07 junho 2007

"Zodíaco"



O anseio paranóico por um sentido enriquece nossa vida. Mas sempre sobram fios soltos

UM AMIGO querido (que morreu 20 anos atrás e foi meu parente durante um tempo) era engenheiro e mestre de obras. Ele viveu em vários lugares dos EUA e, quando eu o conheci, morava em Houston, Texas. Chamava-se Robert (Bob) Bond (nada a ver com Bob Bond, o artista gráfico).

Aprendi com ele um monte de coisas. Em particular, ele me ensinou a pescar. Mas é por uma outra razão que me lembrei dele assistindo a "Zodíaco", o filme de David Fincher (o diretor de "Seven") que estreou na sexta passada.

Nas horas vagas, Bob Bond era artista; ele produzia (e oferecia) suas obras só para amigos e próximos, um quadro para cada um. Todos seus quadros se chamavam, numa mistura de inglês e espanhol, "Fonction Passado" e se diferenciavam pela numeração. Eu, por exemplo, ganhei "Fonction Passado 11".

Bob Bond procedia assim: observava o destinatário do quadro durante um tempo e acumulava objetos descartados que (ao seu ver) tinham um relação com a história do sujeito. Logo, fixava esses objetos a um painel de madeira, pintava e, toque final, conectava os objetos entre si com um fio. O resultado final se parecia com a teia em que uma aranha teria preso, de maneira múltipla e complexa, os restos de uma vida.

Quando me entregou meu quadro, Bob explicou que o fio indicava que os elementos de nossas vidas são mais interligados do que parece.

Como havia, no quadro, alguns fios que permaneciam pendurados, desconectados, perguntei o porquê, e Bob me disse, com seu bom senso habitual, que, numa vida, sempre sobram "loose strings", fios soltos.

Pois bem, "Zodíaco" conta a história real de um policial, de um repórter e de um cartunista que, em San Francisco, nos anos 70, tentaram identificar (e prender, claro) um assassino em série, que se autodenominava Zodíaco.

O filme é a tocante história de três vidas arrebatadas pela procura da verdade ou, talvez fosse melhor dizer, pela paixão do sentido. Uma investigação policial (ainda mais no caso do Zodíaco, que deixava propositalmente pistas e mensagens cifradas) é um pouco como um trabalho de Bob Bond: uma vez achadas as peças, é preciso interligá-las. Quase sempre, aliás, quem investiga crava na parede documentos e lembretes, peças do quebra-cabeça na espera do momento em que se tornará possível enxergar o fio que as junta, resolvendo o enigma.

Nos primeiros anos de minha psicanálise, era isso que eu fazia. Meu quarto-e-sala parecia uma central de investigações: bilhetes com relatos de sonhos, pesadelos e devaneios, fragmentos de lembranças, intuições ou interpretações enchiam as paredes como indícios policiais dos quais esperava que revelassem, um dia, seus laços arcanos e, enfim, o sentido da minha vida.
Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia que o tempo inicial de uma psicanálise é uma espécie de paranóia, uma "paranóia dirigida".

O pensamento paranóico é animado pela convicção de que tudo é conectado, de que deve haver, em suma, uma solução do enigma, que nos diria por que somos quem somos e por que o mundo é como ele é.

Aparte: desse ponto de vista, os protagonistas de "Zodíaco" são estranhamente contidos; procurando um assassino chamado Zodíaco, nunca se aventuram na tentativa de encontrar a revelação do culpado na disposição dos astros.

De uma certa forma, o entusiasmo do pensamento é sempre um pouco paranóico. Mas Lacan dizia também que uma psicanálise dá certo quando a paranóia se esgota, e conseguimos enfim encarar a constatação, um pouco decepcionante e assustadora, de que nada se explica até o fim: há vasos de flores que caem na nossa cabeça sem ter sido empurrados por ninguém, nem por nós nem pelos outros nem pela providência divina nem por malefício diabólico.

Nisso, "Zodíaco", o filme, é perfeito, pois nos conta uma procura parecida com a nossa, até no detalhe (crucial) da frustração final. Não há conclusão definitiva, só indícios. Resta que a procura do sentido (que não foi encontrado) deu sentido, durante um tempo, à vida dos investigadores. Um pouco de paranóia enriquece nossa vida.

Agora, como diria Bob Bond, por mais que a gente teça nossa teia de aranha, sempre há fios soltos.

Saio de férias até julho. É um jeito de falar: na verdade, viajo para a terra de minha infância para tentar tecer o fio que talvez ligue alguns cacos da minha história.

31 maio 2007

Vidas bem vividas


Há vidas que despertam o aplauso. Elas merecem ser contadas, pois foram vividas sem medo

N A SEMANA passada, o teatro da Federação do Comércio do Estado de São Paulo mudou de nome. Chama-se agora teatro Raul Cortez.

Na realidade, a mudança já tinha acontecido na estréia da peça que está atualmente em cartaz no teatro, "Às Favas com os Escrúpulos", uma comédia de Juca de Oliveira, com a direção de Jô Soares e uma imperdível Bibi Ferreira. Ninguém melhor que um ator como Jô Soares para dirigir uma grande atriz, para deixá-la livre de dizer tanto (e de ser irresistivelmente engraçada) com uma atuação quase pudica. (Aparte. Atua também na peça Adriane Galisteu, que é sempre julgada como se o fato de ser apresentadora e modelo fosse um handicap; pois é, ela está ótima).
Enfim, na estréia da peça, na sexta retrasada, antes que começasse o espetáculo, foi projetado um breve filme de lembranças de Raul Cortez, que morreu há pouco menos de um ano, aos 73. No fim do filme, a gente aplaudiu longamente. Logo depois, aplaudimos a entrada em cena de Bibi Ferreira.

No meu caso (e imagino que fosse assim para muitos outros na platéia), não se tratava apenas do aplauso elogioso pela maestria da atriz -esse, obviamente, veio no fim da peça. As palmas iniciais me lembraram as que talvez ainda acolham, a cada noite, a aparição de Paulo Autran na cena do "Avarento": um aplauso que parece ser de agradecimento. Pelo quê? Não sei se Diderot (no "Paradoxo sobre o Comediante") tinha razão ou não. Pode ser que, como ele propunha, o ator seja um intelectual frio que silencia e controla suas paixões para estudar as expressões do sentimento humano a fim de reproduzi-lo. Pode ser que, ao contrário, o ator se esgote a cada vez, vivendo intensamente emoções que ele não imita, mas das quais ele se apropria.

Tanto faz. É provável que não haja regra, e a coisa dependa do ator, do papel e do momento. De qualquer forma, o ator se esgota ou se controla para nos oferecer o espetáculo da diversidade e da complexidade de paixões que são as nossas e que, sem o ator, não saberíamos reconhecer. O ator, de uma maneira ou de outra, revela-nos a nós mesmos. E podemos lhe ser gratos por isso.
Mas há mais. Talvez, o aplauso suscitado pelo breve filme sobre Raul Cortez tivesse também outra significação, igualmente presente no aplauso da entrada em cena de Bibi Ferreira ou de Paulo Autran -os quais, claro, estão bem vivos entre nós (e se espera que assim continuem por muito tempo), mas numa idade que encoraja a avaliação do caminho que eles percorreram. Talvez trate-se, nesses casos, do aplauso por uma vida bem vivida.

Por que, às vezes, estou a fim de aplaudir uma vida? Esse tipo de aplauso não expressa apenas a gratidão e o elogio reservados a quem se dedicou generosamente aos outros nem o encômio destinado a quem deixou no mundo uma obra ou uma marca duradouras. Tampouco estou a fim de aplaudir porque uma vida me parece ter alcançado uma forma qualquer de bom êxito material ou espiritual.

Tudo isso, claro, pode alimentar minha admiração, mas o aplauso, justamente por seu caráter teatral, é desencadeado por algo mais, algo que aparecia no pequeno filme sobre Raul Cortez e que poderia ser resumido assim: aquela vida vale a pena ser contada.

Não é fácil definir o que faz que uma vida tenha essa qualidade estética ou poética que lhe dá, por assim dizer, a grandeza e a dignidade de um romance. Não é a felicidade nem o sucesso, nem o caráter extraordinário dos eventos; uma vida pode ser uma série de fracassos, mancadas e tristezas, pode também ser trivial e, no entanto, valer a pena ser contada.

Talvez a qualidade poética de uma vida que desperta o aplauso esteja na sensação de que seu protagonista foi animado por uma obstinada fidelidade ao desejo: seja qual for a distribuição das cartas pelo acaso ou pelo destino, ele jogou bem porque jogou sem medo de jogar. Na hora de nos despedir de alguém que nos é querido, choramos nossa perda, e é normal que seja assim. Mas deveríamos festejar, quando der, a "beleza" de sua vida. E chorar, quando for o caso, as vidas que se perdem não pela morte, mas pela morte-em-vida -as vidas, em suma, dos que não conseguiram ser atores de suas próprias vidas.

Esta coluna é escrita em homenagem a Octavio Frias de Oliveira, com quem, infelizmente, ao longo destes anos, apenas cruzei. Mas fiquei um tempo lendo a história de sua vida.

17 maio 2007

Devaneios papais



Faz tempo que, em vez de um discurso moral, católicos ouvem litanias em defesa da "doutrina"

NA VISITA do papa, aconteceu o que era previsto: o trânsito de São Paulo piorou, frei Galvão virou santo, o pontífice estigmatizou o aborto, o divórcio, o "hedonismo" contemporâneo, o marxismo, o capitalismo, as "seitas", as "religiões pré-colombianas" etc.

A surpresa foi o comportamento do presidente Lula e do ministro da Saúde, José Temporão: ambos foram perfeitos, defendendo a laicidade do Estado a que eles servem. Lula, o cidadão, poderia beijar o anel do papa; Lula, o presidente, não podia e não o fez. Temporão evitou o debate moral sobre o aborto e lembrou que se trata, para ele e para o governo, de um problema de saúde pública.

Sem diminuir o mérito de ambos, a tarefa do presidente e do ministro foi facilitada pela trivialidade do desempenho papal.

Escutei e li as falas do pontífice ao longo destes dias com um tédio crescente: nunca fui surpreendido por uma daquelas marcas de tormento, de conflito e de contradição que são, para mim (e não só para mim), os indicadores mínimos de uma disposição moral diante da complexidade do mundo. As exortações papais eram circulares administrativas, tão previsíveis e preestabelecidas quanto as preces do rosário. Ora, o rosário pode agradar a Deus e ajudar aos que, na devoção, não encontram suas próprias palavras, mas, certamente, a repetição das contas não estabelece a autoridade moral de ninguém.

Em sua primeira visita papal ao Brasil e à América, o papa passou a noite no mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo. Não há lugar melhor para refletir sobre a estranha história que, em poucos séculos, transformou uma aldeia indígena num acampamento bandeirante e, enfim, numa das maiores metrópoles do mundo. Em vez de preocupar-se com o hábito adolescente de "ficar" (êta questão insossa para suplemento de domingo em falta de pauta), o papa poderia ter confiado nos jovens e adotado as mil perguntas "ingênuas", profundas e perplexas que justamente passariam pela cabeça de qualquer adolescente ao transcorrer uma noite no mosteiro (por mais que, nas festas, ele "fique"): perguntas sobre o que foi ganho e o que foi perdido, sobre o que é a América, sobre o rumo de nossa história, sobre a dificuldade de dizer onde estiveram (e estão) o bem e o mal. Mas, pelo que o papa manifestou da experiência das noites passadas no mosteiro, ele deve ter dormido mesmo.

Além de repetir as palavras de sempre sobre a santidade da vida desde o embrião, o papa, por uma vez, poderia ter pensado numa jovem estuprada ou numa mulher (devidamente casada) incapaz de alimentar seus três, quatro ou cinco filhos, ambas batendo os dentes pela dor e pela infecção que já começa, na clínica improvisada de um abortista apressado.

Quem sabe, sem desistir de seus princípios, ele pudesse se perguntar onde estaria, naquela hora, o Cristo dos evangelhos: só na porta, desdenhoso, jogando anátemas, ou também (sem contradição) ao lado das mulheres, secando seu suor e falando palavras de conforto?

Da mesma forma, não sei se o Cristo dos evangelhos, passeando por nossas bandas nos anos 80 (numa ficção à la Dostoievski), teria distribuído camisinhas na entrada de uma sauna gay ou seringas descartáveis nos becos preferidos pelos heroinômanos. Talvez não, mas imagino que ele teria estado ao lado dos moribundos nas mil enfermarias, pelo mundo afora, em que os médicos não sabiam o que fazer. Também imagino que, nesta ocasião, o Cristo teria meditado sobre o coquetel de liberdade (sem a qual os atos não valeriam nada), desamparo, razão e impulsos que é a condição humana.

Como notaram Fernando de Barros e Silva, Fernando Rodrigues e Sérgio Costa na Folha de segunda, faz tempo que os católicos não ouvem um discurso moral que não seja apenas a litania abstrata do que parece recomendável para a defesa da doutrina e a perpetuação da Igreja como instituição.

Eu esperava o quê? Um blablablá de tolerância modernosa? Não; apenas um discurso cuja origem fosse, reconhecidamente, aquele lugar íntimo, dividido e complicado ao qual cada um de nós recorre na hora de tomar as decisões que importam.

Alguém dirá que, justamente, o papa não fala desse lugar. Ele não é um homem, é o papa - prova disso, ele é infalível.

Pode ser, mas, talvez seja por isso mesmo que o papa tenha passado, falado, e nada tenha acontecido.

Um desperdício.

10 maio 2007

Ajudar é difícil

O que fazer para ajudar um vira-lata desconfiado que queira atravessar, à noite, a av. Sapopemba?

NUMA MADRUGADA recente, entre sexta e sábado, levei um amigo para sua casa na zona leste de São Paulo. No fim, às duas da manhã, encontrei-me estacionado na avenida Sapopemba, na frente do terminal rodoviário, só que do outro lado, no sentido centro-bairro. Chovia uma chuva de inverno, fina e contínua.

Naquela altura da avenida, há dois barzinhos com samba ao vivo e, ao lado, uma carrocinha de churrasco.

Na calçada, por causa da chuva, só havia dois bêbados idosos que festejavam balançando precariamente.

No meu retrovisor esquerdo, apareceu, entre os carros estacionados atrás de mim, um vira-lata preto e magro, com a pata anterior direita quebrada. Ele tentava atravessar a avenida. Aventurava-se, mancando, na pista, mas, assustado pelos faróis dos carros que chegavam rápidos e sem interrupção, ele recuava precipitadamente. Duas vezes seguidas, fechei os olhos, imaginando que o cachorro seria esmagado. Mas ele conseguiu voltar atrás a tempo.

O que havia do outro lado da avenida que o levava a tentar aquela travessia suicida? Talvez um restaurante amigo que deixa os restos para os vira-latas, talvez uns amigos ou uma cadelinha com a qual ele sonhava. O fato é que ele queria atravessar.

Eu não tinha guarda-chuva. Melhor assim: os vira-latas desconfiam de qualquer objeto que se pareça com um bastão. Desci do carro e chamei sua atenção: "Pssss, cachorro". Olhou para mim, perplexo: "O que este idiota quer de mim?".

Se tentasse parar o trânsito para ele atravessar, acabaríamos ambos esmagados. Ou talvez só eu, o que tampouco seria um desfecho ideal.

Usar meu cinto como uma coleira e ajudá-lo a atravessar parecia uma boa idéia, só que, antes que conseguisse prendê-lo, ele me morderia, com razão. Ganhar sua confiança para que aceitasse atravessar caminhando do meu lado, como faziam meus cachorros, levaria um mês de treino.

Decidi criar uma diversão que o convencesse a ficar deste lado da avenida. "Cachorro, vem cá", chamei. E fui me aproximando da carrocinha do churrasco, fazendo o necessário para que ele não me perdesse de vista. Os dois bêbados deviam achar que estava mais bêbado do que eles. Nesta altura, o cachorro mantinha uma distância prudente, mas estava interessado e tinha desistido de atravessar.

Comprei dois espetinhos, agachei-me e dispus um primeiro pedaço de carne sobre um guardanapo de papel, no chão. Recuei, agachado, para que ele se sentisse seguro e avançasse para abocanhar a carne. Avancei para servir o segundo pedaço, e ele recuou. Ficamos nessa coreografia, ele para trás, eu para frente e inversamente, até o fim dos pedaços que tirei dos espetos. Estiquei minha mão esquerda.

Desta vez, ele avançou e cheirou minha mão. A articulação da pata quebrada era literalmente virada no sentido errado. Não tentei acariciá-lo, algo me dizia que ele acharia meu gesto abusivo, agressivo.

Poderia ligar para uma colega psicóloga que se ocupa da zoonose nos animais de rua. Mas, se ligasse, às duas da manhã, por esta "urgência" na avenida Sapopemba, ela se preocuparia mais comigo do que com o cachorro; além disso, o que ela poderia fazer que não destinasse o cachorro a uma morte que ele certamente não estava pedindo?

E se eu levasse o cachorro para casa? Talvez um veterinário conseguisse endireitar sua pata. Talvez nos tornássemos bons amigos. Mas quem diz que o cachorro quisesse se tornar um enfeite doméstico? E eu ia fazer o quê com todos os próximos cachorros que encontraria no meu caminho? Fundar um abrigo?

Disse: "Cachorro, não atravessa agora, entendeu? Fica deste lado, que é melhor". Subi no carro e saí lentamente, de olho no retrovisor para ver se meu amigo voltava ou não às suas tentativas perigosas de atravessar a avenida. Avancei até o retorno e tomei o caminho do centro. Ao passar de novo na frente da rodoviária, cruzei os dedos, esperando que ele não estivesse morto no meio da pista. Não estava. Não o vi mais.

No longo caminho de volta, liguei a calefação ao máximo para secar minha roupa e meus ossos encharcados. Estava com a sensação de ter protagonizado uma espécie de frustrante parábola sobre a dificuldade de ajudar o próximo.

Tudo bem, daqui alguns dias, não vai sobrar nada daquela noite. Só esta coluna e, no meu carro, o cheiro deixado pelo longo trajeto com minha roupa úmida, um cheiro de cachorro molhado.

03 maio 2007

"O Sol se Põe em São Paulo"

O barulho de fundo da metrópole americana é o burburinho de mil histórias engasgadas

O ÚLTIMO romance de Bernardo Carvalho, "O Sol se Põe em São Paulo" (Companhia das Letras), começa com a fotografia de Antônio Gaudério que se estende por capa e contracapa: é uma visão de São Paulo coberta por uma nuvem que, ao mesmo tempo, oprime e engrandece a cidade (como se sua existência fosse um desafio).

Logo, acontece o seguinte: num restaurante do bairro da Liberdade, a senhora japonesa que está no caixa pede a um cliente (o narrador) que ele escute e escreva a história de sua vida no Japão. A maior parte dos fatos narrados acontece, portanto, no Império do Sol Levante, uma parcela do qual veio se pôr em São Paulo.

Os romances de Bernardo Carvalho ("Nove Noites", "Mongólia") são janelas sobre universos distantes.

Ler é um pouco como alistar-se na marinha: a gente viaja e vê o mundo.

Desta vez, não é diferente: o leitor descobre um Japão sutil, contraditório e inesperado. No entanto, para mim, o tema do livro não é o Japão, é São Paulo ou qualquer metrópole das Américas, do Norte ou do Sul.

Raramente, aliás, um romance me pareceu captar de maneira tão comovedora a essência da metrópole americana.

Nos primeiros dias depois da leitura, jantando com amigos nos restaurantes de sushi da Liberdade, tornei-me um péssimo comensal. Os amigos conversavam, e eu não prestava atenção, ficava olhando (discretamente) para a mulher atrás do caixa do restaurante. Era japonesa? Nissei, sansei? Onde (nela, nos pais ou nos avós?) e como teria acontecido ou estaria acontecendo o choque da imigração? De qual história de seu passado ou dos ascendentes ela seria a depositária silenciosa?

Amo as metrópoles americanas (do Norte ou do Sul, dá na mesma) por elas serem os bancos de areia onde jazem, respirando a duras penas, os sonhos de milhões de homens e mulheres, como baleias encalhadas.

Não esqueço meus passeios, em tardes de verão dos anos 60, pelas ruas do Queens, do Brooklyn ou do Bronx: sentados em cadeiras de plástico ou nos degraus que levam à porta dos edifícios, com uma cerveja gelada ou um sorvete na mão, lá estavam os representantes ou os restos de fantasias de uma vida melhor, mais livre, mais rica e mais feliz. Da Ásia, da África, da América Central ou do Sul, da Europa, seus pais, avós, bisavós ou seus ascendentes longínquos tinham fugido a miséria, a opressão, a perseguição ou simplesmente o tédio e seguido um sonho de glória, paz, liberdade, bem-estar e riqueza. Para outros, descendentes de escravos, no lugar do sonho, devia estar o pesadelo do rapto, do cativério e do transporte forçado (com a obrigação de inventar novos sonhos, de zero).

Essas fantasias (frustradas ou realizadas) assim como os pesadelos de quem foi trazido à força são, antes de mais nada, histórias que raramente são contadas. Talvez esta seja uma condição necessária da América, um preço implicitamente cobrado na entrada: um esquecimento da vida antes da viagem, do trajeto, da ruptura e também dos sonhos (bons ou ruins, conscientes e inconscientes) que decidiram ou acompanharam a viagem.

O barulho de fundo da metrópole americana, aquele murmúrio indefinível que você escuta sempre, quando abre a janela, mesmo de madrugada, não é o dos carros que ainda circulam, da atividade da cidade "que nunca dorme"; talvez seja o burburinho de milhões de histórias engasgadas, que tentam se dizer e não conseguem.

Em suma, o sol levante de Setsuko, a protagonista de Bernardo Carvalho, não é o único que se põe em São Paulo e nas outras metrópoles americanas.

Há uma estranha proximidade entre o trabalho do terapeuta e o do escritor (talvez fosse melhor dizer escriba), que tem a incumbência de escutar, talvez decriptar (ou, por que não, inventar) as histórias que os outros são impedidos de contar.

Um dia, ainda escreverei um ensaio intitulado "O Terapeuta Americano" - imitando o empreendimento de Ralph Waldo Emerson quando escreveu "The American Scholar" para mostrar a especificidade da condição do intelectual americano (nos "Ensaios", Martin Claret).
A idéia central será, sem dúvida, que, nas Américas, não há acesso verdadeiro à subjetividade sem abrir as malas de quem veio, ou seja, sem reconstruir a vida pregressa e a história dos sonhos, da tragédia ou da agonia da emigração (a do sujeito ou a de seus ascendentes que emigraram).

26 abril 2007

Sobre o atirador de Virginia Tech

A procura de explicação revela mais sobre nós do que sobre o objeto de nossas investigações

1) SOU uma pessoa razoavelmente sociável. Dispenso e retribuo sorrisos e banalidades ("Oi", "Tudo bem?") nos elevadores, nos vestíbulos e mesmo na rua.

Mas há pessoas para quem o exercício dessa socialidade "básica" é forçado ou intoleravelmente hipócrita. Para um amigo monge beneditino, o uso da linguagem é permitido só quando a gente tem algo a dizer que seja crucial para o destino da alma: o silêncio lhe parece quase sempre mais próximo da verdade do que a falação (sobre a virtude do silêncio, aliás, acaba de sair "Silêncio e Contemplação - Uma Introdução a Plotino", de Gabriela Bal).

Pois bem, desde o massacre de Virginia Tech, leio e escuto que o atirador era taciturno e silencioso, não devolvia saudações nem olhares. Conclui-se que ele era uma pessoa "anti-social".
É normal: quando acontece um horror, dormimos melhor com uma explicação. Mas, freqüentemente, a procura das explicações revela mais sobre nós mesmos do que sobre o objeto de nossa investigação. No caso, a explicação pelo caráter taciturno do atirador revela sobretudo que somos tão preocupados com nossa agressividade que preferimos afogá-la num rio de palavras vazias. Quem se cala nos perturba porque seu silêncio evoca tudo o que nós mesmos tentamos esconder atrás de nossa barulhenta "cordialidade" (inquietudes, medos, raivas, lubricidade etc.).

Ora, quando a "sociabilidade" é um jogo obrigatório, quem não joga está fora, é um excluído. E, numa sociedade que valoriza a inclusão, econômica ou convivial, a exclusão é sempre explosiva.

2) Alguns comentadores entenderam que o atirador produziu e tornou público um vídeo para tornar-se uma "celebrity" após a morte. Por isso, segundo eles, as imagens não deveriam ser mostradas pela televisão. De novo, a "explicação" é uma projeção de nossa própria paixão pelos "cinco minutos de fama": atribuímos ao atirador uma vontade da qual nos envergonhamos.
De fato, ele me pareceu sobretudo preocupado em declarar que se orgulhava de seu ato. Mais um desaforo? Não sei: nas culturas orientais (veja-se o clássico de Ruth Benedict, "O Crisântemo e a Espada", Perspectiva), a vergonha é o grande regulador social; e o melhor remédio contra a vergonha é o orgulho.

3) O atirador evocou o "exemplo" de Cristo. Loucura? Em termos. Max Weber (em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", Companhia das Letras ou Martin Claret) mostrou que o sucesso econômico do protestantismo (nos EUA, por exemplo) se deveu à idéia de que os predestinados à salvação eterna seriam também os eleitos na vida terrena: o sucesso é bom e demonstra que Deus nos ama.

Essa idéia estimula o crescimento, mas gera inevitavelmente, no "perdedor", o anseio de uma revanche já neste mundo, uma revanche para provar que a graça divina não o esqueceu.

4) Em 1996, eu ensinava a patologia das migrações na Universidade da Califórnia em Berkeley. A chegada de um estudante coreano ou chinês no departamento de antropologia era uma raridade. Em geral, os imigrantes orientais não falam nem aprendem inglês, o que torna problemática, para seus filhos, a escolha de uma disciplina humanística; as carreiras científicas são o caminho mais rápido de integração.

O atirador de Virginia Tech (cujos pais não falam inglês) estava estudando literatura inglesa. O conflito entre sua origem e sua vontade de se integrar devia ser dramaticamente agudo.

5) A primeira reação, nos EUA, foi o protesto contra a facilidade de adquirir armas. Mas, para o lobby das armas, o evento prova o contrário: se cada aluno pudesse carregar sua arma (com a naturalidade com a qual a gente carrega um celular), um atirador mataria só um ou dois, antes de cair numa chuva de balas.

6) Mais importante: naquela manhã fria, um professor, Liviu Librescu, 76 anos, judeu de origem romena, sobrevivente do genocídio, não hesitou em dar a vida para impedir que o assassino entrasse na sala de aula. Com isso, ele permitiu que vários estudantes se salvassem. Somos fascinados pelas "razões" que levam alguém a cometer um horror. Por exemplo, há estantes de livros tentando entender por que alemães comuns se tornaram, durante o nazismo, assassinos. Seríamos justos com nossa espécie se, às vezes, colocássemos a pergunta inversa: como é possível que, no horror, quase sempre haja alguém que faz a coisa certa?

19 abril 2007

Somos culpados, mas de quê?


Pesquisa mostra que a culpa mais dolorosa é o lamento por não termos agido como queríamos

A MELHOR polícia do mundo não conseguiria manter a ordem se respeitássemos as leis só por medo da punição. A sociedade funciona (mais ou menos) porque infrações e crimes despertam não só a PM e a PF mas também nossa consciência: a perspectiva do arrependimento nos inibe.
O problema, como Freud constatou, é que a gente se culpa mais do que é necessário: enxergamos crimes onde não há, consideramos que nossas vagas intenções e nossos sonhos noturnos já são delitos e nos castigamos para aliviar os tormentos de nossa culpa. Seja como for, até os anos 60, o sentimento de culpa -necessário ou patológico e excessivo- parecia ser só isto: o arrependimento por ter desrespeitado uma norma ou uma autoridade.

Em seu seminário (um pouco críptico) de 1959-60 ("A Ética da Psicanálise", Zahar), o psicanalista francês Jacques Lacan propôs algo diferente: a culpa mais relevante e mais sofrida surgiria não por termos desobedecido a uma norma, mas por termos neglicenciado nosso próprio desejo, por termos desistido de agir como queríamos. Podemos nos arrepender de nossas transgressões, mas lamentamos, mais amargamente, as ocasiões perdidas.

Era uma pequena revolução no mundo da clínica. De fato, o sentimento de culpa é onipresente (ou quase), e as transgressões, em geral, são poucas. É lógico, portanto, que a culpa que nos atormenta seja sobretudo um efeito de nossa covardia (que é crônica), e não de nosso atrevimento (que é raro).

Pois bem, no ano passado, Ran Kivetz e Anat Keinan publicaram uma pesquisa que confirma experimentalmente a intuição de Lacan (que, claro, eles não leram): "Repenting Hyperopia: an Analysis of Self-Control Regrets" (Hipermetropia Pesarosa: uma Análise dos Arrependimentos do Autocontrole, "Journal of Consumer Research", vol. 33, setembro 2006).

Em três protocolos de pesquisa, Kivetz e Keinan confirmaram o seguinte: 1) todos condenamos as decisões que só enxergam o prazer imediato sem levar em conta as conseqüências futuras (desde comer a segunda fatia de bolo ou gastar dinheiro que não temos até cometer um pecado pelo qual responderemos na porta do purgatório); 2) mas essa condenação é fugitiva, efêmera: a longo prazo (depois de um ano, por exemplo), considerando a decisão que nos pareceu sábia (não comer a segunda fatia de bolo, não gastar, não pecar), o que prevalece é o arrependimento por ter perdido uma ocasião, por não ter agido segundo nosso impulso ou desejo.

Na metáfora ótica usada por Kivetz e Keinan, sabemos que nossos impulsos são míopes (só enxergam a satisfação do momento) e achamos certo agir como hipermetropes (o que, em geral, significa deixar de agir, focalizando e receando as conseqüências afastadas de nossos atos); a curto prazo, nós nos felicitamos por ter pensado no futuro, enquanto, a longo prazo, lamentamos ter sido hipermetropes e desperdiçado satisfações que estavam ao nosso alcance imediato.
Kivetz e Keinan sugerem uma explicação: a longo prazo, os atos passados são integrados numa espécie de balanço de nossa vida, em que devemos decidir se a corrida foi boa, se valeu a pena. Nesse balanço, o lamento pelas coisas que queríamos e não ousamos fazer pesaria mais que o mérito das "sábias" decisões que comandaram nossas desistências.

De qualquer forma, o fato é que o arrependimento por não ter escutado o desejo parece falar mais alto e por mais tempo do que o arrependimento por ter ousado transgredir. Seria aventuroso concluir que, para não se arrepender no futuro, a gente deveria atuar qualquer desejo.

Mas resta uma suspeita, ou melhor, uma lição: freqüentemente, as razões que mantêm nosso comportamento nos padrões esperados (obediência à ordem social, a nossos pais, à tradição etc.) são apenas racionalizações de uma covardia da qual nos arrependeremos um dia.

Para entender plenamente o alcance da pesquisa, esqueça a segunda fatia de bolo, os gastos e os pecadilhos (exemplos triviais usados na experiência) e pense em decisões cruciais de sua vida: uma mudança de carreira à qual você renunciou porque teria desapontado ou preocupado seus próximos, uma paixão amorosa que você calou porque teria encontrado a desaprovação dos mesmos. Pois bem, a longo prazo, essas desistências doem mais do que doeria a culpa por ter transgredido normas e expectativas, seguindo nosso desejo.


12 abril 2007

O hedonismo em "Roma" e entre nós

Somos demasiado preocupados com nossa sobrevivência para sermos hedonistas

NO DIA 9 de maio, chega o papa. Provavelmente, em um de seus discursos, ele criticará a busca imoral pelo prazer imediato. Tudo bem, criticar o hedonismo da gente é uma coisa que os papas fazem.

Fato curioso: se, nessa ocasião, Bento 16 precisasse de citações, ele disporia de uma ampla escolha de autores laicos. De Zygmunt Bauman a Colin Campbell, passando por uma coorte de excelentes pensadores contemporâneos, quase todo mundo parece convencido de que nossas vidas sejam regradas pela busca do prazer (aí residiria, aliás, a origem de muitos de nossos males).

É uma trivialidade comum a religiosos e ateus, racionalistas e místicos: o hedonismo nos corrompe, torna-nos pequenos, covardes e, claro, consumistas. Será que é verdade? Uma coisa é óbvia: somos demasiado preocupados com nossa sobrevivência para sermos hedonistas.

Um pé na balança e um olhar inquieto para os números do colesterol na hora de abocanhar chocolate ou queijo, um ou dois preservativos (sobrepostos) no momento de transar (de preferência no sábado, que amanhã dá para descansar), preocupados com nossa reputação na hora de escolher o lugar de um encontro furtivo, apreensivos na hora de gastar, envergonhados, temerosos e arrependidos já antes do ato: esses somos nós, os pretensos "hedonistas" modernos.
Os únicos hedonistas, entre nós, são poucos e marginalizados: heroinômanos queimando o organismo para viver um orgasmo permanente ou promíscuos procurando raivosamente o gozo, noite adentro, nos escassos e precários lugares da orgia.

O papa, em geral, opõe o suposto "hedonismo" contemporâneo à "cultura da vida". É a maneira que ele encontrou para defender casamento e procriação contra divórcio e aborto.
O estranho é que os outros (que não são papas) não percebam que a "cultura da vida" já ganhou faz tempo: a preservação de nossa existência é, para nós, infinitamente mais importante do que a procura do prazer. Somos higienistas, isso, sim. Mas não hedonistas.

Nestes dias, em uma conversa sobre o tema, um amigo me lembrou, com razão, que o argumento laico contra a procura dos prazeres coincide com a convicção (constante na cultura ocidental) de que estaríamos sempre vivendo uma decadência a partir de uma "idade de ouro" perdida (o livro de A. Herman "A Idéia de Decadência na História Ocidental", ed. Record, é, nesse sentido, muito instrutivo).

O mesmo amigo "citou" o clássico de Edward Gibbon ("Declínio e Queda do Império Romano", Companhia das Letras): Roma era forte e maravilhosa quando seus homens eram dominados pelos grandes ideais republicanos. A sede de poder e prazeres levou a cidade ao declínio.

Na hora, eu não disse nada, mas, cá entre nós, esse lugar comum tem pouco a ver com Gibbon. A tese segundo a qual o luxo e a luxúria enfraquecem os cérebros e os músculos é uma idéia "pop": ela orienta, por exemplo, o filme "300", versão cinematográfica dos quadrinhos de Frank Miller.

Mas, para Gibbon, o maior responsável pelo declínio romano é o cristianismo: a promessa da vida eterna tornaria vãos os sacrifícios extremos e mesmo os esforços na procura dos prazeres e do poder, e a moral cristã sugeriria um pacifismo que inibe o uso da força. Para Gibbon, de uma certa forma, foi o anti-hedonismo cristão, não o hedonismo, que acabou com Roma.

Seja como for, o relato de Gibbon começa no segundo século de nossa era, depois do império de Marco Aurélio. Será que até então Roma era grande porque os romanos fugiam dos prazeres? Nada disso.

Fique em casa nas próximas noites de domingo. Estréia no dia 15, na HBO, a segunda temporada do seriado "Roma". A primeira (12 episódios imperdíveis, que cobrem o breve período entre a volta de César da Gália e seu assassinato no Senado) está disponível para locação.

"Roma", o seriado, é uma reconstrução histórica extraordinária, não pela verossimilhança de monumentos, costumes e batalhas (isso é fácil), mas porque nos mostra perfeitamente um mundo distante do nosso, um mundo em que sobreviver importa menos do que viver: um mundo em que é permitido gozar e é fácil morrer, matar e se matar.

Se você quer saber o que seria (o que foi) uma sociedade verdadeiramente hedonista em todo seu esplendor (tanto faz que seja para lamentar seu fim ou para odiá-la), não deixe de ver "Roma", sob nenhum pretexto.

05 abril 2007

Pequenos furtos, manchas e alívio


Pessoas respeitadas, como Sobel, cometem, irresistivelmente, atos contra a sua imagem
EM PSIQUIATRIA , a cleptomania (impulso de roubar) é um dos "transtornos do controle dos impulsos", junto com o jogo de azar descontrolado, a piromania (impulso incendiário), a tricotilomania (impulso de se arrancar cabelos) e as explosões repentinas de violência contra os outros ou os objetos.

Caraterísticas comuns desses transtornos: 1) o impulso surge de maneira irresistível e sem premeditação (se coloco fogo na minha granja para receber o prêmio do seguro, não sou pirômano, apenas malandro); 2) o ato, precedido por uma forte tensão, produz no sujeito uma sensação de alívio.

Nota: é importante não confundir os transtornos do controle dos impulsos com condutas similares que aparecem nas crises de mania -as quais, por sua vez, são caracterizadas assim: três ou quatro dias sem sono, idéias (delirantes ou quase) de grandiosidade e onipotência, fuga do pensamento, agitação psicomotora.

Desde que chegou a notícia da prisão do rabino Henry Sobel pelo furto de quatro gravatas em lojas luxuosas de Palm Beach (EUA), recebo e-mails que propõem apoio moral ao rabino e outros que parecem antever e contestar antecipadamente esta coluna, lembrando (não sem humor): "Cuidado: pobre que rouba é ladrão, rico é cleptômano".

Que os autores desse segundo grupo de e-mails se tranqüilizem: nos tribunais americanos, a cleptomania não ameniza a responsabilidade do acusado.

Agora, é verdade que, em regra, o cleptômano, rico ou não, rouba objetos que não lhe são indispensáveis e que ele poderia comprar sem grande esforço financeiro.

Mas vamos ao que importa. A categoria psiquiátrica de "transtornos do controle dos impulsos" é descritiva e não diz nada sobre os caminhos que tornam um sujeito cleptômano, pirômano, jogador compulsivo etc. Esses caminhos são singulares.

Exemplo extremo dessa singularidade: conheci um transexual operado (homem para mulher) que, a cada dia, roubava nas lojas de Paris e sempre voltava para recolocar (também às escondidas) o objeto roubado na prateleira.

Provavelmente, era guiado pela vontade de fazer desaparecer e reaparecer objetos que representavam a parte de seu corpo à qual tinha renunciado.

Não tenho idéia das razões singulares que levaram o rabino Sobel a roubar naquelas lojas de Palm Beach. Assim como não sei o que levou Winona Ryder a roubar roupas na Saks de Berverly Hills; ou Ronaldo Esper, o estilista das noivas, a roubar vasos de concretos num cemitério paulistano.
Mas essas três histórias (e várias outras) têm algo em comum: os protagonistas são pessoas públicas; de maneira e por razões diferentes, eles são (ou foram) objeto de algum tipo de idealização. Não só eles não precisavam roubar (pois os objetos furtados estavam ao alcance de seu bolso), mas, sobretudo, se fossem descobertos, o dano sofrido por sua figura pública seria incomparavelmente superior ao valor dos objetos roubados.

Acontece com uma certa freqüência: pessoas respeitadas e admiradas cometem, irresistivelmente, atos que mancham sua imagem. Elas ganham assim, no noticiário, um espaço que é o inverso àquele que elas ocupavam: caem, diretamente, da idealização ao escárnio.
Poderíamos inventar uma nova categoria, a dos "transtornos do controle dos impulsos em notáveis de uma comunidade". Seu traço saliente seria a desproporção entre o tamanho da infração (geralmente pequena) e o risco de comprometer uma reputação que é, no fundo, o maior patrimônio do sujeito.

Uma explicação possível para essas condutas está justamente na desproporção.
Imagine conviver com a sensação de um divórcio permanente (que é, de qualquer forma, inevitável) entre a visão idealizada que os outros têm de você e a visão, bem menos lisonjeira, que você tem de sua pessoa. Imagine a tensão incessante para estar à altura de uma imagem pública da qual você só pode, honestamente, sentir-se indigno: a visibilidade, o respeito e a admiração dos outros se tornam um fardo insustentável.

Quando um homem respeitado e respeitável comete um ato incompreensível que prejudica o capital de estima que ele acumulou, talvez seja justamente para desmentir sua figura pública idealizada, ou seja, para abrandar, enfim, o sentimento de viver uma extenuante impostura.
O ato, nesses casos, é um alívio, um grito que diz: "Sou um homem qualquer".

29 março 2007

O "mea-culpa" pela escravatura

As desculpas retroativas pela escravatura parecem ser sinais da volta do racismo

O REINO Unido celebra os 200 anos da abolição do comércio de escravos. Tony Blair expressou seu pesar pelo antigo papel dos britânicos no tráfico.

Como assinala Marco Aurélio Canônico na Folha do dia 24, os aniversários anteriores passaram sem destaque especial. O historiador John Oldfield, citado por Canônico, atribui o interesse atual pelo aniversário às mudanças na sociedade britânica: o "mea-culpa" seria um jeito de agradar às massas de imigrantes das ex-colônias, facilitando sua integração. Quem dera...

O processo da abolição da escravatura é uma longa jornada da consciência ocidental; começou nos primeiros séculos da cristandade, com o sucesso da idéia de que o limite da humanidade não é a tribo, a raça ou a fé, mas é a própria espécie: somos irmãos, simplesmente por sermos humanos. Hoje, por um sentimento espontâneo e imediato, qualquer ser humano é "dos nossos". No passado e em outras culturas, já foi e ainda é banal considerar que nosso semelhante é só quem dorme na toca da gente.

A idéia de uma comunidade da espécie humana é uma invenção, se não exclusiva, no mínimo peculiar da cultura ocidental. E, sem essa idéia, vinga a tentação de usar e possuir o outro (diferente e, portanto, subumano) como um objeto.

Em suma, o aniversário do dia 25 deveria ser uma festa para todos - no caso, todos os cidadãos e residentes do Reino Unido, celebrando juntos sua igualdade de princípio.

Ora, as desculpas pela escravatura sugerem uma divisão: de um lado, há os "descendentes de escravos", do outro, os "descendentes de escravocratas". É curioso, pois, na modernidade ocidental, presume-se que ninguém se defina como "descendente de": se somos todos humanos, indiferentemente, é também porque somos definidos não pelo passado, mas por nossas potencialidades futuras.

Entende-se que os ditos "descendentes de escravos" (cuja cultura de origem pode ser escravocrata) sejam, eventualmente, enredados numa divisão subjetiva dolorosa: aderir à cultura que os acolhe como cidadãos (porque, para ela, só há homens livres) significa renegar sua tradição.

Mais complicado é entender as desculpas dos ditos "descendentes de escravocratas", pois qual é o sentido da desculpa retroativa de quem não se define pelo seu passado?

Versão otimista: hoje, por termos "evoluído", enxergaríamos o horror de um passado que não nos define, que não é o da gente, mas que, afinal, carregava nosso nome.

Tony Blair não tem nada a ver com os ministros dos séculos 17 e 18, salvo a referência comum a um "Reino Unido" que, aliás, não é mais o mesmo país.

Versão realista (a de Oldfield): as desculpas constituem uma homenagem (forçada) aos imigrantes, que são os novos cidadãos do Ocidente.

Minha versão é pessimista. A necessidade de se desculpar pela escravatura não vem do sentimento (improvável) de uma responsabilidade retroativa nem da vontade (duvidosa) de desejar as boas-vindas aos africanos. As desculpas se parecem mais com os desagravos preventivos e hipócritas que são pronunciados quando a gente está à beira de fazer uma besteira: "Desculpe, mas vou ter de lhe dar um soco na cara". Explico.

As diferenças que a Europa deveria integrar hoje não são maiores do que as que povoaram as Américas, por exemplo, no começo do século passado. As Américas tentaram diluir as diferenças transformando todos em puros agentes econômicos: "Esqueça-se de suas origens e pense em fazer fortuna".

A Europa, zelosa de sua história e de suas identidades nacionais, pode dificilmente pedir a seus imigrantes que se esqueçam do passado deles. Com isso, na Europa, as diferenças não se perdem, se agudizam.

As desculpas de hoje, justamente, parecem assinalar uma intolerância crescente. "Desculpe-me por tê-lo escravizado no passado" é um jeito de lembrar que o passado continua valendo, e, nesse passado, você foi escravo, eu não. Ou seja, não somos bem humanos da mesma forma.

Em 1973, um psicanalista francês, Jacques Lacan, previa a subida do racismo. Na época, antes das recentes ondas de imigração do Terceiro Mundo para a Europa, suas palavras pareciam estranhas: afinal, não estávamos no meio do luminoso caminho da tolerância? Hoje, obviamente, elas parecem proféticas. E as pretensas desculpas pelo passado escravagista parecem ser mais uma inquietante confirmação do pressentimento de Lacan.

22 março 2007

"My Fair Lady"

O amor é prepotente: sempre acreditamos poder transformar e corrigir o objeto amado

NA SEMANA retrasada, estreou a nova versão brasileira de "My Fair Lady", no Teatro Alfa, em São Paulo. Jorge Takla, realizador e diretor, produziu um espetáculo encantador. A nova tradução, de Cláudio Botelho, é ótima; Amanda Acosta, como Eliza Doolittle, é adorável. O elenco, os cenários, a coreografia, as vozes, tudo é impecável.

Ao longo de minha vida, assisti a três produções de "My Fair Lady", (duas americanas e uma italiana) e, duas vezes, ao filme musical homônimo, que ganhou oito Oscars, em 1962. Também assisti à peça de Bernard Shaw, "Pigmalião" (na qual o musical é baseado), e ao filme "Pigmalião", de 1938 (que é a versão cinematográfica da peça). Em suma, a história de "My Fair Lady" me é bastante familiar, mas, a cada vez, ela me "pega". Por que será?

Certo, a música de F. Loewe é maravilhosa (algumas melodias integram meu módico repertório de chuveiro). Mas não é só isso: "My Fair Lady" é um clássico, que encena fantasias que habitam a mente de todos nós.

A história é conhecida: o professor Higgins encontra uma pobre vendedora de flores, estigmatizada por suas maneiras, sua gramática e sua pronúncia. Ele aposta que a transformará em uma "lady" com um curso intensivo de poucos meses. O mesmo professor, celibatário rabugento, aproveitará o curso para aprender algo sobre sentimentos.

Como nota Jorge Takla no programa do espetáculo, "My Fair Lady" é uma "Cinderela" em que acontece uma troca extraordinária entre um homem e uma mulher, cada um transformando o outro.

Voltemos ao mito que inspirou Bernard Shaw. Pigmalião era um escultor que se apaixonou perdidamente pela figura feminina que ele mesmo tinha esculpido. Afrodite ouviu suas súplicas e deu vida à estátua. Não se sabe se Pigmalião ficou feliz com essa dádiva ou se, ao longo do tempo, ele lamentou a época em que sua amada não tinha vida própria. Detalhe inquietante: Pigmalião criou a estátua e se apaixonou por ela porque desgostava das mulheres reais, que lhe pareciam indecentes (animadas por desejos autônomos).

A psicologia clínica usa o termo "pigmalionismo" para designar 1) a conduta erótica, um pouco estranha, de quem se apaixona por estátuas e as deseja; 2) num sentido mais amplo, a paixão pedagógica e erótica do sujeito que sonha com um objeto de amor e desejo que ele mesmo moldaria.

A psicologia experimental, nas últimas décadas, confirmou e debateu o "efeito Pigmalião": quando os professores esperam um grande progresso de seus alunos, os alunos progridem duas vezes mais rápido. O desempenho do aluno é proporcional às expectativas do professor.
Aos 20 anos, leitor assíduo de Ronald Laing e devoto da antipsiquiatria italiana, eu devaneava que, um dia, encontraria uma jovem esquizofrênica e catatônica: pela mágica de meus cuidados, eu lhe devolveria a fala e a vida. No processo, eu me apaixonaria por ela, e ela por mim; viveríamos felizes para sempre. Portanto, confesso: já fui pigmalionista e já apostei na força curativa do "efeito Pigmalião".

Mas a história de Pigmalião não se aplica apenas em casos de extremismo pedagógico e terapêutico. Qualquer um de nós desejou e deseja transformar o objeto amado. O amor é prepotente: idealizamos o outro e acreditamos firme que ele ou ela se emendarão. Somos convencidos de que o outro amado carrega todas as qualidades que nossa paixão lhe atribui: elas estão escondidas, atrás de uma "deformação" que será corrigida pela virtude de nosso amor.

Com isso, o amor desafia diferenças extremas, étnicas, culturais, religiosas e sociais. Um amigo carioca, aliás, me disse uma vez, brincando, que, se não tivéssemos uma fé desmedida no poder transformador do amor, se fôssemos "sensatos", homem só casaria com homem, e mulher com mulher.

Resta que, quando escolhemos nossa parceira ou nosso parceiro apesar de diferenças que nos incomodam e confiantes nas mudanças que virão, as chances de durar são pequenas. E grandes são as chances de que a vida em comum vire, rapidamente, um inferno. Mas é uma constatação que não inspira ninguém: o amor pensa o contrário, e esse é o mito de "My Fair Lady".

A peça de Bernard Shaw termina "mal" (Eliza não casa com o professor Higgins). "My Fair Lady", aparentemente, termina bem. Mas considere a última cena e, honestamente, pergunte-se: "Como essa história vai acabar?"

15 março 2007

Fama e narcisismo

Em uma "sociedade narcisista", a invisibilidade é mais intolerável que a prisão

NA CONVERSA leiga, "Fulano é narcisista" significa que ele adora se ver no espelho e nunca pensa nos outros.

Na clínica, o sentido da expressão é diferente: o traço dominante da "personalidade narcisista" é a insegurança. Narcisista é quem está sempre se questionando: "O que os outros enxergam em mim? Será que gostam do que vêem?".

Em ambos os casos, o narcisista se preocupa com sua imagem. Mas, na conversa leiga, ele seria apaixonado por ela (como o Narciso do mito), enquanto, segundo a clínica, ele seria dramaticamente atormentado pelo sentimento de que sua imagem depende do olhar dos outros.
De fato, a clínica tem razão: no espelho, enxergamos sempre e apenas o que os outros vêem (ou o que imaginamos que eles vejam). O mesmo mal-entendido aparece quando a gente constata que vive numa "sociedade narcisista".

Na conversa leiga, essa constatação soa como uma queixa moral: estaríamos vivendo no mundo do "cada um por si". A clínica sugere o contrário: numa sociedade narcisista, cada um depende excessivamente dos outros. Somos desprovidos de essência: sou filho SE meus pais me amam, sou pai SE meus filhos gostam de mim, sou psicanalista SE pacientes e colegas me reconhecem, sou colunista SE você agüentou ler até aqui. O espelho que nos define não é o de Narciso, é o da bruxa de Branca de Neve, um espelho que interrogamos, ansiosos.

Ora, recentemente, assisti, fascinado, ao processo de seleção da sexta temporada do programa "American Idol" (no canal Sony). É um programa parecido com "Fama", da Globo de dois ou três anos atrás, e com "Ídolos", do SBT. Trata-se de descobrir novos cantores e cantoras.

O vencedor é eleito pelo público da TV, mas o que me cativou foi a longa fase inicial, em que os finalistas são selecionados por um júri, entre milhares de jovens concorrentes.

Todos os candidatos parecem entusiasticamente certos de que serão o futuro ídolo, mas a audição da grandíssima maioria é propriamente constrangedora.

No mesmo canal, há outro programa parecido: "American Inventor", em que desfilam inventores convencidos de que seu achado mudará o mundo, mesmo que se trate da máquina acariciadora de cachorro para dono preguiçoso (uma das invenções propostas).

O que leva milhares de sujeitos a encarar uma espécie de humilhação pública? Será que eles são narcisistas à moda da conversa leiga, enamorados de si mesmos a ponto de perder toda autocrítica? Por algum milagre do amor materno, eles guardariam uma imagem de si positiva e imperturbável: "Deixe o mundo falar, pois eu fui, sou e sempre serei o ídolo da minha mãe" (alguns concorrentes, aliás, compareciam acompanhados por uma mãe embevecida).

É possível. Mas, nas palavras de muitos candidatos entrevistados, aparecia outra coisa: uma vontade dolorosa de despertar um olhar de reconhecimento não só no público, mas nos seus familiares, ausentes e indiferentes. Era como se eles estivessem dispostos a qualquer coisa para deixar, enfim, de ser invisíveis: "Riam de mim, mas ao menos me vejam". Pode parecer paradoxal que alguém tente chamar a atenção (do pai, da mãe, da irmã e do mundo) expondo-se ao ridículo e ao fracasso.

Mas, aparentemente, acontece que escárnio e zombaria são um preço aceitável por um (triste) momento de fama.

Uma analogia talvez nos ajude a entender. As estatísticas dizem que há mais jovens que adultos delinqüentes. Justificação tradicional (além da "testosterona" da adolescência): os jovens andam em grupo.

Portanto, é freqüente, no caso deles, que haja mais de um réu por crime.

Certo. Mas também tudo indica que os jovens delinqüentes são presos mais facilmente que os adultos. Não é imperícia: parece que, de uma certa forma, eles se deixam prender, como se seu gesto transgressor tivesse como finalidade última o encontro com a polícia e o juiz. Por quê?
Para a dramática insegurança do narcisismo (aqui no sentido clínico), uma condenação ou um fracasso humilhante apresentam uma vantagem parecida: ambos são preferíveis ao silêncio do outro. Num mundo em que a gente só existe pelo olhar alheio, a invisibilidade é mais intolerável do que o escárnio ou a prisão.

PS.: Na semana retrasada, comentei o filme "Pecados Íntimos". Li, nestes dias, o livro no qual ele se inspira, "Criancinhas", de Tom Perrotta (Objetiva): é tão tocante e forte quanto o filme, se não mais.

08 março 2007

Mistérios de dentro ou de fora

Desde quando o interior de nosso corpo revelaria os mistérios de nossa própria existência?

NA SEMANA passada, duas exposições estrearam na Oca do Parque do Ibirapuera, em São Paulo: "Corpo Humano" e "Leonardo da Vinci". O ideal seria visitá-las no mesmo dia (apesar das filas e do preço).

"Corpo Humano" apresenta 16 corpos esfolados e dissecados (e 225 órgãos internos). A exposição suscitou, pelo mundo afora, um enorme interesse de público e algumas críticas. Por exemplo, foi levantada a suspeita de que os corpos sejam cadáveres de indivíduos executados pela Justiça chinesa.

Seja como for, Roy Glover (o promotor desse circo anatômico ambulante) propõe um extraordinário espetáculo científico-educativo: enfim, podemos ver como somos por dentro. Diz a sinopse: "É uma oportunidade única para o público em geral explorar os mistérios de sua própria existência".

Pergunta: desde quando acreditamos que ver de perto o interior de nosso corpo seja um jeito de conhecer os mistérios de nossa existência? Não faz muito tempo.

Foi em algum momento do século 17 que nossa curiosidade científica e existencial começou a procurar respostas sobretudo no que está dentro das coisas e no invisível, no infinitamente pequeno (que podemos magnificar) ou no longínquo (que podemos aproximar e tornar visível). É nessa época que inventamos telescópio e microscópio. Desde então, descobrimos células, bactérias, vírus, circulação do sangue etc., assim como moléculas, átomos, cometas, satélites, buracos negros e por aí vai.

O cientista (que, geralmente, tem pouca consideração pela história da ciência) dirá que a ciência se engajou na direção do dentro e do perto, tornando visível o invisível, porque é assim que ela conseguiu entender melhor o mundo e transformá-lo no interesse de todos.
Mas, na verdade, a escolha pelo dentro e pelo perto não se deu na procura da eficácia técnica (que, aliás, no começo, era imprevisível).

Nossa cultura foi procurar a solução dos mistérios no que está escondido dentro dos indivíduos e dos objetos porque o conjunto do mundo visível tinha perdido seu sentido. A ciência se enveredou por um caminho forçado, imposto por um luto: éramos órfãos do sentimento de uma harmonia do Cosmo.

Se tivéssemos podido escolher o grande angular em vez do telescópio e do microscópio, se tivéssemos podido olhar para o conjunto e não sobretudo ou apenas para os elementos, teríamos produzido outra ciência (menos eficiente? Não há como saber). Agora é tarde: se, na noite de sábado passado, seu filho ficou doente, você, em princípio, preferiu pedir um exame de sangue a interrogar os efeitos do eclipse da Lua. Hoje, podemos "brincar" de astrólogos, mas nossa confiança num Universo harmônico, em que tudo estaria interligado, é abalada, duvidosa.
Os cadáveres de Roy Glover revelam alguns mistérios da existência nos mostrando o que é normalmente invisível, o interior do corpo. Mas há outros mistérios, perdidos: quem foram eles? Quem os amou, quem eles amaram, quem foram seus pais, qual conjuntura da família, do vilarejo, do mundo e dos astros acompanhou sua vida?

É o custo de nosso caminho forçado: nossa ciência gagueja quando se trata de entender o conjunto. Mapeamos o DNA e logo conheceremos cada proteína no sangue; em comparação, o que conseguimos entender das relações humanas e de nosso lugar no mundo é risível: conjeturas, interpretações nas quais a ciência compete com a fantasia.

Houve um momento de transição, mágico e esplendoroso, em que pareceu possível conciliar os inconciliáveis, ou seja, olhar para dentro, para o invisível, sem deixar de apostar numa suprema harmonia do mundo visível. Nesse momento, que é a Renascença, foi possível dissecar cadáveres e começar a construir ciência e técnicas eficientes sem abandonar a idéia de um Universo ordenado.

Na exposição de Leonardo, há desenhos anatômicos (resultado de dissecação) e há máquinas sofisticadas, mas, no centro, está o Homem Vitruviano com seu corpo perfeitamente inscrito num círculo. Leonardo podia explorar nossas entranhas sem deixar de acreditar na relação do corpo com o universo: a anatomia humana era, para ele, um microcosmo que refletia o macrocosmo.

Como seria o mundo de hoje se, por exemplo, medíssemos as distâncias não pelo metro (estabelecido arbitrariamente no século 18), mas pelo tamanho médio da envergadura de nossos braços?

01 março 2007

"Pecados Íntimos"


O filme, tocante e verdadeiro, é sobre como nosso desejo encalha e se solta

"PECADOS ÍNTIMOS", de Todd Field, estreou no dia 9 de fevereiro. Parecia ser mais um filme sobre a vida nos subúrbios americanos de classe média, tipo "Beleza Americana" (vencedor do Oscar em 2000), e fiquei com preguiça. Sempre acho um pouco fácil satirizar uma maneira de viver, como se o jeito da gente fosse o certo: "Aponto o vazio na vida dos outros para me convencer de que a minha é autêntica e plena".

Vários leitores me escreveram estranhando que não comentasse o filme. Graças a eles, assisti, enfim, a "Pecados Íntimos", que NÃO é um filme sobre a vida nos subúrbios americanos (a não ser que você considere que "Hamlet" é uma peça sobre a vida na corte da Dinamarca durante a Idade Média).

"Pecados Íntimos" é um filme tocante e verdadeiro sobre os caminhos forçados de nosso desejo e sobre como ele encalha (quase sempre) e se solta (aos trancos).
Quando ensinava "Cultural Studies" na New School, começava dizendo a meus estudantes que eles eram livres para tirar todas as notas

A que quisessem, mas, para entender a subjetividade moderna, eles teriam que passar por três letras B: Brummel, Byron e Bovary. Não era só uma piada de professor: as três figuras em questão, afinal, falam todas de nossa impossibilidade de conseguir, na vida, a nota máxima.
Um B já é de bom tamanho. Brummel (o primeiro dandy, no fim do século 18) lembra que a nobreza não é efeito do berço em que a gente nasce; ela é fruto da "elegância" (não tanto das maneiras e da roupa, mas do espírito). O hábito, na modernidade, faz o monge, e somos livres para escolhê-lo. Mas essa liberdade tem um custo: o desconforto de apenas parecer o que somos e, claro, a aflição de parecer o que não somos ou não queremos ser. O hábito faz e aprisiona o monge.
Byron (o poeta romântico) lembra que, na vida moderna, o que importa é a intensidade e a variedade de experiências. A fome de viver e o anseio de aventuras levam alguns a lutar pela independência da Grécia, a pular de skate quando mal sabem andar ou a perder-se nas sarjetas do mundo. E nos levam a sonhar com o que não ousamos empreender.

Emma Bovary (a heroína do romance de Flaubert) lembra que o amor é o grande operador moderno da mudança. Descobrimos que podíamos inventar nossa vida quando começamos a casar por amor (e não para preservar a casta, a família e o patrimônio). Portanto, esperamos do amor que ele nos transforme e nos leve para uma "outra" vida (e toda vida tem uma "outra" vida com a qual sonhar).
Numa cena de "Pecados Íntimos", "Madame Bovary" é comentado por um grupo de mulheres. Elas descobrem (a contragosto) que são todas, de um jeito ou de outro, Emma Bovary: inconformadas com sua vida e desejosas de um amor que as salve.

Mas "Pecados Íntimos" é mais que uma adaptação de "Madame Bovary": é um pequeno "tratado" da subjetividade moderna. Até porque, justamente, Emma Bovary sentia que ela era muito mais do que parecia pela "rotina" de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura. Ou seja, os três "B" estão sempre juntos, dentro da gente.

Além disso, é difícil sair do cinema sem se perguntar por qual mistério somos condescendentes com nossas impulsões (o pedófilo e a protagonista não são os únicos que não sabem resistir às tentações) e, ao mesmo tempo, inertes quando se trata de mudar de vida. O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida.

A incapacidade de mudar, aliás, é o grande tema do filme. Há a mãe do pedófilo, que espera que o filho se torne "normal", mas, olhe só, coleciona estatuetas de meninos. Há a mulher que não quer perder o marido, mas enfia o filho no meio da cama e vigia a vida do esposo como uma mãe. Há a mulher que morre de tédio e transa com o marido toda terça às 19h30, embora sonhe em conseguir o telefone de um bonitão.

Há o homem que cansou de ser babá do filho, mas, quando se trata de estudar para o exame da Ordem, passa as noites à toa.

O título original do filme é "Little Children" (criancinhas). Em matéria de desejo, somos todos criancinhas, incapazes de encontrar a coragem de fazer o que desejamos, mas sempre (e apenas) tentados por potes de geléia.

22 fevereiro 2007

Raciocínios "motivados"



Qual deveria ser a função principal dos auxiliares de nossos representantes eleitos?

É BANAL reconhecer que mesmo nossos pensamentos mais racionais são parasitados por afetos e emoções. Ou seja, uma boa parte de nossos raciocínios são, de fato, "wishful thinking", meditações motivadas pelo desejo.

Em 2002, aliás, um psicólogo, Daniel Kahneman, ganhou o Prêmio Nobel de Economia por trabalhos que mostram como os agentes econômicos (investidores, consumidores etc.) acreditam obedecer, em suas escolhas, a critérios racionais (utilidade, lucro, interesse), mas, de fato, são levados por emoções que eles desconhecem e que os impedem de calcular corretamente os riscos de seus atos.

Outros pesquisadores chegaram mil vezes a conclusões parecidas analisando pensamentos políticos, nos quais a racionalidade é seriamente ameaçada por afetos e emoções. Isso, claro, sem que o sujeito pensante se dê conta da interferência.

Recentemente, o "Journal of Cognitive Neuroscience" (revista de neurociência cognitiva, 18:11, 2006) publicou uma pesquisa, de Drew Westen e outros, que, pela primeira vez, comprova "materialmente" o peso das motivações afetivas e emocionais em nossos pensamentos.
Os sujeitos da amostra deviam julgar, por exemplo, uma explicação fornecida por um político. Enquanto decidiam se a explicação lhes parecia plausível ou não, seu funcionamento cerebral era monitorado por ressonância magnética.

Embora os sujeitos jurassem que eles estavam decidindo fria e racionalmente, suas escolhas implicavam uma intensa atividade de zonas cerebrais classicamente envolvidas na regulação afetiva, na defesa psicológica e no "viés de confirmação".

O "viés de confirmação" é um funcionamento psíquico freqüente (e catastrófico) no diagnóstico médico, no discurso político e nas brigas de casais. Ele consiste no seguinte: o sujeito procura ativa e seletivamente (embora de maneira inconsciente) dados que confirmem sua hipótese ou o seu preconceito iniciais. O prazer de ter razão prevalece sobre argumentos e informações, produzindo cegueiras.

Com a pesquisa de Westen, as neurociências afirmam algo que a psicologia (social e clínica) sabe há tempo: nosso raciocínio é influenciado por afetos implícitos que nos levam a "minimizar estados afetivos negativos e potencializar estados afetivos positivos". A gente pensa e escolhe não no interesse da verdade, mas para sentir-se bem. O próprio Westen reconhece sua dívida mais antiga: "Freud descobriu esses processos há décadas, usando o termo "defesa" para descrever os processos pelos quais as pessoas adaptam seus resultados cognitivos de maneira a evitar sentimentos desagradáveis como angústia e culpa".

O que fazer com isso? É possível desistir da verdade, considerando que o mundo é um vasto teatro em que as subjetividades se enfrentam e que o que importa é apenas a versão de quem ganha a luta (retórica ou armada).

Ou, então, talvez seja possível amparar a verdade, preservá-la de nossas próprias motivações. Podemos, por exemplo, desconfiar de nossas idéias, sobretudo quando nos sentimos particularmente satisfeitos com o entendimento da realidade que elas nos proporcionam. Pois a verdade (com o curso de ação que, eventualmente, ela "impõe") é geralmente pouco gratificante e de acesso trabalhoso.

Um exemplo. Nossos deputados não precisam ter uma competência específica: o essencial, em princípio, é que sejam dignos de nossa confiança. Imaginemos que sejam. O orçamento prevê que cada deputado disponha de 25 auxiliares.

Sem dúvida, os eleitos precisam de secretários, motoristas e mesmo de marqueteiros, mas, antes de mais nada, para poder legislar, eles precisam de dados e informações corretas. A arte de um legislador eficaz está na sua capacidade de apreender a realidade para tentar melhorá-la, não na qualidade retórica que é a praga habitual do discurso político (geralmente animado por vontade de seduzir e viés de confirmação).

Portanto, um deputado deveria dispor de pesquisadores qualificados (por exemplo, jovens mestres e doutores das áreas jurídica, socioeconômica e científica), capazes de encontrar rapidamente, sobre cada assunto debatido, a literatura essencial e de resumi-la, traduzi-la e apresentá-la de maneira que o representante vote conhecendo (de verdade) a questão em pauta.

Pergunta: quantos dos auxiliares de nossos representantes respondem a esse critério básico?

15 fevereiro 2007

Maioridade penal e hipocrisia


Nossa alma "generosa" dorme melhor com a idéia de que a prisão é reeducativa

UM ADOLESCENTE de 16 anos fazia parte da quadrilha que arrastou o corpo de João Hélio, 6 anos, pelas ruas do Rio.

A cada vez que um menor comete um crime repugnante (homicídio, estupro, latrocínio), volta o debate sobre a maioridade penal.

Em geral, o essencial é dito e repetido. E não acontece nada. Aos poucos, o horror do crime é esquecido. Não é por preguiça, é por hipocrisia. Preferimos deixar para lá, até a próxima, covardemente, porque custamos a contrariar alguns lugares-comuns de nossa maneira de pensar. 1) A prisão é uma instituição hipócrita desde sua invenção moderna.

Ela protege o cidadão, evitando que os lobos circulem pelas ruas, e pune o criminoso, constrangendo seu corpo. Mas nossa alma "generosa" dorme melhor com a idéia de que a prisão é um empreendimento reeducativo, no qual a sociedade emenda suas ovelhas desgarradas.

A versão nacional dessa hipocrisia diz que a reeducação falha porque nosso sistema carcerário é brutal e inadequado. Essa caracterização é exata, mas qualquer pesquisa, pelo mundo afora, reconhece que mesmo o melhor sistema carcerário só consegue "recuperar" (eventualmente) os criminosos responsáveis por crimes não-hediondos. Quanto aos outros, a prisão serve para punir o réu e proteger a sociedade.

Essa constatação frustra as ambições do poder moderno, que (como mostrou Michel Foucault em "Vigiar e Punir") aposta na capacidade de educar e reeducar os espíritos. A idéia de apenas segregar os criminosos nos repugna porque diz que somos incapazes de convertê-los.

Detalhe: Foucault denunciou (com razão) a instituição carcerária, mas, na hora de propor alternativas (conferência de Montreal, em 1975), sua contribuição era balbuciante.

2) Em geral, para evitarmos admitir que a prisão serve para punir e proteger a sociedade (e não para educar), muda-se o foco da atenção: "Esqueça a prisão, pense nas causas". Preferimos, em suma, a má consciência pela desigualdade social à má consciência por punir e segregar os criminosos. Ora, a miséria pode ser a causa de crimes leves contra o patrimônio, mas o psicopata, que estupra e mata para roubar, não é fruto da dureza de sua vida.

Por exemplo, no último número da "Revista de Psiquiatria Clínica" (vol. 33, 2006), uma pesquisa de Schmitt, Pinto, Gomes, Quevedo e Stein mostra que "adolescentes infratores graves (autores de homicídio, estupro e latrocínio) possuem personalidade psicopática e risco aumentado de reincidência criminal, mas não apresentam maior prevalência de história de abuso na infância do que outros adolescentes infratores".

3) A má consciência por punir e segregar é especialmente ativa quando se trata de menores criminosos, pois, com crianças e adolescentes, temos uma ambição ortopédica desmedida: queremos acreditar que podemos educá-los e reeducá-los, sempre -e rapidamente, viu?
No fim de 2003, outra quadrilha, liderada por um adolescente, massacrou dois jovens, Liana e Felipe, que passavam o fim de semana numa barraca, no Embu-Guaçu. Depois desse crime, na mesma "Revista de Psiquiatria Clínica" (vol. 31, 2004), Jorge Wohney Ferreira Amaro publicou uma crítica fundamentada e radical do Estatuto da Criança e do Adolescente. Resumindo suas conclusões:

Ou o menor é consciente de seu ato, e, portanto, imputável como um adulto;
Ou seu desenvolvimento é incompleto, e, nesse caso, nada garante que ele se complete num máximo de três anos;

Ou, então, o jovem sofre de um Transtorno da Personalidade Anti-Social (psicopatia), cuja cura (quando acontece) exige raramente menos de uma década de esforços.

Em suma, a maioridade penal poderia ser reduzida para 16 ou 14 anos, mas não é isso que realmente importa. A hipocrisia está no artigo 121 do Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo o qual, para um menor, "em nenhuma hipótese, o período máximo de internação excederá a três anos".

Ora, a decência, o bom senso e a coerência pedem que uma comissão, um juiz especializado ou mesmo um júri popular decidam, antes de mais nada, se o menor acusado deve ser julgado como adulto ou não. Caso ele seja reconhecido como menor ou como portador de um transtorno da personalidade, o jovem só deveria ser devolvido à sociedade uma vez "completado" seu desenvolvimento ou sua cura -que isso leve três anos, ou dez, ou 50.


ccalligari@uol.com.br

08 fevereiro 2007

O futuro da humanidade

O aquecimento global revela que a ação coletiva é difícil em nossa cultura

A ONU criou um órgão para determinar se está (ou não) acontecendo uma mudança climática global e, se esse for o caso, para explicar sua origem e propor um curso de ação. Na semana passada, esse órgão divulgou um relatório.

Tudo indica que há um aquecimento progressivo do planeta e que esse fenômeno é causado pelo homem. Nossos filhos e netos já conhecerão seus efeitos devastadores: a subida do nível do mar ameaçará nossas costas, e o desequilíbrio climático comprometerá os recursos básicos -em muitos lugares, faltará água e faltará comida.

Esse futuro, próximo e sinistro, não é inevitável: existem ações que podem estancar ou reverter o processo. Mas o acordo internacional e os atos são tímidos, se não nulos.
Claro, podemos nos indignar com os interesses nacionais e particulares que se esquecem da catástrofe que nos espreita para defender o lucro imediato. Mas a encruzilhada atual revela, antes de mais nada, um impasse fundamental da cultura dominante.

Primeiro, um aparte. Nossa espécie se distingue das outras porque se organiza numa grande variedade de culturas (nossos hábitos não são apenas o resultado de uma programação biológica). Essa plasticidade talvez seja a razão da duração e da expansão de nossa espécie. A cultura ocidental, hoje dominante, é particularmente plástica (apta a se transformar). Mesmo assim, é possível que, desta vez, ela não consiga se adaptar de modo a permitir a sobrevivência da espécie. Talvez a fórmula cultural que fez nosso "sucesso" até aqui seja, amanhã, a razão de nosso sumiço. Como assim?

Os humanos (sobretudo na modernidade) prosperaram num projeto de exploração e domínio da natureza cujo custo é hoje cobrado. Para corrigir esse projeto, atenuar suas conseqüências e sobreviver, deveríamos agir coletivamente. Ora, acontece que nossa espécie parece incapaz de ações coletivas. À primeira vista, isso é paradoxal.

Progressivamente, ao longo dos séculos, chegamos a perceber qualquer homem como semelhante, por diferente de nós que ele seja. Infelizmente, reconhecer a espécie como grupo ao qual pertencemos (sentir solidariedade com todos os humanos) não implica que sejamos capazes de uma ação coletiva.

Na base de nossa cultura está a idéia de que nosso destino individual é mais importante do que o destino dos grupos dos quais fazemos parte. Nosso individualismo, aliás, é a condição de nossa solidariedade: os outros são nossos semelhantes porque conseguimos enxergá-los como indivíduos, deixando de lado as diferenças entre os grupos aos quais cada um pertence. Provavelmente, trata-se de uma conseqüência do fundo cristão da cultura ocidental moderna: somos todos irmãos, mas a salvação (que é o que importa) decide-se um por um. Em suma, agir contra o interesse do indivíduo, mesmo que para o interesse do grupo, não é do nosso feitio.
Resumo do problema: hoje, nossa espécie precisa agir coletivamente, mas a própria cultura que, até agora, sustentou seu caminho torna esse tipo de ação difícil ou impossível.
Não sou totalmente pessimista.

Talvez nosso impasse atual seja a ocasião de uma renovação. Talvez saibamos inventar uma cultura que permita a ação coletiva da comunidade dos humanos que habitam o planeta Terra. Estou sonhando? Nem tanto.

Afinal, há bastante tempo, nossa cultura inventa histórias que nos instigam a agir em nome e no interesse da espécie. Centenas de romances e filmes (bons ou ruins, tanto faz) nos propõem inimigos comuns: grandes epidemias e extraterrestres de todo tipo. Outros filmes e romances promovem uma nova aliança dos humanos contra suas próprias invenções: a catástrofe atômica, as máquinas rebeldes e enlouquecidas. Já existem até filmes que contam a reação (tardia, claro) da espécie contra o próprio aquecimento global. E é banal, enfim, que nossas narrativas mostrem que, apesar da diferença dos indivíduos e da variedade cultural da espécie, nossos destinos são, sempre e propriamente, cruzados.

Os positivistas diziam que o clima faz o homem. Pois bem, quem sabe a mudança climática nos obrigue mesmo a transformar nossa cultura.

Para melhor. Última hora. Acabo de assistir ao filme-documentário de João Jardim, "Pro Dia Nascer Feliz". É uma visão terna, seca e justa de nossos adolescentes. Falando em preocupação com o futuro da humanidade, é um filme imperdível.

01 fevereiro 2007

Devaneios e mágicas

O PAC, bom ou ruim, não será "na veia"; será administrado por via oral ou cutânea

ANOS ATRÁS (e longe do Brasil), tentei ajudar um jovem cuja vida era devorada por um devaneio. Ele não se limitava a sonhar, de vez em quando, com o dia em que todas as mulheres o achariam bonito e o mundo inteiro conclamaria seus méritos: quando me consultou, já tinha preenchido dezenas de cadernos em que, por exemplo, detalhava planos de investimento para a imensa fortuna (que seria sua) e anotava os tópicos para os discursos de aceitação dos prêmios que lhe seriam conferidos (entre eles, o Nobel de Literatura).

O problema não era a hipertrofia do devaneio, mas a inércia que ele alimentava. O jovem não tomava iniciativa alguma que o aproximasse de seu sonho; apenas aperfeiçoava a descrição de seu futuro, esperando por um milagre que o realizasse. Ele encontraria, um dia, uma caixa com seis romances datilografados, os quais, publicados a intervalos bem orquestrados, venderiam milhões de exemplares pelo mundo afora.

Em outra versão, a caixa lhe seria entregue por um sábio japonês que morreria nos seus braços ou ainda por um extraterrestre.

A energia que ele dedicava a imaginar e planejar os leilões dos agentes literários, os lançamentos, os pedidos de adaptação cinematográfica etc. teria sido suficiente para escrever ao menos os primeiros dois ou três romances. Mas esse cálculo não vinha ao caso. Agir (colocar as mãos na massa e, quem sabe, fracassar) era fora de questão. Melhor viver no devaneio e na espera das mágicas.

Durante esta última semana, pensei repetidamente no meu jovem paciente. Pois me parece que todos nós (governo, políticos, comentadores e homens da rua) lidamos com o PAC (e com qualquer plano para o país) da mesma forma. Discutimos e elaboramos: há quem diga que o plano é perfeito, quem pense que é tímido, quem queira modificá-lo em benefício próprio ou de seus eleitores, quem ache que está totalmente errado. Tanto faz: elaboração e discussão são parecidas com os cadernos do jovem sonhador porque deixam de lado a questão "trivial" da realização. Como assim?

Para começar, sempre há uma inquietante desproporção entre os recursos alocados e os que chegam efetivamente à destinação. Ou seja, do valor de qualquer pacote, é preciso deduzir o custo da lentidão política, da corrupção, da incompetência técnica, da preguiça administrativa, da inércia burocrática e por aí vai.

Qual é, neste caso, o "custo Brasil"?

Acho simpático o otimismo de Dilma Rousseff, mas os famosos R$ 384 bilhões de dinheiro público não serão, como ela disse, administrados "na veia", ou seja, de maneira rápida e eficiente. A administração do remédio se dará provavelmente por via oral ou mesmo cutânea.

Podemos discutir para saber se estamos receitando a dose de antibiótico necessária para curar nossa pneumonia, mas, certamente, uma quantidade relevante de remédio ficará no frasco, uma parte maior será eliminada por uma digestão preguiçosa, outra parte não será assimilada, outra ainda será absorvida por anticorpos seculares e, enfim, alguns enfermeiros displicentes se esquecerão de administrar a pílula ou passar a pomada com um mínimo de regularidade.

Em outras palavras, promover ou discutir o PAC (ou qualquer plano) sem impor mudanças radicais de gestão (burocrática e administrativa - o que significa também fiscal e política) é, como no devanear de meu jovem paciente, um jeito de preencher cadernos com visões do futuro, guardando-se de agir. Nada de novo: Sérgio Buarque de Hollanda já explicou e estigmatizou a paixão nacional pela retórica.

Ora, as reformas administrativas pedem competência, grandes esforços e, provavelmente, medidas impopulares. É mais gratificante elaborar novos planos. E esperar a mágica: um extraterrestre ou um japonês misterioso resolverão o problema, quem sabe baixando drasticamente os juros ou desvalorizando a moeda. Alguém nos dará dinheiro barato, e investiremos brutalmente; alguém decidirá que o real vale quatro dólares, e venderemos qualquer coisa pelo mundo afora. Tudo isso sem que a gente tenha de se preocupar com a agilidade de nossa administração, com nossa produtividade ou com a competitividade, a qualidade e a unicidade de nossos produtos. Todas coisas chatas, que demandam um trabalho danado. Melhor ficar discutindo o PAC e esperando Godot.

Agora, se um presidente e um governo quisessem passar para a história...

25 janeiro 2007

Você quer mesmo ser feliz?

O imperativo de felicidade é enganoso, mas rege nossa organização social

CIRCULA, NOS meios acadêmicos ingleses e americanos, a expressão "happiness studies" (estudos da felicidade), calcada, por exemplo, em "women's studies" (estudos das mulheres). Talvez apareçam, em breve, departamentos universitários multidisciplinares de "estudos da felicidade".

Pois bem, no campo dos "estudos da felicidade", acabam de sair dois livros notáveis.

O primeiro, ainda não traduzido para o português, é "Happiness: A History" (felicidade, uma história), de Darrin McMahon (Atlantic Monthly). McMahon reconstrói as mudanças pelas quais passou nossa concepção de vida feliz: uma vida virtuosa, para os gregos antigos; prazerosa, para os romanos; merecedora do paraíso, para os cristãos etc.

Aliás, é sobretudo com os cristãos que a felicidade começa a se confundir com a promessa de uma vida melhor no futuro, após a morte.

Na modernidade, a definição do que nos faz felizes fica bastante incerta, mas, paradoxalmente, a exigência de sermos felizes (sem saber direito o que isso significa) torna-se irrenunciável. Esse imperativo enigmático é uma peça essencial de nossa organização social. Explico.
A felicidade é, hoje, uma aspiração obrigatória que, por sua indefinição, não pode ser satisfeita. Portanto, ela alimenta uma sede insaciável de objetos e prazeres. Essa sede sustenta nosso modo de produzir e consumir e nos leva a organizar nossas diferenças sociais segundo os "sonhos" que cada um conseguiu realizar (ou seja, pela inveja).

O outro livro é "Stumbling on Happiness" (tropeçando na felicidade), de Daniel Gilbert. Apesar da tradução portuguesa do título ("O que nos Faz Felizes", Campus), não se trata de um livro de receitas para sermos felizes, mas de uma explicação da dificuldade desse projeto.

Gilbert, evocando brilhantemente uma quantidade de pesquisas, mostra o seguinte: uma propriedade de nossa espécie é a capacidade de imaginar o futuro, mas, nessa tarefa, somos péssimos. Por isso, a felicidade desejada e alcançada nunca é bem o que a gente queria.

Para Gilbert, o problema é cognitivo: o futuro com o qual sonhamos não nos outorga a felicidade esperada porque não sabemos prevê-lo corretamente.

Aparte: de fato, há outras razões para que o futuro nunca chegue ou, ao chegar, seja decepcionante. Por exemplo, como lembra o título de um livro de Jorge Forbes ("Você Quer o que Deseja?"), nem sempre queremos efetivamente o que desejamos e planejamos.
Num capítulo de seu livro, Gilbert recorre a uma metáfora genética.

Um "super-replicador" é um gene que se replica com sucesso porque ele leva seu portador a transmitir ativamente seus genes. Exemplo: imaginemos que exista um gene do prazer no orgasmo. Mesmo que esse gene não seja necessário para a reprodução (que pode acontecer sem prazer) e mesmo que ele seja associado com uma série de traços ruins (doenças ameaçadoras), ele se replicará porque leva seus portadores a praticar mais sexo do que os outros (aumentando as chances de transmissão).

Gilbert aplica esse princípio às crenças: há crenças falsas que se propagam e se transmitem porque sustentam sociedades estáveis, e uma sociedade estável é o ambiente ideal para a propagação de crenças (falsas ou verdadeiras). No caso, nossa concepção da felicidade se parece muito com uma crença falsa super-replicada, ou seja, uma crença que se propaga porque, apesar de ser falsa, ela é uma condição de nossa coesão social (e a coesão social facilita a propagação das crenças). Em suma, o imperativo de felicidade é enganoso, mas rege nossa sociedade; portanto, ele só pode se reproduzir.

Uma nota. Gilbert parte do pressuposto que faz funcionar nossa sociedade: a felicidade depende da realização de um futuro que desejamos e imaginamos.

Uma outra concepção da felicidade (a minha preferida) diz que ela depende da qualidade da experiência presente, e não da realização de nossos projetos. Talvez essa seja uma concepção nostálgica de um momento qualquer na história reconstruída por McMahon.

Ou talvez seja uma concepção nova, que vem se afirmando devagar, de Nietzsche até a contracultura dos anos 60 e 70 (o próprio Gilbert se lembra do livro, meio delirante, de Ram Dass, que se intitulava "Be Here Now" -esteja aqui agora). Seja como for, neste começo de 2007, fico com aquele ditado chinês: que todos possamos viver um ano não "feliz", mas interessante.

18 janeiro 2007

Para que servem as ficções?

A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim

ESTÁ EM cartaz "Mais Estranho que a Ficção", de Marc Forster (com um extraordinário roteiro de Zach Helm). Se você lê romances e contos, se freqüenta cinemas e teatros, se, em suma, a ficção tem alguma relevância na sua vida, não perca o filme.

É a história (engraçada e terna) de um auditor de impostos que, de repente, começa a ouvir a voz misteriosa de uma narradora: sua vida, aparentemente insignificante, é o tema de um romance, do qual ele é, obviamente, o protagonista.

Saí do cinema pensando no lugar que as ficções ocuparam e ocupam na minha vida.

Cresci numa família em que ler romances e assistir a filmes, ou seja, mergulhar em ficções, não era considerado uma perda de tempo. Podia atrasar os deveres ou sacrificar o sono para acabar um capítulo, e não era preciso me trancar no banheiro nem ler à luz de uma lanterna.

Meus pais, eventualmente, pediam que organizasse melhor meu horário, mas deixavam claro que meu interesse pelas ficções era uma parte crucial (e aprovada) de minha "formação". Eles sequer exigiam que as ditas ficções fossem edificantes ou tivessem um valor cultural estabelecido. Um policial e um Dostoiévski eram tratados com a mesma deferência.

Quando foi minha vez de ser pai, agi da mesma forma. Por quê?

Existe a idéia (comum) segundo a qual a ficção é uma "escola de vida": ela nos apresenta a diversidade do mundo e constitui um repertório do possível. Alguém dirá: o mesmo não aconteceria com uma série de bons documentários ou ensaios etnográficos? Certo, documentários e ensaios ampliam nosso horizonte. Mas a ficção opera uma mágica suplementar.

Tome, por exemplo, "O Caçador de Pipas", de Khaled Hosseini. A leitura nos faz conhecer a particularidade do Afeganistão, mas o que torna o romance irresistível é a história singular de Amir, o protagonista. Amir, afastado de nós pelas particularidades de seu grupo, revela-se igual a nós pela singularidade de sua experiência. A vida dos afegãos pode ser objeto de um documentário, que, sem dúvida, será instrutivo. Mas a história fictícia "daquele" afegão o torna meu semelhante e meu irmão.

Esta é a mágica da ficção: no meio das diferenças particulares entre grupos, ela inventa experiências singulares que revelam a humanidade que é comum a todos, protagonistas e leitores. A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda a descobrir o que há de humano em mim.

Há uma outra idéia, menos comum, segundo a qual a vida da gente pode (e talvez deva) ser vivida como uma narração. Não tanto para que ela se transforme num roteiro mirabolante, mas para que nosso cotidiano (por humilde e banal que seja) assuma uma relevância e uma intensidade que o tornem digno de ser vivido. Não fica claro? Faça a experiência: passe três horas de seu dia acompanhando suas ações de sempre, seus pensamentos, seus encontros e suas rotinas com uma narração mental detalhada, como se você fosse o protagonista de um romance que está sendo escrito enquanto você age. Que o resultado seja um atormentado monólogo interior ou uma seca descrição, de qualquer forma, seu mundo (externo e interno) será transformado.

Se você prolongar a experiência (redigindo um diário, em forma de blog ou num caderno, pouco importa), a narração passará a comandar sua vida: aos poucos, suas escolhas serão decididas em função do texto que você está escrevendo. Critérios estéticos ("como fica isso na história?") acabarão se misturando com os critérios éticos pelos quais, até então, você se norteava.

"Viva sua vida como se ela fosse o objeto de um romance" é um imperativo moral estranho e eficiente, embora nem sempre seguro (e às vezes, aliás, francamente perigoso). Num momento do filme de Marc Forster, o protagonista aceita que a narradora escreva sua morte (e o condene, portanto, a morrer), pois esse parece ser, naquela altura, o desfecho adequado da história. Essa atitude do protagonista leva a escritora a observar que, na verdade, a gente deveria preservar a vida de um homem que é capaz de aceitar a morte para que sua história possa ser contada da melhor maneira possível. É um pequeno paradoxo (ético ou estético, difícil dizer) que merece reflexão.

Enfim, se perpetuei e transmiti o respeito de meus pais pelas ficções é porque elas me parecem ser a maior e melhor fonte não de nossas normas morais, mas de nosso pensamento moral.

11 janeiro 2007

Os sonhos dos adolescentes

Por que os adolescentes sonham com um futuro acomodado e razoável, que nem a nossa vida?

NA FOLHA de domingo passado, uma reportagem de Antônio Gois e Luciana Constantino trouxe os dados de uma pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais: em 2005, 16% dos adolescentes entre 15 e 17 anos de idade não freqüentaram a escola. Trata-se de 1,7 milhão de jovens. Alguns desistiram por falta de meios, de vaga ou de transporte escolar, outros adoeceram, mas, em sua maioria (40,4%), eles abandonaram os estudos por falta de interesse. Como disse uma entrevistada, "os professores eram muito chatos".
Os comentadores, na própria reportagem, acusam a pouca qualificação ou motivação de muitos professores e um sistema de avaliação que produz repetências. Concordo, mas talvez haja mais.
Ao longo de 30 anos de clínica, encontrei várias gerações de adolescentes (a maioria, mas não todos, de classe média) e, se tivesse que comparar os jovens de hoje com os de dez ou 20 anos atrás, resumiria assim: eles sonham pequeno.

É curioso, pois, pelo exemplo de pais, parentes e vizinhos, os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram, sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis.

Apesar disso, em regra, os adolescentes e os pré-adolescentes de hoje têm devaneios sobre seu futuro muito parecidos com a vida da gente: eles sonham com um dia-a-dia que, para nós, adultos, não é sonho algum, mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações.

Um exemplo. Todos os jovens sabem que Greenpeace é uma ONG que pratica ações duras e aventurosas em defesa do meio ambiente. Alguns acham muito legal assistir, no noticiário, à intrépida abordagem de um baleeiro por um barco inflável de ativistas. Mas, entre eles, não encontro ninguém (nem de 12 ou 13 anos) que sonhe em ser militante do Greenpeace. Os mais entusiastas se propõem a estudar oceanografia ou veterinária, mas é para ser professor, funcionário ou profissional liberal. Eles são "razoáveis": seu sonho é um ajuste entre suas aspirações heróico-ecológicas e as "necessidades" concretas (segurança do emprego, plano de saúde e aposentadoria).

Alguém dirá: melhor lidar com adolescentes tranqüilos do que com rebeldes sem causa, não é? Pode ser, mas, seja qual for a qualidade dos professores, a escola desperta interesse quando carrega consigo uma promessa de futuro: estudem para ter uma vida mais próxima de seus sonhos.

Aparte: por isso, aliás, é bom que a escola não responda apenas à "dura realidade" do mercado de trabalho, mas também (talvez, sobretudo) aos devaneios de seus estudantes; sem isso, qual seria sua promessa? "Estude para se conformar"?

Conseqüência: a escola é sempre desinteressante para quem pára de sonhar.

Em princípio, os jovens interpretam o desejo (inconsciente) dos pais e herdam os sonhos reprimidos atrás das vidas (fracassadas ou bem-sucedidas, tanto faz) dos adultos. Aquela fala chata dos pais, que evocam as renúncias que foram necessárias para conseguir criar os filhos, aponta o caminho de aventuras menos sacrificadas. Há uma guitarra empoeirada no sótão do comerciante ou do profissional cujo filho quer ser roqueiro. O que mudou? Duas hipóteses.

É possível que, por sua própria presença maciça em nossas telas, as ficções tenham perdido sua função essencial e sejam contempladas não como um repertório arrebatador de vidas possíveis, mas como um caleidoscópio para alegrar os olhos, um simples entretenimento. Os heróis percorrem o mundo matando dragões, defendendo causas e encontrando amores solares, mas eles não nos inspiram: eles nos divertem, enquanto, comportadamente, aspiramos a um churrasco no domingo e a uma cerveja com os amigos.

É também possível (sem contradizer a hipótese anterior) que os adultos não saibam mais sonhar muito além de seu nariz. Ora, a capacidade de os adolescentes inventarem seu futuro depende dos sonhos aos quais nós renunciamos. Pode ser que, quando eles procuram, nas entrelinhas de nossas falas, as aspirações das quais desistimos, eles se deparem apenas com versões melhoradas da mesma vida acomodada que, mal ou bem, conseguimos arrumar. Cada época tem os adolescentes que merece.

04 janeiro 2007

O segredo da vida de um casal



Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente

EM GERAL , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta).

No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um "viveram felizes para sempre", que seria a "óbvia" conseqüência da paixão.

No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?

Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal.

O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la "Dormindo com o Inimigo".
Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista "New Yorker" e em alguns livros (por exemplo, "Travels with Alice", viajando com Alice, de 1989, e "Alice, Let's Eat", Alice, vamos para a mesa, de 1978).

Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo?

Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.

Trillin escreveu "Sobre Alice", que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos.

O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de "Sobre Alice": "Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia". A graça está no fato de que a "propensão" de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel.

Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.
Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal.

Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.
Nota. Correção da semana passada: o site do Instituto Quatro Estações é www.4estacoes.com (sem br).