernando Henrique Freire, degustador de café; conheci José Cândido Sobrinho, que, há vinte anos, defende seus direitos trabalhistas contra a massa falida dos Diários Associados; soube que, no Pará, há policiais militares que montam búfalos reluzentes.

Li uma grande reportagem sobre como se trabalha (e por quanto) no telemarketing; outra sobre o engenheiro brasileiro seqüestrado no Iraque. Li o diário de uma jovem imigrante "ilegal" em Nova York.

Soube o que fez e pensou o jornalista Ivan Lessa, ao estar de volta ao Rio de Janeiro, depois de 28 anos de ausência. Aprendi como vive e trabalha Guilherme Guimarães, o estilista das noivas, e como foi que um jornalista americano tornou famoso um tal de Fidel Castro.

Soube também que Bertold Brecht não era "flor que se cheire". Li sobre o papagaio, animal nacional, sobre o turismo na Molvânia (que não existe, mas poderia existir) e sobre o hipopótamo. Também li uma breve ficção de Rubem Fonseca.

Um leitor dirá: "Legal, você se divertiu à beça, mas, logo neste momento da vida nacional, cadê as coisas "sérias", cadê a política?". De fato, a revista oferece um portfólio de fotografias de homens políticos, surpreendidos naqueles instantes em que, por acaso ou por descaso, suas máscaras vacilam.

Mas, para nosso leitor hipotético, isso não bastará. Ele insistirá na sua exigência, parecido com aqueles pacientes que, no consultório do terapeuta, sentem-se envergonhados ao falar das "bobagens" de seu dia-a-dia, como se seu cotidiano concreto não merecesse sua própria atenção e ainda menos a atenção do terapeuta.

Ora, na "Piauí", não há editoriais nem opiniões. Pela qualidade e pelo charme dos textos, a "Piauí" rivaliza com a "New Yorker", que a inspira.

Mas, embora eu seja um leitor inveterado da revista nova-iorquina, foi lendo a "Piauí" que entendi a relevância secreta do "novo jornalismo": ela não está no "subjetivismo" do repórter (que manifestaria seus estados de ânimo), mas no interesse pela vida concreta.

Não sei por que os colegas escolheram "Piauí" como título da revista, mas pensei o seguinte: não sei quase nada do Piauí, sei apenas que a capital é Teresina e acho o nome familiar e bonito (me faz pensar numa mulher simpática e conversadeira).

Agora, graças à "Piauí", sei que, desde 2005, em Teresina, há adolescentes praticando o badminton. É uma notícia sem importância? Não concordo, pela mesma razão pela qual acho que a chegada da "Piauí" é um evento político.

Os colegas da "Piauí", sem dúvida, acharão essa afirmação bombástica e retórica, mas fazer o quê? Aqui vai: a curiosidade e o carinho pelo cotidiano são os alicerces de qualquer política que não seja só vociferação. A condição básica de uma convivência democrática é que se torne relevante a variedade das vidas concretas, que são nosso Piauí, nossas terras desconhecidas ou silenciadas.

A "Piauí" nos traz esse Piauí, pelo Brasil afora. Considere "As Torres Gêmeas", de Oliver Stone. Alguns desdenharam o filme porque esperavam algo diferente: interpretações, quem sabe conspiratórias, dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 ou meditações sobre a perfídia da Al-Qaeda ou do atual governo dos EUA, tanto faz.

Ora, Stone contou a história de dois policiais enterrados nos escombros e da espera de suas famílias. Ele chamou isso de "As Torres Gêmeas", como se, naquele evento que alterou a cara do mundo, os fatos mais importantes fossem duas vidas concretas, duas vidas que, em geral, ninguém vê. Essa é a grandeza do filme.

"A Vida que Ninguém Vê" (editora Arquipélago), aliás, é o título de um livro imperdível de Eliane Brum, jornalista (hoje, da revista "Época").

É uma coletânea de relatos da vida cotidiana e miúda, escritos em 1999, para o jornal "Zero Hora". Eliane Brum é uma extraordinária repórter do Piauí de todos os dias.

12 outubro 2006

Outdoors ou não


Odiando a publicidade, tentamos exorcizar a futilidade de nosso próprio consumismo
NUMEROSOS LEITORES me escreveram comentando minhas últimas colunas, nas quais tratei do vídeo de Daniella Cicarelli e da nova lei da Prefeitura de São Paulo, que proíbe os outdoors publicitários no município. Tento responder.

Sobre o vídeo, uma observação: concordo, transar no meio da praia constitui uma ofensa ao pudor de quem não está a fim de assistir ao espetáculo. Ora, no meio da praia, Daniella e seu namorado só se beijaram e abraçaram. Como assinala o vídeo, o resto ocorreu numa área afastada: uma teleobjetiva foi necessária para filmar o casal. Imagine que, com um telescópio, você espie uma transa que acontece num prédio situado a 200 metros de sua janela. Você se sentirá insultado pela "exibição"? "Fala sério!"

Mas quero voltar à nova lei da Prefeitura de São Paulo e evitar alguns mal-entendidos (enviarei a íntegra da lei aos leitores que a solicitarem).

1) Acharia ótima a idéia de uma regulamentação básica dos outdoors publicitários (de sua localização, de seu tamanho etc.), mas a lei não propõe uma regulamentação: ela decide a abolição de todos os outdoors.

Quanto aos "anúncios indicativos" (o letreiro com o nome de uma loja, o programa de um teatro etc.), ela propõe uma regulamentação tão complexa que eu não consegui estabelecer se a padaria de minha esquina deverá ou não reformar seu letreiro. Aviso: a complexidade das regulamentações é, tradicionalmente, um convite à corrupção; quando ninguém entende direito o que pode e o que não pode, alguém acaba pagando para que o deixem em paz.

2) No caso dos anúncios publicitários, a lei funciona exatamente como a repressão psíquica. Por não querer ou conseguir diferenciar, ela proíbe tudo (é o abc do sintoma neurótico: para coibir minha "devassidão" sexual, quero mesas e cadeiras sem "pernas", nenhum objeto de "pau", nada de "sainha" nas camas...aliás, "cama" já é uma palavra suspeita).

Por outro lado, a lei (que projeta melhorar a paisagem urbana) propõe uma diversão: proíbe uma coisa para que a gente se esqueça de outras (que, no caso, dependem do poder público).
Espreitando a aparição de um dirigível publicitário (que será proibido), talvez você não veja o incrível emaranhado dos fios das ligações elétricas que "ornamentam" nosso céu ou não perceba a nuvem de poluição que dá sua cor inconfundível ao pôr-do-sol paulistano. Indignado com o anúncio de um reparador de cadeiras, talvez você não note o estado deplorável dos canteiros.
Uma conseqüência, não desejada pelo autor da lei: sem letreiros luminosos e holofotes, perceberemos, isso sim, que a iluminação pública de São Paulo é assustadoramente fraca.

Percorra a pé, de noite, a av. Faria Lima, vindo da Tabapuã em direção ao Oeste; entrando à direita, na luz dos restaurantes da rua Amauri, sua pressão arterial melhorará singularmente.

4) Alguns leitores se preocupam com nossos edifícios históricos. É estranho: nunca vi outdoors publicitários escondendo o Municipal, a Pinacoteca ou a Estação da Luz. Em compensação, pelo que entendi, o Masp não poderá mais anunciar suas exposições temporárias com megatelões laterais que chamem a atenção de quem transita de carro pela Paulista.

5) A implementação da lei é prevista com total descaso pela vida de muitos cidadãos. Em três meses, sem transição, uma indústria de serviços será desmantelada (com a perda de milhares de empregos), aproximadamente cinco mil táxis não disporão mais de uma pequena renda mensal suplementar e por aí vai.

6) É possível que a aprovação entusiasta da lei por muitos comentadores seja inspirada por princípios estéticos sóbrios e adversos ao "pop". Essa discussão fica para outra vez.

Mas suspeito que a iniciativa conte sobretudo com uma antipatia pela publicidade, uma ojeriza de bom-tom, que vê nos outdoors o símbolo (ou, pior, a causa) de nossa frivolidade (e de nossa "massificação", acrescentam alguns): tirem os outdoors e seremos curados de nossa vontade de cuecas de luxo, voltaremos a pensar em coisas importantes, belas e generosas. Ou seja, suspeito que odiemos, na publicidade, a futilidade de nossos próprios desejos. E a lei nos agrada com a ilusão de que exorcizamos, enfim, o consumismo (o qual, claro, não é parte da gente, mas um demônio que nos possui).

Parodiando o marquês de Sade: "Paulistanos, mais um esforço para sermos revolucionários".

05 outubro 2006

Av. Faria Lima, Berlim Leste

Graças a uma nova lei da Prefeitura de São Paulo, logo viveremos felizes em Berlim Leste

MINHA PRIMEIRA viagem a Berlim foi no começo dos anos 70, com um grupo de amigos militantes de esquerda.

Para quem vinha da Europa Ocidental, Berlim Leste era estranhamente monocromática. No fim do dia, a débil iluminação urbana instaurava uma penumbra amarela e opressiva: era a Viena de Orson Welles no "Terceiro Homem", sem o charme do claro-escuro. Pensávamos: os "camaradas" não vão desperdiçar watts para dar à cidade um ar de festa, precisam construir o socialismo e deixar a força para as fábricas. Não é?

Alexanderplatz, com a sua Fonte da Amizade Internacional e o palito da torre da TV, parecia-nos sinistra.

Mesma coisa com Unter den Linden, apesar de nossas lembranças literárias. Alguém comentou: "Se ao menos houvesse letreiros luminosos e anúncios publicitários". Era uma constatação envergonhada: afinal, aquela iluminação parcimoniosa e a "sobriedade" da paisagem urbana deviam ser um ato de acusação contra a frivolidade do Ocidente. Ali, o pessoal se dedicava a uma tarefa séria e grande: tratava-se de construir uma sociedade em que cada um pudesse cuidar não do que ele tinha ou não tinha, mas de sua "essência". Nós, "alienados", sentíamos nostalgia da proliferação de outdoors e holofotes da Kurfürstendamm.

Voltamos para o Oeste no meio da segunda noite, com uma sensação de derrota, e ficamos passeando e conversando ao redor da estação do metrô Zoo, até o dia nascer. Era um bom lugar para meditar sobre a leviandade do Oeste, onde nos sentíamos em casa, e a tristeza do Leste, do qual acabávamos de fugir (como muitos alemães, mas sem correr os mesmos riscos). De um lado, uma idéia e um projeto só. Do outro, uma confusão de objetos e superfluidades. Descobrimos que, entre Alexanderplatz e Zoo, preferíamos Zoo, com sua mistura de desejos de consumo e vidas perdidas.

Anos mais tarde, ao chegar ao Brasil pela primeira vez, a iluminação duvidosa das ruas evocou, na minha memória, a penumbra de Berlim Leste. Com esta (grande) diferença: a alegria que pipocava nas luminárias caóticas de barzinhos, armazéns e propagandas vistosas, embora curiosamente "démodées". Aparte: a escuridão das ruas não era sinal de escassez, mas de menosprezo pelo espaço público (as ruas eram escuras, mas as casas dos amigos que me hospedavam brilhavam como árvores de Natal).

Pois bem, o prefeito e a Câmara dos Vereadores de São Paulo acabam de aprovar uma lei para melhorar a paisagem urbana. A partir de janeiro, sem mais nem menos, "fica proibida, no âmbito do município de São Paulo, a colocação de anúncio publicitário nos imóveis públicos e privados, edificados ou não". A maioria dos comentaristas aplaude: a ganância da iniciativa privada parará de desfigurar nossa cidade. Entendo, mas fico perplexo.

A Folha de quarta-feira retrasada publicou, em primeira página, a fotografia de um trecho da avenida Faria Lima em seu estado atual e uma fotomontagem da prefeitura que mostra o mesmo trecho assim como será, uma vez a lei entrada em vigor: é a Faria Lima de Berlim Leste. Se a lei não instaurar apenas um rápido intervalo para reinventar uma nova e melhor presença de holofotes, letreiros e outdoors, viveremos em Berlim Leste, com a desvantagem de não ter um sonho (ou pesadelo) utópico para justificar a monocromia e a penumbra de nossa cidade. Tudo bem, quando a gente não agüentar mais, restará passear pelos shopping centers, que permanecerão como ilhas de uma estética que não despreza o caleidoscópio desordenado dos desejos que é nossa "essência", fútil, mas (é sua vantagem) volúvel e plástica.

Ninguém parece se preocupar com a perda cultural que seria produzida pelo sumiço das propagandas. Somos uma sociedade de indivíduos. Não temos em comum nem uma fé nem uma tradição coesa.

Compartilhamos dois repertórios: o de nossos sonhos (as ficções, as músicas etc.) e o de nossos desejos desordenados, cujos caminhos coletivos aparecem, por exemplo, nas mil seduções dos anúncios que decoram o espaço no qual vivemos juntos.

Se você não acredita que esse segundo repertório possa ser uma parte relevante de nossa cultura e de nossa história comuns, faça uma experiência simples: folheie com amigos o maravilhoso "Almanaque dos anos 70", de Ana Maria Bahiana (Ediouro).

28 setembro 2006

Um filme de amor

O interesse pelo vídeo de Cicarelli revela que somos sobretudo frustrados no amor

À FORÇA de receber links para o vídeo de Daniella Cicarelli, acabei dando o clique e assisti ao filme.

São quatro minutos e meio, editados a partir de duas horas de gravação e entrecortados por subtítulos, que introduzem diferentes momentos do convívio do casal. Os subtítulos são em castelhano.

Normal, visto que os fatos aconteceram na Espanha, e o "paparazzo" era espanhol. Mas as frases, numa língua estrangeira e próxima, facilitam, para o espectador brasileiro, uma atitude irônica e zombadora, como se pertencessem a um português macarrônico.

De fato, nas conversas destes dias, o vídeo é sempre evocado com um tom maroto e, sobretudo, burlesco.

À primeira vista, o cômico parece servir para que o espectador esqueça a posição (incômoda e envergonhada) que ocupa: a de uma criança com o olho colado no buraco da fechadura ou, pior, a de um adulto salivando à vista de frutos proibidos.

Digo logo: suspeito que o cômico, neste caso, proteja o espectador de um outro incômodo, maior e, de certa forma, mais triste.

Falando em frutos proibidos, é importante salientar que o vídeo não é nada "ousado". Um sujeito que estivesse procurando por pornografia na internet certamente o descartaria sem hesitação e encontraria, com facilidade, imagens bem mais explícitas.

Alguém dirá que o interesse pelo vídeo depende unicamente do fato de que uma "celebrity" seria assim "exposta". Os títulos (infames) que acompanhavam os e-mails com o link iam nesse sentido. Algo assim: olhe só, Fulana está "dando" na praia... Ou seja, os brasileiros seriam fascinados pela "descoberta" de que uma "celebrity" e um lindo moço se desejam, beijam-se, acariciam-se etc. Essa cena nos ofereceria a certeza confortante de que os deuses do Olimpo não são muito diferentes da gente. Seria um pouco como uma foto de Lula ou de Alckmin mordendo um sanduíche cheio de mostarda e ketchup ou entrando com urgência num banheiro. "Te peguei!".

Pois é, não acredito em nada disso.

Por duas razões.

Primeiro, o vídeo nos mostra um casal que não tem nada de "jet-set". Eles não estão num iate na Sardenha nem numa enseada de sua ilha privada. Estão numa praia qualquer.

Tomam um refresco, comem um sorvete, tiram aquela foto que todos já tiramos, esticando o braço e recuando as cabeças para pegar o sorriso dos dois. Há um momento em que a moça puxa os cotovelos do moço para que ele a abrace; o gesto é comovedor de tão familiar.
Segundo, o distanciamento (facilitado pelos subtítulos irrisórios) mostra o seguinte: o espectador se arma de uma boa pitada de cômico para encarar uma visão que, sem isso, poderia magoá-lo (em geral, rir é um jeito de afastar de nós algo que preferimos ignorar). E acontece que, neste caso, o que queremos afastar certamente não é uma extravagância sexual, explícita ou implícita, pois o vídeo não é de sexo; é um vídeo de amor, um excelente vídeo de amor. Ele poderia ou deveria ser proposto como exemplo nas escolas de cinema, não por suas qualidades técnicas, mas porque é raro que os cineastas consigam mostrar tão bem os gestos do desejo entre duas pessoas que se gostam muito e que se amam (que seja por uma semana, um ano ou uma vida, tanto faz).
A delicadeza dos beijos, dos toques, dos abraços do casal falam de um momento de felicidade amorosa que é o verdadeiro "escândalo" do vídeo. É contra essas imagens de amor que o título chulo e os subtítulos irônicos protegem o espectador, guiando-o para que se convença de que ele está assistindo a alguma devassidão ou se divertindo ao constatar que uma "celebrity" fez "aquilo" que nem a gente.

Sem esse desvio da atenção, o vídeo seria, para quase todos os espectadores, tocante e talvez intoleravelmente triste. Por quê? Simples: alguns podem ser frustrados no sexo, outros podem ser invejosos e estar a fim de dar um pontapé nos pedestais que eles mesmos erigem, mas muitos sentem a falta da delicada intimidade do desejo sexual quando ele acontece entre dois que se gostam e se amam -muitos são frustrados no amor.

Com a ajuda de título e subtítulos, em suma, o tom burlesco dos comentários destes dias serve para que a gente não perceba o que, de fato, o "paparazzo" filmou: uma cena que, ao ser enxergada, produziria em nós a descoberta dolorosa de nossa carência. Pois não se trata de um momento de sexo, mas de uma tarde de amor.

21 setembro 2006

Confusões morais perigosas


O que importa é saber se houve crime; tanto faz que o criminoso seja ou não parecido conosco
PAULO BETTI declarou que não se faz política sem pôr "as mãos na merda". Pode ser, mas há várias maneiras de manipular excrementos: por exemplo, podemos espalhá-los pelas paredes ou enfiar as mãos na massa para desentupir privadas. Não é a mesma coisa.

Seja como for, a declaração de Paulo Betti teve sucesso a tal ponto que um leitor, Lauro Freire, comentou: "A Rose Marie Muraro escreveu um artigo na Folha em que, entre outras barbaridades, escreveu: "Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade". Hoje, o Zé Celso justifica o voto no Lula com coisas como "somos todos mensaleiros e sanguessugas". [...]

Enfim, acho o Zé Celso um cara legal, e Rose Marie também. Como o Boal e outros. Minha pergunta e tema: por que diabos esses caras estão falando essas coisas?". A finalidade das declarações citadas é, obviamente, política, ou seja, elas servem para minimizar os crimes cometidos por membros do governo e do Congresso. Mas me preocupa uma implicação do pensamento que elas expressam.

A lógica implícita é evangélica, numa extensão que inverte os termos habituais: como é que nos autorizaríamos a procurar a trava no olho do outro, se não vemos a palha que está no nosso? É verdade: se você roubou marmelada na infância, essa experiência deve lhe permitir "entender" um deputado sanguessuga ou um ministro corrupto. Ou seja, a "mente" criminosa não é totalmente estrangeira à nossa: podemos compreendê-la.

A partir do século 19, a psiquiatria e a psicologia invadiram os tribunais para mostrar a juízes e jurados que, por trás dos crimes, havia "o criminoso", que era, apesar de tudo, um semelhante. Compreendê-lo significava reconhecer uma circunstância "atenuante": "em situações análogas, eu talvez não tivesse agido de maneira diferente". Até aqui, tudo bem.

Acontece que (descoberta de Michel Foucault) essa atitude generosa também respondia à vontade de policiar o comportamento humano num mundo em que a norma religiosa não tinha mais valor de lei. Como assim?

A novidade da lei moderna é a seguinte: criminosos são os atos, nunca os sujeitos. Na hora de julgar, no tribunal ou no foro íntimo, o que importa é saber se o ato de Fulano é um crime; a pessoa Fulano é sem interesse. Essa mudança coloca um problema para quem gosta de ordem e controle (nada a ver com "ordem e progresso"), pois nossa lei proíbe uma série de atos, mas, quanto ao resto, deixa cada um livre para se comportar como ele bem entende.

É aqui que se revela a "utilidade" da consideração da pessoa do criminoso, que foi trazida, simpaticamente, para desculpá-lo (ao menos, em parte). Funciona assim: se, na hora de julgar, considero o criminoso (sua pessoa), e não seus atos, não vejo por que, na hora de reprimir, eu consideraria apenas os atos criminosos (como manda a lei), e não as pessoas.

Eis um bom exemplo. O presidente Lula saiu em defesa do senador Suassuna afirmando que ele é "leal" e tem comportamento "decente". José Alencar defendeu Freud Godoy por ele ser "uma pessoa correta". Esses comentários amigáveis não nos dizem se foram cometidos ou não atos ilegais. Se essas declarações valessem como defesas, sua implicação seria a seguinte: a culpa não é a de "sanguessugar" dinheiro público, mas a de ser desleal, incorreto ou indecente.

De repente, o que está em jogo é nossa liberdade, nada menos. Pois, se declarações como a de Lula e de Alencar constituíssem uma defesa, criminosos seriam não os atos (desconsiderados nas declarações), mas os comportamentos de quem não é "decente" - por exemplo, de quem se masturba, coleciona pornô, come sem garfo, é gay etc.

"Entender" o sujeito que cometeu um crime (porque todos teríamos uma disposição a cometer atos análogos) é uma operação cognitiva e afetiva simpática, que ameniza nossa severidade. Mas essa atitude tem pouco a ver com o funcionamento da lei ou da moral, a não ser que a gente queira viver um pesadelo repressivo em que os objetos do julgamento legal ou moral não seriam os atos, mas as pessoas.

Em suma, a aparente clemência de quem invoca que somos todos "pecadores" tem, como avesso, uma Justiça e um pensamento moral que, em vez de perseguir crimes e pecados, preferiria vigiar o comportamento de todos nós, supostamente criminosos e pecadores.

31 agosto 2006

O voto radical chique


A escolha do candidato pode ser apenas uma questão de imagem do próprio eleitor

NA ÚLTIMA pesquisa de opinião, Heloísa Helena é a candidata preferida por 20% dos eleitores com ensino superior (na população em geral, ela é escolhida por 10% dos entrevistados).
Talvez a decepção com os escândalos do governo seja maior entre os sujeitos supostamente mais informados. Além disso, os eleitores que apostam em modelos centralizados (taxa de juros e de câmbio decididas politicamente, questionamento das privatizações etc.) são provavelmente mais numerosos entre os "cultos" e "pensantes", que sempre tendem a confiar firme no poder das idéias que eles acham certas (doa a quem doer). Mas há uma parte (pequena, imagino) desses 20% que parece preferir Heloísa Helena por uma razão mais pitoresca.

Encontrei vários paulistanos, de classe A para cima (com graduação completa), que anunciam seu voto em Heloísa Helena sem conhecer o programa político e econômico da senadora e, certamente, sem simpatizar nem um pouco com seu moralismo em matéria de costumes.
Saindo de um jantar em que duas comensais declararam seu voto pela senadora, um amigo comentou: "É a esquerda-caviar".

A expressão "esquerda-caviar" foi lançada na França, na época de Mitterand, para estigmatizar os gostos luxuosos de intelectuais, altos funcionários e simpatizantes do governo socialista: "São socialistas e comem caviar?".

Ora, contam que, um dia, um jornalista perguntou a Léon Blum (primeiro-ministro socialista francês nos anos 30): "Como o senhor pode ser socialista, visto que, por sua origem e cultura, seus gostos são afastados dos gostos do povo?". Blum teria respondido: "Sou socialista porque não gosto do povo". Antídoto contra o populismo: não somos socialistas por acharmos que a comida a quilo seja a melhor do mundo, mas por querermos que todos possam degustar a cozinha de Alex Atala.

Mas o fenômeno "HH xodó dos Jardins" não evoca apenas a esquerda-caviar. Em 1970, em "Radical Chique" (um dos ensaios fundadores do "novo jornalismo"), Tom Wolfe descreveu uma festa organizada por Leonard Bernstein (o compositor e diretor de orquestra) para levantar fundos em favor dos revolucionários das Panteras Negras. Convidar Stokely Carmichael ou Angela Davis e manifestar-lhes apoio era, para a "inteligentsia" nova-iorquina da época, uma excentricidade elegante.

Na festa radical chique, revolucionários e extremistas têm uma vantagem sobre capas Prada, bolsas Louis Vuitton ou vestidos Armani: eles odeiam seus anfitriões. É óbvio que é radicalmente chique usar, como cachecol, um bicho vivo e venenoso.

A turma radical chique:

1) evita pensar em soluções efetivas para os problemas do país (nada de discursos, que são chatos e estragam a festa);

2) curte as experiências exclusivas ("Sabe quem estava na minha festa?") e cultiva uma imagem aventureira de si mesma (a presença do convidado revolucionário afirma que o anfitrião, contra todas as aparências, não é um integrado);

3) cultiva o autodesprezo para absolver-se de sua culpa social (no caso, nem preciso me odiar por ser integrado, pois meu convidado se encarrega disso). Na falta de Panteras Negras, a turma radical chique pode escolher candidatos intelectuais da pesada (melhor se forem ex-exilados). Fernando Henrique e José Serra, em outras épocas, poderiam ter sido xodós do radical chique brasileiro; ninguém leria seus livros, mas seria elegante tê-los numa festa, também porque, supostamente, eles desprezariam a futilidade de seus anfitriões. Sem dúvida, a turma radical chique gostava do Lula barbudo e escabelado do começo. Hoje, perdida a aparência de metalúrgico antiburguês, Lula não é mais chique.

Quanto a Alckmin, médio, invisível, animado por lugares comuns religiosos, ele é tudo o que o radical chique não quer ser ou avizinhar na vida.

Heloísa Helena é, hoje, a escolha perfeita. Ela odiaria servir de decoração na festa radical chique, mas, por isso mesmo, é a convidada ideal.

A turma radical chique deve ser eleitoralmente pouco significativa, mas ela nos lembra que, numa sociedade narcisista, a escolha do candidato é também uma questão de imagem. De imagem, quero dizer, do eleitor: alguns decidem seu voto como escolhem sua roupa.

PS. A edição mais recente do ensaio de Tom Wolfe está em "Radical Chique e o Novo Jornalismo", livro lançado em 2005, pela Cia. das Letras. O leitor também pode se divertir (bastante) com os quadrinhos de Miguel Paiva ("Livro do Pensamento da Radical Chic", Record).



24 agosto 2006

O espírito das casas

O espaço no qual circulamos é um dos grandes protagonistas de nossas vidas

NUMA MESMA tarde, assisti (com prazer) a duas estréias da sexta passada: uma história de horror, "Almas Reencarnadas", de Takashi Shimizu, e uma história de amor, "A Casa do Lago", de Alejandro Agresti.

Os dois filmes têm em comum um clima sobrenatural. No primeiro, um diretor de cinema filma a história de uma série de assassinatos que aconteceram num hotel 35 anos antes; com isso, o passado se desperta. No segundo, um homem e uma mulher se correspondem e se amam: eles estão vivendo em épocas diferentes (ele, em 2004; e ela, em 2006), mas na mesma casa.

Interessei-me pelos filmes porque gosto daquela tradição narrativa na qual o espaço concreto, em que os personagens vivem e circulam, é por sua vez uma personagem importante da história. No primeiro filme, o hotel (ou sua reconstrução no estúdio) parece impor a repetição do passado. No segundo, a casa do lago, na qual, em épocas diferentes, ambos os protagonistas escolhem viver, é a ponte entre eles, o lugar onde se abre uma brecha no tempo. Em geral, subestimamos o espaço concreto no qual vivemos. Não acreditamos que sentimentos, afetos e relações dependam também do cenário concreto de nossa vida.

Ora, os militantes do espírito new age adotaram a arte do feng shui para corrigir as energias negativas de casas e escritórios. Mas não é preciso disso para entender que o espaço no qual moramos nos determina e nos expressa. Que seja ou não escolhido por nós, ele diz qual é a convivência com os outros que desejamos ou que nos permitimos: banalmente, o tipo de mesa (não só seu tamanho) diz se queremos jantar em companhia ou cada um no seu canto, a disposição do sofá diz se preferimos conversar com os amigos ou parar na frente da televisão, e por aí vai. O mesmo vale para o espaço urbano: temos a vida pública que nossas cidades nos impõem. Quando, numa mudança, estamos apostando no futuro, sonhamos com uma casa e uma decoração desenhadas pelo próprio Walter Gropius, modernistas, limpas, funcionais, despojadas.

Tempo atrás, Ana Verônica Mautner, numa crônica do caderno Equilíbrio, da Folha, comentou a proliferação de caçambas pelas ruas de São Paulo: reformamos custosamente até os apartamentos que alugamos porque queremos fazer tábula rasa na hora de mudar de casa, queremos evitar que nossos novos caminhos sigam as passagens que foram desenhadas no chão pelos hábitos de quem lá morou antes da gente.

Uma vez instalados, esvaziamos as caixas de nosso passado e nos tornamos, aos poucos, Biedermeier e kitsch, enchendo o espaço de móveis que limitam as potencialidades da casa e de lembranças que nos forçam a continuar sendo quem sempre fomos (a foto do casamento dos avós, a coleção de pedras que nosso filho juntou no primário, um quadro horrendo que compramos na lua-de-mel). Um bom arquiteto ou decorador, ao visitar nossos aposentos, deveria poder descobrir as grandes linhas de nossa vida relacional: talvez ele pudesse até enxergar, atrás da vida que temos, a vida que desejaríamos ter.

Aviso: se seu parceiro ou sua parceira muda de repente a disposição dos móveis de casa, não é apenas de estética que se trata. Nas minhas gavetas tenho alguns romances inacabados. Um deles é a história de alguém que compra uma casa cujos antigos donos saíram fugindo, sem nem fazer as malas.

O comprador deixa tudo assim como está (a roupa espalhada, a forma oca dos corpos nas camas desfeitas, os pratos do almoço interrompido etc.) e se dedica a adivinhar cada detalhe da existência de seus predecessores. Claro, comecei esse romance logo após a morte de meus pais. Isso me leva de volta ao clima comum aos dois filmes: não sou muito fã do sobrenatural, mas confesso o seguinte.

Numa casa que já abandonei, em Brookline (EUA), eu tinha construído um quarto-biblioteca que evocava, descobri depois, a biblioteca da casa de minha infância. Um dia, Maria, a jovem mulher que nos ajudava a cuidar da casa (e que dizia ser dotada de poderes mediúnicos), anunciou: "Doutor, seu pai está na biblioteca". "Meu pai está morto", respondi. Fui com ela até a biblioteca.

"Ele está lá, sentado", apontou Maria. Eu não via nada e não acredito em espíritos, mas perguntei, sem brincadeira nenhuma: "Poderia falar com ele?". Maria: "Não, mas lhe garanto que ele está sorrindo, feliz".

17 agosto 2006

"Anjos do Sol"


"Os nossos" apenas chegam no cinema de Hollywood. É só um truque de marqueteiro?

ESTRÉIA AMANHÃ "Anjos do Sol", de Rudi Lagemann.

O filme conta a história de Maria, uma menina do sol que se torna menina da noite. A cada ano, centenas de meninas, mal chegadas à adolescência, são vendidas pelos pais, leiloadas a notáveis famintos de carne virgem (carne do sol, não é?) e entregues a cafetões que as escravizam pelas zonas rurais e pelos garimpos do país.

A existência desse pequeno exército foi denunciada pelo dossiê "Crianças da Amazônia" e, logo, em 1991-92, pelas reportagens de Gilberto Dimenstein nesta Folha, que confluíram no livro "Meninas da Noite". Agora, as meninas da noite têm uma cara em nosso imaginário coletivo: a cara de Maria.

"Anjos do Sol" é terno e brutal, narrado com simplicidade e sem simplismo. Os atores são notáveis: além de Fernanda Carvalho (Maria), é preciso mencionar Antônio Calloni (Saraiva, o cafetão do garimpo), Bianca Comparato (Inês) e Mary Sheila (Celeste). A história prende, comove e indigna. Na saída do cinema, fiquei questionando um pensamento que me acompanhou ao longo do filme. Enquanto assistia a "Anjos do Sol", "sabia" que ninguém ajudaria Maria e suas companheiras. Um trunfo final da justiça me pareceria "falso". No entanto, eu não parava de esperar que, naquele garimpo perdido, aparecesse um Bruce Willis que esvaziasse sua Colt 45 automática na cara do Saraiva e do torvo guardinha sentado na entrada do bordel com um calibre 12 na mão.

Esperava pela chegada de John Wayne e do sétimo regimento de cavalaria, dos médicos de "ER", de Arnold Schwarzenegger ou da turma de "Law and Order". O Inspetor Clouseau teria sido suficiente. CADÊ OS NOSSOS? Fora a irritação contida de um agente de saúde reduzido ao silêncio pelas ameaças veladas de Saraiva, não chegou ninguém. Você, leitor, dirá que olho para o mundo pelos moldes colonizadores das narrativas hollywoodianas típicas.

Concordo. E admito que as narrativas hollywoodianas parecem ser construídas para gratificar nosso narcisismo: mesmo nas piores, podemos nos identificar com o herói salvador que nunca falta no elenco. Mas essa retórica hollywoodiana talvez não seja apenas estratégia de marketing. Explico. Em "Anjos do Sol", há uma longa fila de adultos que têm o destino de Maria nas mãos: família, intermediário, transportadores, cafetina e cafetão, capataz, deputado, fazendeiro com seu filho adolescente, garimpeiros, agente de polícia vendido. Como disse, parecia-me verossímil que nessa fila não houvesse ninguém para dizer: "Basta".

Não penso que, em outras latitudes, Maria teria tido mais chances de esbarrar em alguém que, além de se indignar, decidisse arriscar, agir, se meter. Ao contrário, quem leu "Meninas da Noite" lembra que, no fim, Dimenstein conseguiu levar a Polícia Federal até o bordel. Alguém, um jornalista, não se contentou em registrar os fatos e se indignar: tomou posição, disse "não" e desfez uma corrente de perversidades. Por que, então, ao assistir a "Anjos do Sol", parecia-me verossímil que ninguém resistisse? A sensação de verossimilhança (como já notou Aristóteles) não depende dos fatos e de sua probabilidade.

Ela é, por assim dizer, o efeito de uma expectativa cultural. Para nós, no caso, é mais verossímil uma narrativa sem Dimenstein chegando de helicóptero. Alguém dirá: "Melhor assim, não estamos aqui para gratificar nossos sonhos de glória, mas para enxergar a feiúra do mundo". Legal, mas pergunto: a chegada dos "nossos" no cinema hollywoodiano é só um achado de marketing para alegrar o público? Ou será que corresponde à expectativa cultural de que o homem comum se sinta compelido a erguer a cabeça e encarar o que lhe parece errado?

O final hollywoodiano pode parecer inverossímil, feito para nos seduzir com o devaneio de nosso próprio heroísmo. Mas seu contrário talvez alimente uma cinismo das belas almas, em que a indignação importa mais do que a ação. Um olhar pretensamente mais "maduro" e menos "alienado" por finais felizes pode ser a armadilha de uma disposição cultural em que a indignação serve sobretudo para inocentar: indignei-me, logo, fiz minha parte.

E os atos, cara pálida? Cá entre nós: Inês teria gostado caso, na ausência de Bruce Willis, ao menos o helicóptero de Dimenstein chegasse a tempo.

10 agosto 2006

A face grotesca do poder

A truculência do poder serve para confirmar nossa submissão e nossa dependência

APESAR DAS numerosas exceções, o conjunto de nossos governantes e representantes eleitos parece encenar teimosamente uma farsa grotesca de corrupções baratas (ou caras), de poltronices, de ignorâncias arrogantes e, enfim, de desprezo convicto pelo bem público (ou seja, pelo nosso bem).

Aparentemente, os que escolhemos para nos governar e nos representar não são os melhores entre nós. Será que, por alguma razão misteriosa, elegemos quase sistematicamente os piores? Não compro a tese segundo a qual governantes e representantes seriam o retrato de seus eleitores (portanto, teríamos o governo e o congresso que correspondem ao nosso feitio). Ou seja, não acho que a farsa em questão seja a versão pública da debilidade moral dos cidadãos em sua vida privada.

Não acredito que "os brasileiros" (por alguma herança infeliz) sejam adequadamente representados por trapaceiros que vendem e compram ambulâncias. Prefiro me perguntar: de onde vem a necessidade (ou a vontade) de instituir e manter um poder propriamente grotesco? Na primeira aula de seu seminário de 1974-75, "Os Anormais" (Martins Fontes, 2005), Michel Foucault afirma que a eventual infâmia dos governantes não é um contratempo do poder, mas um mecanismo essencial ao seu funcionamento.

Foucault nota que, desde a antigüidade (o Império Romano é uma mina de exemplos), é freqüente que os governantes sejam teatralmente desqualificados. Ora, o antropólogo Pierre Clastres ("A Sociedade contra o Estado", Cosacnaify, 2003) entendia que, nas sociedades ditas primitivas, a demonstração da indignidade do governante era um ritual necessário para limitar os efeitos do poder: que o soberano seja (ou apareça como) um idiota ou um pilantra, eis que nos daria, a nós governados, uma certa independência. Seríamos mais livres porque obedeceríamos, no mínimo, com cautela. Foucault pensa, ao contrário, que a indignidade do poder serve para demonstrar que ele é incontestado.

Segundo Foucault, o governante e o poderoso grotescos (desde o burocrata caspento assinando ordens de deportação até o imperador tocando música enquanto contempla o incêndio de sua cidade), justamente por serem indignos, confirmam nossa inércia diante do poder, seja qual for a caricatura que o encarna. Tendo a concordar com a hipótese de Foucault. Tanto faz que o lado grotesco do poder seja alimentado por nossas escolhas eleitorais ou revelado por nossa capacidade crítica. De qualquer forma, a infâmia de quem governa nos serve, sobretudo, para celebrar o caráter inelutável de nossa submissão, para afirmar que, mesmo assim, continuamos súditos. Como entender essa estranha vontade de sermos governados por mediocridades truculentas? Freud talvez possa ajudar.

É freqüente que os pré-adolescentes passem por um longo momento em que o pai (ou outro homem supostamente desejado pela mãe) parece-lhes grotesco, nojento. De repente, os jovens descobrem que ele cheira mal ou come de boca aberta com barulhos repugnantes: sua presença se torna vulgar e abusiva. Esse momento da pré-adolescência (que, muitas vezes, prolonga-se na vida adulta) pode ser entendido e vivido como uma declaração de independência: na direção otimista apontada por Clastres, os meninos afirmariam assim que o pai não é seu único modelo, e as meninas afirmariam que há outros homens, diferentes do pai, que elas podem amar.

Mas essa declaração de independência esconde um ato de submissão: ambos, meninas e meninos, preferem abandonar o corpo materno nas mãos de um "gorila", porque é mais fácil e seguro reconhecer uma potência paterna que seja irresistível e truculenta. Os sujeitos que, de uma maneira ou de outra, permanecem presos nessa experiência pré-adolescente pagam um preço: no melhor dos casos, eternizam esse momento numa fantasia erótica de submissão a estupradores brutais.

Mais freqüentemente, sem prazer nenhum, eles engrossam as fileiras dos que passam a vida baixando a cabeça (das vítimas de violência doméstica que não saem de casa até aos funcionários exemplares que dizem sempre sim). Em outras palavras, se, como propõe Foucault, não sabemos nem queremos nos livrar da face grotesca do poder, se fazemos o necessário para perpetuá-la, talvez seja porque um pai abusivo nos parece melhor que um pai fraco e, sobretudo, melhor que pai nenhum.

03 agosto 2006

Estamira e "Transamérica"

Odiamos o outro não por ele ser diferente, mas para ignorar que ele é parecido conosco

DURANTE QUATRO anos, Marcos Prado escutou Estamira, uma senhora de mais de 60 anos que vivia entre seu barraco (habitado e cuidado com a dignidade devida a uma casa) e seu lugar de trabalho (um aterro de lixo, onde ela passava dias e noites a fio).

Dessa experiência, Prado fez um filme, "Estamira", que é um extraordinário documento sobre a humanidade da loucura. Ele nos apresenta o território de Estamira (o mundo físico pelo qual ela anda), suas relações (de família e de amizade) e seu mundo íntimo, ou seja, o sentido que ela atribui ao seu ser.

Alguns psicólogos reconhecerão nessa tríade (mundo físico, relações e intimidade) as três categorias da psicologia existencial de Ludwig Binswanger. Pensei em Binswanger e na generosidade de sua clínica e de seu pensamento quando, comentando o filme, uma amiga e colega me disse: "Estamira é delirante, mas suas palavras, poéticas, fantásticas ou brutais, são coisas que ela diz não porque é psicótica, mas porque é ela, Estamira".

Que falemos lugares-comuns (como a maioria dos neuróticos) ou expressemos curiosas visões do mundo (como quem parece delirar), de qualquer forma, não há quadro clínico que possa (e deva) anular a unicidade de nossa presença no mundo, a dignidade do que se chamava, tempo atrás, nossa "pessoa". Marcos Prado permitiu que Estamira lhe (e nos) falasse porque quis e soube escutá-la como se escuta, em princípio, um semelhante. Com isso, o filme é absolutamente imperdível para quem, "psi" ou não, esteja disposto a se aproximar da loucura, ou melhor, a descobrir que o "louco" é estranhamente próximo da gente.

A cosmologia de Estamira (o além, o além do além, o mundo abarrotado que transborda) e sua religião (uma briga constante com Deus e com o Trocadilho, face diabólica e maldita do mesmo) não são menos verossímeis do que muitas de nossas crenças. A diferença é que nossas crenças são delírios que tiveram sucesso e ganharam credibilidade por serem compartilhados pela maioria.

Estamira (esse talvez seja o drama fundamental da loucura) deve inventar sozinha os meios de dar sentido à sua presença no mundo. Ela consegue essa façanha atribuindo-se o destino de ter de transmitir o que ela vê.

O Trocadilho, ao persegui-la, lhe deu uma missão, que é (como esperar outra coisa de um deus com esse nome?) um jogo de palavras: Estamira é esta mira, o olhar que tudo vê e tudo deve revelar. Missão cumprida, graças a Marcos Prado.

Corolário: quem não acredita na reforma psiquiátrica veja o filme e se pergunte: será que nossa sociedade pode tolerar a loucura só na margem extrema (o além do além) do lixão ou na clausura dos hospícios?

Quero mencionar um outro filme, antes que saia de cartaz. "Transamérica", de Duncan Tucker, é uma ficção e, à primeira vista, pouco tem a ver com "Estamira". Salvo que ambos os filmes nos forçam a descobrir destinos e jeitos de estar no mundo que são, no melhor dos casos, objetos de nossos olhares compassivos ou, mais freqüentemente, de exclusão, zombaria e ódio. O ódio, nesses casos, é o índice de uma cegueira proposital: odiamos o outro não por ele ser diferente de nós, mas para poder ignorar que ele é parecido conosco.

O herói (ou a heroína) de "Transamérica" é um transexual que, na hora em que obtém, enfim, o direito de ser operado e mudar de gênero, descobre que é pai de um filho adolescente. Difícil assistir ao filme sem entender de vez o seguinte: o drama de quem vive num corpo que lhe parece estrangeiro (por ser de um gênero no qual ele não se reconhece) tem pouco a ver com os avatares do desejo sexual. É um drama de identidade.

Algumas leituras para a fila do cinema. A Martins Fontes publica os seminários de Michel Foucault: no ano passado, "Os Anormais" e, neste ano, "O Poder Psiquiátrico". O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos acaba de publicar "Política, Direitos, Violência e Homossexualidade, Pesquisa na Nona Parada do Orgulho GLBT São Paulo 2005", de Carrara, Ramos, Simões e Facchini. A pesquisa confirma que, em matéria de discriminação, o transexual, que discorda de seu próprio gênero, é a vítima preferida.

É difícil abandonar o conforto da crença de que nós somos os "normais". Mais difícil ainda é admitir que a anatomia de nosso corpo possa não bastar para nos dar a certeza de que somos homem ou mulher.

27 julho 2006

Segurança, melancolia e inércia

A visão melancólica do país e de nós mesmos nos torna inertes e um pouco covardes

NA FOLHA de 16 de julho, Marcelo Beraba, ombudsman do jornal, observou que a imprensa não soube se servir da crise paulista das últimas semanas para comparar e questionar as propostas de segurança pública dos candidatos ao governo do Estado e à Presidência. Talvez, segundo ele, a imprensa não dispusesse de "quadros com bons conhecimentos" na área.
Nestes dias, o "Observatório da Imprensa", de Alberto Dines, propôs uma pergunta aos internautas: "O combate à violência pode entrar na disputa eleitoral? Sim ou não?". A grande maioria (80%) optou pelo sim. Faz sentido: afinal, a segurança pública é uma preocupação crucial dos cidadãos.

Ora, no domingo passado, a Folha publicou uma comparação das opiniões sobre segurança pública de Serra, Mercadante e Quércia. A reportagem, de Lilian Christofoletti, tentava diferenciar as propostas, mas, à vista das respostas dos candidatos, a conclusão era que, em matéria de segurança pública, os três pensam de maneira parecida.

É lógico que seja assim. Há 15 anos, participo de encontros e congressos sobre segurança urbana. Escutei enfoques diferentes e discordâncias quanto à ordem das prioridades. Mas, no conjunto, chega-se, de qualquer modo, a uma lista com a qual todos concordam e que é mais que conhecida. A ponto que talvez o silêncio dos "experts" (do qual se queixa Beraba) seja, sobretudo, sinal de cansaço.

Hoje, em matéria de segurança pública, o problema não é inventar o que fazer. O problema é fazer o que sabemos que deve ser feito. A segurança pública não é (ou não é mais) um problema político. Os secretários de Segurança, estaduais e federais, não precisam mudar segundo as fortunas dos partidos; eles poderiam ser escolhidos por sua competência e mantidos no cargo como "técnicos", encarregados de implementar as medidas com as quais todos concordam. Por isso, aliás, na pesquisa do "Observatório", optei pelo "não".

Pergunta: se sabemos o que fazer, por que não acontece quase nada? Proponho mais uma explicação. A lista das ações necessárias para melhorar a segurança pública no país é sempre encabeçada por uma declaração geral do tipo: "A sociedade brasileira deveria se tornar menos desigual e, com isso, não produzir nem reproduzir exclusão social".

Não há quem discorde. Mas essa recomendação inaugural, fundamental e justa, regularmente lembrada quando é proposta uma ação concreta qualquer, acarreta consigo a sensação de um destino nefasto: injustiça e desigualdade são a herança que nos constitui, o nosso DNA. De repente, as outras recomendações da lista parecem esparadrapos cosméticos sobre uma ferida que não sara.

É um tipo de armadilha freqüente na nossa vida cotidiana: "Tenho 40 anos, não completei o colégio e não tenho futuro", "Tenho 60, e meu casamento de 30 anos está sem graça, agora é tarde", "Nasci no lugar e no momento errados", "Com os pais que eu tive, não adianta". Qualquer terapeuta sabe que, diante desses autodiagnósticos radicais, "totais", a primeira tarefa é a de decompor a massa amorfa do desespero até encontrar seus elementos e organizá-los no tempo e no espaço.

Na vida política não é diferente: uma visão global negativa desqualifica os esforços para mudar, que parecem fúteis esparadrapos. Somos fascinados pelas autodefinições (sobretudo pejorativas: "O Brasil é assim mesmo") e, com isso, preguiçosos na análise dos detalhes e na ação para alterá-los. Essa atitude melancólica exerce um forte charme, pois ela dá sentido aos nossos males e nos dispensa de pensar e agir: nossa dificuldade é inevitável, ela é nossa essência. A autodepreciação nos revela quem somos; ela nos resume e nos define. Com isso, ela também nos apazigua: por que lutar contra nosso "ser"? Melhor fazer de nossa vida um longo lamento.
À primeira vista, a queixa radical contra a história e o "espírito do povo" parece mais séria do que o trabalho de formiga de quem tenta alterar o que pode ser alterado. Mas a eterna reclamação de que "o buraco é muito mais em baixo" acaba nos tornando inertes e um pouco covardes.

PS. Boa notícia: vários leitores da coluna da semana retrasada me comunicaram que há duas (ótimas) naturezas-mortas de Morandi no MAC da USP, doações de Francisco Matarazzo e Yolanda Penteado.

20 julho 2006

Cadê os cidadãos de São Paulo?

O crime conta com a falta de espírito cívico. Seria boa oportunidade para desmenti-lo

NESTES DIAS de violência (que continuam em surdina), houve e há um grande ausente: nós, o povo de São Paulo. Claro, pedimos políticas e intervenções públicas à altura; segundo nossa inclinação, insistimos nos direitos da população carcerária ou na necessidade de uma repressão severa, mas tanto faz: em ambos os casos (que, aliás, não são contraditórios), ficamos em casa esperando que Deus nos acuda. Você perguntará: "Fazer o quê?".

Pois é, espanta-me que as grandes organizações da sociedade civil, os sindicatos, as igrejas, os partidos (indistintamente), as associações corporativas etc. não tenham convocado (nem planejem convocar, aparentemente) uma manifestação de massa, silenciosa, sem palanques, só para afirmar que, seja qual for a convicção política de cada um, as ruas da cidade são nossas, não da barbárie.

Somos capazes de fechar bancos, repartições e comércios para assistir a um jogo da Copa ou por medo do crime. Será que não saberíamos parar a cidade para proclamar que ela nos pertence?
Não seria um gesto retórico, sem conseqüência efetiva. Pergunte-se: o que o crime organizado espera de nós?

Assassinaram policiais e agentes penitenciários. Destruíram ônibus, caminhões da coleta do lixo, uma ambulância, agências de banco, lojas. Mas evitaram produzir a morte indiscriminada de cidadãos quaisquer. Duvido que haja, atrás dessa estratégia, uma preocupação com nossas vidas. Mas talvez haja, isso sim, uma tentativa de ganhar ou de não perder nossa "cumplicidade". É uma palavra forte?

Na quinta-feira passada, alguns usuários, irritados pela ausência de ônibus nas ruas, tentaram queimar os poucos que circulavam ("Se não há transporte, não há para ninguém", diziam). É a reação esperada pelo crime, uma reação que confirmaria nossa incapacidade de entender o seguinte: o que é "público" é nosso, as ambulâncias e os caminhões do lixo são nossos, os ônibus são privados, mas seu serviço é nosso, e o mesmo vale para bancos e lojas.

Quanto aos policiais e aos agentes carcerários, eles são, literalmente, "os nossos". Na noite de quinta-feira passada, passei de carro na frente do posto da PM da rua Jesuíno Arruda, no Itaim Bibi. Sete ou oito cones de plástico forçavam os motoristas a se afastar um pouco (dois metros) da calçada.

Fora isso, tudo como sempre. O edifício não tinha sido transformado em bunker fortificado com policiais armadíssimos espreitando pelas frestas de portas e janelas fechadas: três homens fardados estavam de pé, perto da entrada, atentos, mas tranqüilos naquele momento, sorridentes. Apenas carregavam suas armas ordinárias e vestiam o habitual colete à prova de balas.

Imprudência? Pode ser, mas eu fui tocado pela declaração de força e coragem, implícita na decisão de assegurar o plantão de sempre. O posto estava normalmente aberto para o serviço dos cidadãos de São Paulo.

Teria gostado que crianças estivessem comigo naquele momento, para que pudesse lhes mostrar os gestos, grandes e pequenos, que tornam e mantêm "habitável" nossa cidade, para que sentissem orgulho de "sua" polícia.

Na minha São Paulo ideal, aliás, uma outra coisa já teria acontecido. Com a ajuda dos grandes cotidianos e da mídia do Estado, o governador teria lançado uma subscrição pública para constituir um fundo de indenização para as famílias de policiais e agentes assassinados ou feridos.
Ele teria convocado um conselho de probos para administrar o fundo e distribuir rapidamente as indenizações. A imprensa publicaria a cada dia, em destaque, o valor acumulado pelas doações dos paulistas. O governo federal quer ajudar? Que uma medida provisória torne imediatamente dedutíveis do imposto (não do imponível, do imposto) as doações a esse fundo.

Como você acha que o crime organizado se sentiria num Estado e numa cidade em que milhões de cidadãos desfilassem pelas ruas afirmando sua vontade de viver sem medo? E num Estado e numa cidade em que os próprios cidadãos mostrassem sua gratidão cuidando das famílias dos que morrem no serviço da comunidade?

Os momentos de crise podem ser ocasiões de mudanças decisivas. Não tanto de legislação, mas, sobretudo, de espírito. E muitos de nossos males têm sua origem numa falta endêmica de espírito cívico. O crime conta com essa falta. Seria uma boa oportunidade para desmenti-lo.

13 julho 2006

As garrafas de Morandi

Aqueles que enxergam mais que a realidade podem perder o trem da história

GIORGIO MORANDI (1890-1964) é um dos maiores pintores do século 20.

Que eu saiba, não há obras dele nas coleções públicas brasileiras, mas os paulistanos se lembram da exposição que o Masp lhe consagrou em 1997.

Morandi foi um excelente gravurista e pintou retratos e paisagens, mas a maior (de longe) parte sua produção é uma série infinita (e só aparentemente repetitiva) de naturezas-mortas, que "representam" (mas seria melhor dizer: revelam) caixas, vasos e, sobretudo, garrafas.

Ele passeava por Bolonha (onde viveu a vida toda), procurando objetos, que acumulava e pintava no seu quarto (um espaço exíguo, que lhe servia também de ateliê). As naturezas-mortas de Morandi são ideais para entender o ensaio de Martin Heidegger, "A Origem da Obra de Arte". O filósofo alemão, comentando um quadro de Van Gogh que representa um par de sapatos, descobria a função da obra de arte na sua capacidade de nos revelar a presença dos objetos além (ou aquém) de seu uso, que os torna, de alguma forma, invisíveis.

Um exemplo: depois do enterro de meu pai, fui para a sua casa, deserta. No banheiro, ao lado da pia, estavam, lado a lado, um barbeador, uma taça de zinco com um fundo de sabão sólido e um pincel, dilatado pelo uso. Eram objetos quaisquer, invisíveis até então, mas, naquele momento, sua presença se tornou avassaladora: a suspensão definitiva de seu uso fazia com que, para mim, eles estivessem presentes no mundo com uma densidade de história e de significação tão insondável quanto minha dor e minha lembrança.

Para Heidegger, a obra de arte produziria este mesmo efeito, de tornar o mundo "presente" aos nosso olhos. É difícil abordar nessa linha a pintura narrativa dos grandes ciclos de afrescos da Renascença, a arte sacra e por aí vai, sem contar a arte não-figurativa. Mas, para entender a pintura de Morandi, Heidegger é perfeito; ou, como disse, Morandi é perfeito para entender o ensaio de Heidegger.

Até recentemente, a imagem do pintor bolonhês era a de um eremita, que nunca casou, viveu com as irmãs, recluso em seu quartinho-ateliê, totalmente tomado pela tarefa de enxergar e mostrar, no cotidiano, o invisível. Como ele viveu uma boa parte de sua vida durante o fascismo e a guerra, acrescentava-se que seu isolamento era uma recusa da feiúra do mundo, uma atitude moral.

Um dos princípios éticos básicos, enunciado por Kant, diz que os homens podem ser fins de uma ação, mas nunca meios. Numa época de horror, Morandi parecia ter dedicado a vida a estender esse princípio até as coisas, transformando suas humildes garrafas em fins: objetos presentes e merecedores de nosso olhar, independentes de seu uso possível.

Ora, acabo de ler (saiu em 2004) "Giorgio Morandi: The Art of Silence" (a arte do silêncio), de Janet Abramowicz. Nessa excelente monografia, descobre-se que Morandi foi muito ativo na promoção de sua carreira (muito mais do que se imaginasse) e, sobretudo, que ele se envolveu seriamente com o fascismo. Continuo gostando de Morandi. Assim como continuei lendo Heidegger quando se soube que ele tinha sido francamente nazista. Mas é curioso que ambos, Morandi e Heidegger, tenham feito escolhas políticas barbaramente erradas.

Virgínia Figueiredo, num bonito artigo sobre a estética de Heidegger, ("Isto É um Cachimbo", em "Kriterion: Revista de Filosofia", vol. 46, nº 112, dezembro de 2005, ótima revista de filosofia publicada em Belo Horizonte), escreve em conclusão: "Certamente, em Heidegger, há uma espécie de glorificação e exaltação da arte, cuja contrapartida é um inevitável desprezo pela realidade". A observação é certeira. É como se (sempre, aliás) o esforço para enxergar o invisível (que seja a própria presença do mundo, o mistério de seu e de nosso estar aqui, os labirintos de nossos desejos, tanto faz) corresse o risco de nos fazer perder o trem da história ou de nos mandar escolher o trem errado.

Inversamente, é fácil subir no trem da história deixando de pensar. Ou seja, é fácil viver na ação e na técnica sem enxergar garrafas, sapatos e barbeadores. Falando em trem, um conselho: se você for para Bolonha, não deixe de visitar o museu Morandi, onde é reconstruído o quarto do pintor, mas, imperativamente, na viagem, passe também pela estação de trem da cidade e medite um pouco diante da lápide que lembra os 85 mortos de uma bomba fascista, em 1980.

06 julho 2006

O que faz um casal?

Para existir, um par precisa inventar e compartilhar uma longa aventura

AS HISTÓRIAS protagonizadas por um casal (sejam elas literárias, cinematográficas, teatrais ou televisivas) podem ser divididas em duas categorias.

Há as histórias ditas "de amor", de "Cinderela" a "Romeu e Julieta". Na maioria dessas histórias, trata-se do primeiro encontro dos amantes e das dificuldades nas quais eles esbarram para se juntar. As coisas podem acabar mal ("Romeu e Julieta"), mas, quando acabam bem, a narração termina na hora em que os amantes começariam a "viver felizes para sempre" ("Cinderela"). Ou seja, quando o amor deveria ser o tema principal, o que é narrado são os transtornos iniciais (com mais ou menos meleca sentimental) ou, às vezes, o trágico desfecho. A prática cotidiana do amor é, em geral, apenas objeto de farsas e comédias: risível.

A segunda categoria é a das histórias em que um casal vive uma aventura que, aparentemente, não tem nada a ver com seu amor: procuram juntos desvendar um crime, assaltar um banco, roubar um quadro, ganhar uma guerra ou encontrar o Santo Graal. Ao longo dessas façanhas, eles se amam e têm ou não o tempo de se beijar e de transar (nos filmes, esse efeito colateral nos vale cinco minutos de rins, umbigos, pernas e lábios, que não têm nada a ver com a ação e permitem dar um pulo no saguão do cinema para renovar a pipoca). Ora, para mim, os verdadeiros filmes de amor são esses, os da segunda categoria, os filmes "de aventura". Por quê?

A maioria desses filmes parece afastada de nossa experiência cotidiana. Com ou sem minha companheira, é raro que eu assalte bancos, roube quadros ou solva enigmas policiais. Mas essas proezas valem como exemplos de um "fazer juntos", que, na prática do amor, é um ideal mais útil do que os meandros dos primeiros encontros, propostos pelos "filmes de amor".

Ou seja, os filmes de amor me dizem que, do amor, vale a pena ser narrado apenas o momento do apaixonamento (supõe-se, imagino, que, depois disso, aos poucos, a coisa vire uma lástima). Os filmes de aventura me dizem que existe a possibilidade de uma experiência comum, de uma aventura dos dois (que, claro, não precisa ser tão mirabolante quanto o que acontece na tela). Em suma, concordo com a citação proverbial de Antoine de Saint-Exupéry (o autor de "O Pequeno Príncipe"): "Amar não significa se olhar um ao outro, mas olhar juntos na mesma direção" (se me lembro direito, a frase está em "Terra dos Homens", livro de memórias e reflexões que acaba de ser publicado em português pela Nova Fronteira).

Fica a pergunta: o que é "olhar juntos na mesma direção"? Na falta de fortalezas para expugnar, fazer o quê? A forma clássica de olhar juntos na mesma direção é criar filhos. Isso não significa que um casal deva agüentar um inferno conjugal para que pai e mãe fiquem com seus rebentos até eles crescerem. Significa apenas que a tarefa comum de criar os filhos é uma prática possível do amor. Já foi a mais comum, aliás. Num artigo publicado no caderno Mais!, da Folha de domingo passado, Gianni Vattimo nota que a reprodução sexual implica, de uma maneira ou de outra, a vontade de manter e reproduzir o mesmo.

O homem do antigo regime previa que seus filhos teriam seu mesmo status num mundo que se manteria igual; nós, homens modernos, sonhamos que nossos filhos nos ultrapassem, mas dentro de um quadro que tendemos a reproduzir (muitos desejam um filho médico, mas poucos gostariam que esse médico fosse Che Guevara). Talvez por essa razão, criar filhos deixe de ser, hoje, a experiência comum dominante na qual prospera o amor de um casal. Há traços da subjetividade moderna que exigem dos casais outras escolhas: a sede de renovação constante (reproduzir e se reproduzir não é mais suficiente para preencher nossa vida) e, sobretudo, a vontade de capitalizar experiência por conta própria (sonhar, por procuração, com a experiência futura dos filhos não nos basta mais).

Essa é, portanto, a dificuldade: fora criar filhos, o que é, hoje, para um casal, "olhar na mesma direção"? Alguns praticam o amor lendo poesia em voz alta, outros estudam juntos, outros exercem a mesma profissão ou adotam ambos uma nova religião, outros ainda se dedicam a práticas sexuais "diferentes". Tanto faz. O que importa é que, para existir, um casal precisa inventar e compartilhar uma (longa) aventura.

29 junho 2006

Católicos "do jeito deles"

Igrejas evangélicas de hoje são herdeiras do catolicismo de antes da Reforma

A CABAM DE ser publicados, pela Marcianum Press, os resultados de uma pesquisa encomendada pelo Patriarcado de Veneza e realizada pelo Observatório Sociorreligioso do Nordeste (nordeste da Itália).
Os dois volumes, sob o título "Fede e Libertá" (fé e liberdade), oferecem um retrato da fé e da religiosidade católicas nas regiões do Vêneto. Mas os resultados, confirmando pesquisas americanas de 2004, tornam-se indicativos de uma realidade que talvez valha, em geral, para os católicos do mundo ocidental contemporâneo.

No Vêneto, quase toda a população (perto de 90%) declara ser católica, mas apenas 18% aderem às práticas e às doutrinas obrigatórias, enquanto os outros dizem ser católicos "do jeito deles" ou, no mínimo, expressam "reservas".

A maioria dos entrevistados (66,5%) pensa que a missão da igreja seja assistir os pobres e os que sofrem, não legislar em matéria de moral nem ditar dogmas.

Questionados se os padres deveriam definir claramente o que é o bem e o que é o mal, apenas 10% dos entrevistados respondem afirmativamente.

O curioso é que os entrevistados podem questionar artigos de fé decisivos (por exemplo, levantar dúvidas sobre a ressurreição de Cristo) ou discordar radicalmente das indicações da igreja quanto à conduta sexual ou ao aborto, mas continuam se dizendo e se sentindo católicos.
Alessandro Castegnaro, diretor do Observatório, comenta que, hoje, por serem católicos, os indivíduos não deixam de escolher livremente "o que lhes parece plausível em termos de crença e o que lhes parece certo em matéria de comportamento".
A constatação que se impõe é que, neste começo do século 21, o espírito do protestantismo ganhou. Não é que as igrejas reformadas (luterana, calvinista, anglicana etc.) estejam em alta enquanto o catolicismo declinaria, mas, como confirma a pesquisa veneziana, para quase todos, a religião é cada vez mais uma questão íntima, privada. As formas do culto, as crenças e as condutas do fiel são decididas sem a mediação da autoridade "infalível" de papa, padres e pastores: se o que faço é pecado ou não, é uma questão que se resolve numa conversa direta com Deus.
Segundo o estudo clássico do sociólogo Ernst Troeltsch (sobre "o protestantismo e o mundo moderno"), o espírito do protestantismo, que "ganhou", foi um dos grandes agentes da modernidade ocidental: graças a ele (ou também graças a ele), o indivíduo e sua liberdade passaram a ser valores superiores à obediência, à tradição e à própria comunidade.

Segundo um ditado das planícies do centro-oeste americano (área com forte ascendência luterana), a regra do bom cristão é "God and common sens", "Deus e o bom senso". Claro, o "bom senso", que substitui assim a palavra do padre, do bispo etc., não é um modelo de autonomia; ele se inspira nas convicções morais compartilhadas pela maioria, mas (fato crucial) ele preserva a sensação de uma adesão motivada por nossa própria capacidade de pensar e julgar.

Será que essa transformação "protestante" da religiosidade católica explica o crescente sucesso das igrejas evangélicas? Afinal, elas são igrejas reformadas, não é?

Penso o contrário. Grande parte dos evangélicos de hoje (bem diferentes dos protestantes clássicos e dos "novos" católicos) são os adversários do espírito do protestantismo que deu forma ao mundo moderno: eles constituem igrejas que se propõem como mediadoras exclusivas da palavra divina. Além das questões de doutrina, a própria conduta moral não é deixada à decisão do sujeito no seu diálogo com Deus: ela é decidida por "cartilhas" que cobrem cada aspecto da vida, catequeses metódicas, justificadas por citações sagradas (sempre disponíveis: a Bíblia é um repertório variado e imenso).

Assim, por exemplo, mostra-se aos fiéis que "a Bíblia" proíbe o sexo oral, o uso de cigarros, a bebida alcoólica e a roupa colorida. Ou que, "segundo a Bíblia", quem não pagar o dízimo irá para o Inferno.

Em suma, os evangélicos, promotores de uma religiosidade normativa, têm pouco a ver com o espírito do protestantismo; ao contrário, eles parecem ser os herdeiros dos católicos de antes da Reforma e da modernidade. Com uma diferença: freqüentemente, os mediadores que eles impõem aos fiéis são desprovidos das qualidades humanas que eram um "efeito colateral" da vasta cultura dos padres do passado.

22 junho 2006

Os revolucionários silenciosos

Uma alternativa entre liberdades "formais" e liberdades "reais" é um engodo do século 20

O PSICANALISTA Fábio Hermann observou uma vez que turista é quem tira seu retrato colocando-se na frente do lugar visitado, mas olhando para a câmera: somos turistas quando viajamos de costas para o real. Pois bem, há uma nova onda de turismo revolucionário. A revista italiana "Panorama" (8/6/2006) relata que a Venezuela de Chávez é destinação de pacotes para quem busca um sonho de socialismo realizado. Garotos-propaganda desse turismo são intelectuais que viajam à custa do governo, ficam no Hilton de Caracas, visitam o que lhes é mostrado, aparecem na TV com Chávez e cantam seus elogios.

Entre eles, compareceram Gianni Vattimo (estranho, por se tratar de um agudo pensador da pós-modernidade) e, previsível, Toni Negri (ex-mentor das Brigadas Vermelhas e agora militante da antiglobalização). É certo que Chávez promoveu programas sociais relevantes para a Venezuela. Mas são também conhecidos seu uso de petrodólares para influenciar a política de outros países da América Latina, a ameaça de censura que pesa sobre a imprensa venezuelana etc. Aos turistas revolucionários de Caracas, sugiro uma leitura.

Rossana Rossanda acaba de publicar (na Itália) suas memórias, "La Ragazza del Secolo Scorso" (a moça do século passado; Einaudi). Aos 19 anos, Rossanda entrou na Resistência antifascista e no Partido Comunista Italiano, do qual, depois da guerra, se tornou dirigente. Em 1969, foi expulsa do partido por suas posições críticas. Logo, foi fundadora de um jornal, "Il Manifesto", que foi uma voz insubstituível para a esquerda italiana durante os "anos de chumbo" (as décadas de 70 e 80, em que a Itália viveu entre o terrorismo golpista da extrema direita e a atuação sanguinária da extrema esquerda, em particular das Brigadas Vermelhas). Do livro de Rossanda (maravilhoso por sua honestidade), escolho um episódio. Em 1949, Rossanda visitou a União Soviética como membro de uma delegação italiana.

Quase 40 anos mais tarde, em Moscou, ela encontrou uma velhinha que tinha passado a metade de sua vida nos campos de concentração soviéticos. A velhinha lhe perguntou: "Mas por que você veio em 1949 ajudar Stálin?". Rossanda não alega que ela não sabia: Arthur Koestler, David Rousset e George Orwell já tinham levantado suas vozes.

Embora ela tenha sido uma das primeiras a falar, ela questiona seu silêncio e medita sobre as três explicações clássicas.

1) A União Soviética é uma coisa, a Itália é outra: aqui na Itália, precisamos de um mito. Pressuposto: é melhor deixar as bases no escuro, pois elas não entenderiam. Ora, a "tática" de mentir corrompe e destrói a vida democrática interna da organização que a adota.

2) A União Soviética é ameaçada, sua "rigidez" é uma necessidade de defesa. Como aceitar uma necessidade de defesa cujo preço são os próprios valores pelos quais a gente luta? Nos EUA de hoje, por exemplo, as medidas excepcionais contra o terrorismo, se elas comprometerem os valores da democracia, sancionarão, de fato, o triunfo do adversário.

3) Para que servem os direitos políticos sem a segurança de poder comer e dormir ao abrigo de um teto? "Não há liberdade atrás da cortina de ferro?"

"E que liberdade temos nós, a de perder o emprego e passar fome?" Ora, a idéia de uma alternativa entre liberdades "formais" e liberdades "reais" é um dos grandes engodos do século 20. Por que deveríamos trocar a liberdade pelo pão ou o pão pela liberdade? O silêncio da esquerda foi medo de perder votos e medo de que os partidos se desagregassem. São as mesmas razões que tornam nossa palavra covarde na vida cotidiana: o medo de perder o amor do outro e o medo de introduzir uma falha na imagem que temos de nós mesmos. Receitas para o desastre.

Os turistas revolucionários poderiam me responder que é preciso considerar o conjunto da "revolução" venezuelana, sem se perder em "detalhes". Rossanda conta que, em 49, ela não disse nada quando, visitando a galeria Tretjakov, ela descobriu que os quadros de Malevich e de Kandinsky estavam no porão, substituídos por crostas social-realistas.

É um detalhe? Pode ser. Mas suspeito, com Rossanda, que o socialismo tenha se tornado pesadelo também porque ninguém conseguia perguntar por que os quadros de Malevich e de Kandinsky estavam no porão.

15 junho 2006

Um Deus para nossos desejos

Interesse pelo "Código Da Vinci" manifesta a procura de um Deus que goste de nossos desejos e de nossos prazeres

OS EX-VOTOS são objetos oferecidos e expostos em igrejas e capelas para comemorar um favor que foi pedido a Deus ou a um santo e que Deus ou o santo, generosamente, concederam. Em geral, são de três tipos. Há quadros que representam uma situação penosa em que alguém apelou para a divindade, fez uma promessa e foi salvo: uma criança doente, marinheiros num naufrágio, um incêndio.

Quase sempre, comportam a data, a inscrição "V.F.G.A." ("votum feci, gratiam accepi", fiz um voto e recebi uma graça) e o nome do beneficiado. Há pequenas figuras de prata que representam uma parte do corpo que foi curada (perna, olhos, rosto, barriga etc.), um militar que voltou vivo da guerra ou uma casa. E há corações prateados, que expressam uma gratidão menos específica. Os ex-votos mais velhos são removidos das igrejas para dar espaço aos novos.

Alguns chegam às lojas dos antiquários e, enfim, às mãos de colecionadores enternecidos não pela qualidade artística dos objetos (que é mínima), mas por seu valor humano: eles são concentrados de medo, sofrimento, esperança e fé, metáforas poéticas das festas, das penas e das incertezas da existência. Voltei das férias com uma pequena coleção de ex-votos.

O que me surpreende é que o pedido que produziu a promessa é sempre uma necessidade básica: salvar a vida, estancar a doença, garantir um teto. Claro, santo Antônio deve receber votos e promessas de muitos que buscam namoros e casamentos. E conheço alguém que, há tempo (embora sem sucesso), pede a Deus os números certos para ganhar na loteria.

No entanto, esses pedidos mais frívolos não aparecem nos ex-votos. Suponho que, nesses casos, os agradecimentos se escondam nos corações "genéricos" e discretos que mencionei antes. Seja como for, na nossa relação com santos e deuses, pedir socorro é permitido na necessidade, mas é duvidoso e envergonhado quando se trata de satisfazer desejos.

Não é bem-visto atarefar os santos com vontades fúteis, atrás das quais talvez estejam sentimentos pouco nobres (vaidade, cobiça, sede de poder e por aí vai). Pede-se a Deus e aos santos a vida, a saúde e o bem (sobretudo o dos outros), ao passo que, para conseguir o relógio de Brad Pitt naquela propaganda, um pacto com o Diabo parece obviamente mais apropriado. Essa divisão de tarefas tem um custo considerável. Ela se alimenta na idéia de que o cristianismo (se não o monoteísmo, em geral) seria sisudo, necessariamente anti-hedonista: religião não rima com prazer, e os prazeres seriam sempre culpados.

É como se as disciplinas clássicas do controle de si e da moderação (a própria filosofia de Epicuro) tivessem sido substituídas por uma moral que atribui pontos só ao sofrimento e ao sacrifício ou aos júbilos da contemplação e da celebração de Deus e da obra divina. As alegrias da experiência humana (a começar pelos prazeres do corpo) parecem ser ninharias, perdas de tempo. Especialmente no mundo contemporâneo, essa divisão de tarefas deixa ao Diabo um espaço considerável, se não prioritário.

Deus perde terreno nas sociedades urbanas desenvolvidas, regradas pela variedade dos desejos de coisas supérfluas: se ele é nosso interlocutor para as coisas "sérias", a competência em matéria de desejo e prazeres fica com o demônio. Ora, hoje, em Milão, visitar o cenáculo de Leonardo é impossível sem reservas feitas com um mês de antecedência: os turistas escrutam a figura de João e o espaço em forma de "V" que separa Cristo do apóstolo, constatam a ausência do cálice na mesa etc.

Em suma, eles querem saber se é verdade, como diz "O Código Da Vinci", que Cristo se casou com Madalena. Desde o Concílio de Nicéia (em 325), a igreja tenta conciliar a divindade com a humanidade de Cristo. Para os docetistas, o corpo de Cristo era uma ilusão ótica. Para os arianos, a união de homem e Deus era impossível. Para Luciano de Samósata, Cristo era homem, portanto não podia ser Deus. Todos condenados. Será que os turistas de Milão, leitores do "Código Da Vinci", são novos heréticos?

Pode ser. No entanto, talvez eles procurem apenas uma religião para nossos tempos: se eles imaginam um Cristo mais humano do que manda a ortodoxia, se eles levantam a hipótese de que ele tenha amado uma mulher e conhecido os prazeres da carne, é porque gosta riam que não apenas a necessidade mas também o desejo pudesse pertencer a Deus. Não ao Diabo.

14 junho 2006

"O Maior Amor do Mundo"


Nossa capacidade de amar depende sempre do quanto e de como nós fomos amados
ASSISTI A "O Maior Amor do Mundo", o filme de Cacá Diegues que estreou na sexta-feira passada. Cacá Diegues é o grande cineasta naïf do cinema brasileiro. O que quer dizer naïf?
Pela definição do "Aurélio", naïf se diz da arte que é "desvinculada da tradição erudita convencional e de vanguarda, e que é espontânea e popularesca na forma sempre figurativa, valendo-se de cores vivas e simbologia ingênua". A definição é boa, mas precisa de dois acréscimos: 1-) a palavra "ingênuo" vem do latim e designa, antes de mais nada, quem nasceu livre, sem servidão nem escravidão; 2-) há mais um traço crucial da arte naïf: um amor à "vida como ela é", graças ao qual narrar é uma alegria, mesmo quando a história é dramática ou triste.
Esses acréscimos são interligados: a liberdade (formal, retórica etc.) é fruto do prazer de contar, que, por sua vez, é fruto da paixão de viver.

Aparte. Quem quiser verificar (ou contestar) essa definição da arte naïf pode ver o acervo do Museu Internacional de Arte Naïf (mian@museunaif.com.br), no Rio de Janeiro, na r. Cosme Velho, 561, perto do trenzinho que leva ao Corcovado.

No último filme de Cacá Diegues, um astrofísico brasileiro americanizado acaba amando uma moça (talvez duas) da Baixada Fluminense. Ele vai e vem entre um hotel de luxo e um esgoto a céu aberto. Mas o filme não transmite uma mensagem sociológica sobre os encontros e desencontros entre classes. Tampouco é uma denúncia do estado tétrico de nossas periferias.
O filme é livre dessas "obrigações" porque é animado pela vontade de contar a vida, com aquelas misérias e grandezas que são, por assim dizer, interclassistas. Os fracassos e os sucessos do amor, a nostalgia, o peso da morte iminente, o anseio por um sentido são afetos que decidem as cores de nossa existência em qualquer cenário.

É difícil falar de "O Maior Amor do Mundo" sem estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme. Posso propor alguns comentários, deixando a cada um a tarefa de relacioná-los com a história, quando ela se desvendar.

O filme me comoveu porque toca numa verdade que todos sabemos comprovar, a cada dia: nossa capacidade de amar (uma parceira ou um parceiro, os filhos que tivemos ou gostaríamos de ter, o próximo em geral) depende sempre do quanto e de como fomos amados.

Um filho pode ser, para um dos pais, o lembrete da derrota do Brasil no jogo fatídico contra o Uruguai, na Copa de 50, ou, pior, o símbolo da perda irreparável de um outro ser amado. Em certas condições, um filho pode também ser, para um dos pais, o resultado da infidelidade do outro. Não há carinho que adiante: para o filho, o lugar que ele ocupou na história dos pais é sempre um fardo decisivo.

Outro aparte. Hoje, a lei admite o aborto para salvar a vida da mãe: é para não condenar quem nasce a ser o representante da morte de sua própria mãe e, para o pai, o monstro que matou a mulher que ele amava. A lei também admite o aborto em caso de gravidez decorrente de estupro: é para não condenar quem nasce a ser, aos olhos da mãe, o representante da violência que ela sofreu. Que a gente concorde ou não, o que importa é que o legislador, nesses casos, não se preocupa com os pais, mas com o próprio destino do nascituro.

Voltando ao filme: Antônio, que não pôde ser amado na infância (por razões que o espectador descobrirá), não sabe amar ninguém. Na iminência da morte, ele sai à procura da única pessoa que talvez o tivesse amado (sua mãe biológica). É uma procura de alto risco, pois, salvo revelações (o filme tem algumas em reserva), a mãe biológica é, em princípio, quem abandonou seu filho.

A beleza da história contada por Cacá Diegues é que Antônio não procura o amor que não teve como uma consolação no fim de sua vida. Ele procura porque, quem sabe, ainda dê tempo para aprender a amar (uma mulher ou o filho que, até então, era impossível que ele tivesse). O maior amor do mundo é provavelmente o amor materno; não porque uma mãe amaria mais do que um pai, um companheiro ou uma companheira, mas porque o amor da mãe é o amor que melhor pode nos ensinar a amar.

O filme é uma parábola, livre e alegre, sobre essa verdade. Em prêmio, uma sugestão: talvez a vida encontre seu sentido como um aprendizado do amor -aprendizado que pode ser longo ou repentino, da última hora.

07 junho 2006

"Vôo United 93", quatro estrelas

De um lado, homens sem princípios fixos, do outro, princípios fixos sem homens

DURANTE DEZ anos, a cada mês, viajei entre São Paulo e a costa leste dos EUA. Naquele tempo, existia um vôo diurno, via Miami, que eu preferia.

Mais de cem vezes, entrei num avião de manhã cedo, em Nova York ou em Boston, no aperto da classe econômica ou (quando as milhas acumuladas permitiam um "upgrade") na executiva.
Graças ao cartão de fidelidade, entrava na cabine entre os primeiros, sentava e observava o desfile de meus companheiros de viagem: homens e mulheres de negócios, casais e famílias que saíam de férias para a Flórida, idosos que moravam na Flórida e voltavam para lá depois de visitar filhos e netos, e por aí vai.

Pálidos de sono, naquela hora cinzenta, parecíamos uma turma de fantasmas da madrugada, reunidos apenas pelo acaso. Mas tínhamos algo em comum: uma mesma disposição a viajar por mil razões, no fundo (salvo exceções), todas fúteis.

No fim do livro primeiro de "O Capital", Marx descreveu a "acumulação primitiva", espécie de pecado original do capitalismo. O processo se deu entre os séculos 14 e 15, com a extinção do servo feudal e a criação de um exército de homens e mulheres errantes que, para sobreviver, só podiam vender sua força de trabalho pelo mundo afora.

Transformamos aquela violência inicial numa virtude: acabamos gostando de nossa errância. Viajamos facilmente, a lazer, a negócios ou por amor: a dor do desterrado foi compensada pelo anseio de liberdade e por uma fome voraz de novas experiências.

Lembrei-me de minhas turmas matinais de viajantes assistindo a "Vôo United 93", o filme de Paul Greengrass que reconstrói a última viagem do UA 93, na manhã de 11 de setembro de 2001.

O vôo foi o único que não atingiu seu alvo (o Capitólio ou a Casa Branca, em Washington), mas caiu nas planícies da Pensilvânia. Pelos telefonemas que os passageiros conseguiram dar na última meia hora de vôo, sabe-se o seguinte: eles aprenderam que os outros aviões seqüestrados tinham sido lançados contra as torres do World Trade Center e contra o Pentágono e tentaram se reapropriar do avião. Agiram para salvar suas vidas, com um plano improvisado e sussurrado no fundo da cabine. Não agiram em nome de uma idéia ou de um princípio "superior". Foram heróis porque venceram a inércia e o medo que poderiam paralisá-los até o fim, na espera de um milagre improvável.

A confusão na cabine do UA 93 ecoava no despreparo dos controles de vôo e dos militares, surpreendidos pelos eventos e confrontados com decisões impossíveis.

Alguns suspeitam que o UA 93 tenha sido abatido antes que se transformasse numa bomba. E se fosse? A história da revolta de seus passageiros, comprovada por seus telefonemas finais, seria a mesma. Só deveríamos rever (para melhor) nossa opinião de Dick Cheney, o vice-presidente americano que teria dado a ordem: uma decisão desse porte transforma qualquer um numa personagem shakespeariana.

Seja como for, naquela manhã de 11 de setembro, no ar ou na terra, ninguém sabia o que fazer. Ou melhor, sim, alguém sabia o que fazer: os terroristas a bordo dos aviões seqüestrados. Esta seja talvez a oposição que dá uma dimensão exata do conflito com o qual começa este século. De um lado, homens quaisquer, com pequenos ou grandes sonhos e amores, viajantes, sem princípios fixos que os orientem, atormentados pela tarefa de decidir a cada dia e a cada instante, num compromisso, o que é certo e o que é errado. Do outro, homens totalmente dedicados a princípios fixos, ou, talvez, fosse melhor dizer: princípios fixos sem homens.

Os teólogos (muçulmanos, judeus e cristãos) que me perdoem, mas, desde a infância, sempre achei que Abraão, disposto a sacrificar o filho Isaac e incapaz de mandar Deus para aquele lugar, era um grande panaca. Claro, na infância, eu devia me identificar com Isaac. Mas não mudei de idéia.

Moral da história: homens ordinários são capazes de uma estupidez extraordinária quando acham que têm idéias extraordinárias. Em compensação, homens ordinários podem se revelar capazes de gestos extraordinários apesar de ter idéias absolutamente ordinárias.

Não sei por que razão o filme foi avaliado com duas estrelas, apesar dos elogios dos críticos da Ilustrada (Pedro Butcher) e do Guia da Folha (Ricardo Calil). Vou passar a dar notas: "Vôo United 93", quatro estrelas, imperdível.

25 maio 2006

De Jerusalém

O Estado brasileiro não pode ser refém de nosso medo, ou seja, não pode apenas mostrar serviço

O MONTE das Oliveiras, em princípio, oferece uma vista maravilhosa da Jerusalém antiga e do Domo da Rocha, o santuário muçulmano que abriga a pedra de onde Maomé teria subido ao céu por uma noite. Complicação freqüente na Terra Santa: sobre essa mesma pedra Abraão teria preparado o sacrifício de seu filho Isaac, até Deus considerar que o profeta tinha passado no teste e interromper o gesto horrendo que ele mesmo tinha exigido.

Na minha lembrança de 35 anos atrás, o Monte das Oliveiras era um bom lugar para recolher-se e pensar: ele domina o Vale de Josafá -onde, no fim da história, parece que todos nos encontraremos para os acertos finais- e é o lugar onde Cristo teria meditado sobre seu destino, na noite de sua prisão. Hoje, o Monte das Oliveiras oferece a melhor vista do muro da Separação, a muralha de concreto que Israel está construindo para fechar "rigorosamente" a fronteira com a Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina tenta construir novo Estado. As centenas de quilômetros do muro são uma fatia de gruyère. Há trechos provisórios de arame farpado, trechos que ainda não existem e, no próprio muro, abrem-se frestas, por assim dizer, "acidentais".

Por exemplo, a entrada de Belém é uma espécie de fortificação horrorosa com um posto de bloco que evoca o muro de Berlim. Mas é possível entrar em Belém por trás, sem problema algum. A regra é: os judeus israelenses não podem entrar em território palestino, os palestinos não podem entrar em território israelense, só circulam livremente os israelenses de origem árabe, os árabes que são residentes de Israel e os turistas. Detalhe: os árabes (muçulmanos ou cristãos) que têm nacionalidade ou residência israelense, em sua maioria, defendem a existência de Israel, onde querem continuar vivendo; num Estado palestino liderado pelo Hamas, eles seriam perseguidos pelos seus costumes ocidentalizados.

Muitos não acreditam na possibilidade de um Estado palestino, pensam que a melhor solução seja devolver a faixa de Gaza ao Egito e a Cisjordânia à Jordânia. Ora, o muro cria um Estado de fato, que será irreversível na hora de um acordo final. A fronteira fechada estrangula a população palestina, que não tem oportunidades de emprego fora de Israel.

Além disso, o muro é uma grande "oportunidade" econômica: os bairros excluídos de Israel perdem drasticamente seu valor imobiliário, e saber quais serão incluídos se torna um ótimo negócio.

Mas, antes de mais nada, o muro teria uma função, pretensamente crucial, de segurança. Basta sentar-se, numa noite de sábado, nas mesas da rua Yoel Salomão, na Jerusalém moderna, para conviver com a sensação de que, a qualquer momento, uma explosão poderia acabar com os gestos e os jogos dos jovens que fizeram daquela área seu ponto de encontro. A maioria da população israelense é a favor do muro; acredita piamente que, de alguma forma, impedirá a circulação de terroristas.

O medo é um instrumento de domínio clássico e eficiente. Seu defeito principal é que ele torna o próprio poder refém do medo de seus sujeitos: para manter-se e justificar-se, o poder deve mostrar serviço, produzir leis excepcionais ou levantar muros para convencer seu povo de que ele está, como se diz, "tomando providências". Todos sabem que a relativa acalmia destes dias, em Israel, tem a ver com a vitória do Hamas nas eleições palestinas ou com o novo foco na luta interna entre Hamas e Fatah e nada a ver com o "muro-gruyère". Mas o muro é o símbolo abstrato de que o governo está agindo.

Mohammed, o motorista que me esperava na Jordânia, do outro lado do posto de fronteira da ponte xeque Hussein, enquanto atravessávamos postos de bloco defendidos por metralhadoras, perguntou-me de onde eu vinha. Quando respondi "São Paulo, Brasil", Mohammed, bem informado, comentou: "Dangerous place" (lugar perigoso). Pois é, daqui, de longe, resta esperar que o Estado brasileiro não se torne refém de nosso medo, não tome "providências" apenas para acalmá-lo (ou enganá-lo), ou seja, para mostrar serviço.

Entro em férias. A coluna volta em 15 de junho.

18 maio 2006

Em companhia de Freud

Na revista "New Yorker" de 27 de fevereiro de 2006, foi publicada uma excelente reportagem de David Remnick sobre a chegada ao poder do Hamas, na Palestina.

Remnick entrevistou o xeque Nayef Rajoub, que, nas recentes eleições, foi o recordista de votos da Cisjordânia. Rajoub, depois de lamentar que o mundo ocidental "da moda e da mídia" seja "controlado por judeus", declarou: "Freud, um judeu, é aquele que acabou com a moral, e Marx acabou com as ideologias divinas".

Não sei se Freud acabou com a moral (por razões que explicarei a seguir, penso o contrário) e não parece que Marx tenha acabado com as ideologias divinas. Seja como for, Rajoub tem razão de agrupar Freud e Marx numa mesma execração do Ocidente (que é, segundo ele, devasso e perdido).

Para justificar essa reunião de Marx e Freud, não é preciso recorrer às tentativas (típicas dos anos 60 e 70) de juntá-los num único projeto revolucionário que transformaria de vez a subjetividade (a vida cotidiana) e a organização social e econômica de nosso mundo. Ou melhor, para justificar a antipatia do xeque por Freud e Marx, não é preciso ressuscitar Herbert Marcuse.

Marx e Freud são os pensadores modernos que transformaram mais radicalmente nossa maneira imediata, espontânea, de enxergar a realidade. Pouco importa que sejamos freudianos ou marxistas, pouco importa que a gente tenha lido o que Marx e Freud escreveram: depois deles, pensamos diferente. Como?

Espontaneamente, a partir de Marx, enxergamos nossa realidade social, econômica e política como uma arena de conflitos e, a partir de Freud, pensamos a subjetividade como um conflito interno permanente.

Ora, o xeque Rajoub não gosta de conflitos, a não ser que sejam conflitos bem externos -com o povo judeu, por exemplo, ou com o Ocidente. Conflitos em casa ou na cabeça, nem falar. Rajoub tem razão: a influência de Marx sobre seus eleitores seria péssima, a de Freud pior ainda.
Mas voltemos à idéia do xeque, segundo a qual, entre os ocidentais, Freud teria acabado com a moral. Talvez ele esteja estigmatizando, via Freud, a liberdade de nossos costumes sexuais. Mas é possível que sua crítica seja mais "pertinente": de fato, Freud, com suas histórias de inconsciente, de desejos reprimidos, de conflitos psíquicos, tornou o juízo moral muito complicado.

Na distinção entre o bem e o mal, as coisas se atrapalham quando (na aurora da modernidade ocidental) a gente começa a confiar no foro íntimo de cada um e pára de acreditar cegamente nas regras transmitidas pela tradição, religiosa ou não. Elas só pioram quando, com a experiência freudiana, no dito foro íntimo, enfrentam-se pensamentos e afetos contraditórios e de difícil acesso pelo próprio sujeito.

Segundo o xeque Nayef Rajoub, este é o fim da moral: as pessoas, em vez de obedecer ao que foi escrito ou dito pelos anciões, pensam com sua própria cabeça e, além disso, seus pensamentos são conflituosos e confusos. Mas esse "fim da moral" é o começo do que nós chamamos comportamento moral.

Para o xeque, ser moral significa seguir as regras. Para nós, ser moral significa se perguntar o que é moral e o que não é. A resposta pode ser difícil ou impossível; podemos não "saber" nunca se o aborto ou o suicídio assistido são morais: o que importa é que a gente não pare de se interrogar sobre a moralidade desses atos.

Do ponto de vista ocidental, Rajoub é profundamente imoral, porque não se questiona. E Freud é um pensador moral, por ele ter complicado singularmente nosso questionamento.

O xeque Nayef Rajoub não é o único que não gosta de Freud. Em 2004, um entrevistador perguntou a George W. Bush se sua decisão de invadir o Iraque não podia ser inspirada pela vontade de continuar a obra de seu pai ou de mostrar que ele saberia levá-la até o fim. George W. Bush não gostou dessa sugestão "freudiana" e respondeu que ele não iria "se deitar no divã".

Não sei se a decisão de invadir o Iraque foi ou não produzida por algum sintoma da família Bush, mas tendo a pensar que, na hora de decidir sobre a vida e a morte de milhares de pessoas, deitar-se num divã seja uma boa idéia. Não porque isso simplificaria a decisão, mas, justamente, porque a complicaria.

No sábado retrasado, Freud teria feito 150 anos. A data está sendo celebrada -com aplausos e algumas vaias.

Mas, seja qual for nossa opinião sobre a eficácia da psicanálise ou o valor de sua teoria, o fato é que Freud mudou de maneira irreversível nossa experiência de nós mesmos.
Em particular, graças a ele, o foro íntimo, onde fazemos nossas escolhas, tornou-se para sempre um lugar mais complexo e atormentado. Com isso, mesmo se a psicanálise for relegada um dia no museu das terapias ultrapassadas, Freud continuará sendo um luminar da consciência moral ocidental.

Um ditado diz que os inimigos de nossos inimigos são nossos amigos. Ele não é sempre verdadeiro, mas, no caso, nesse começo de século, fico satisfeito de estar em companhia de Freud.

(Estou viajando. Só poderei responder aos e-mails que serão recebidos a partir do 12 de junho próximo.)